Quando o céu não escolhe lados
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Quando o céu não escolhe lados

Por Mira Pimentel


Foto: reprodução
Foto: reprodução

Correu a notícia de que um raio atingiu fiéis em Brasília.

Não um raio bíblico, desses que escolhem culpados,

mas um raio comum — desses que lembram que o céu não faz campanha.


Ainda assim, houve quem visse sinal.

E talvez seja mesmo.

Não de punição divina, mas de confusão humana.


Chamo-os de irmãos — irmãos equivocados.

Gente lavada não pela chuva, mas por discursos.

Discursos que misturam fé com planilha,

oração com rachadinha,

esperança com gabinete do ódio.


São homens e mulheres que aprenderam a chamar crueldade de ordem,

morte de justiça,

exclusão de vontade de Deus.


Para eles, corpos LGBTQIA+ são exagero.

Nordestinos são estatística.

Comunidades violentadas são dano colateral.

E a liberdade — quando não é a deles — vira ameaça.


A frieza se tornou virtude.

A morte do diferente, normal.

Tudo autorizado por um céu que jamais disse isso.


Mas a história fala.

E fala alto.


Fala quando lembramos que houve um tempo

em que torturadores foram exaltados em plenário.

Quando um deputado homenageou um homem conhecido como terror —

não de criminosos,

mas de uma mulher presa, violentada, silenciada: Dilma Rousseff.


O nome era Carlos Alberto Brilhante Ustra.

O cargo, coronel.

O legado, dor.


Nada disso foi acidente.

Cada palavra dita ali autorizou outras.

Cada riso no plenário abriu caminho para o delírio autoritário

de que força substitui humanidade.


E enquanto alguns ainda marcham rumo ao passado,

o Brasil que pensa foi indicado ao futuro.


The Secret Agent, com quatro indicações ao Oscar,

nos lembra — com arte —

que ditaduras não acabam quando os tanques vão embora.

Elas permanecem quando a memória é negada

e a violência é romantizada.


O raio que caiu em Brasília não escolheu lado.

Mas iluminou o chão por um segundo.


Tempo suficiente para vermos

quem ainda caminha às cegas

e quem insiste em lembrar

que sem democracia,

ninguém está realmente salvo —

nem mesmo os que acreditam estar protegidos pelo céu.


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Mira Pimentel é cronista

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