Cão Miúdo
- Jornal Daki
- há 2 minutos
- 3 min de leitura
SÃO GONÇALO DE AFETOS
Por Paulinho Freitas

O bairro Trindade é conhecido por sua praça gastronômica e pelo famoso carnaval, cheio de bate bolas, os mais belos de São Gonçalo, sua história também é muito interessante e você pode conferir na coleção de livros CAMBADA do nosso querido professor Erick Bernardes.
Lá também tem personagens magníficos como CHITA, mestre de Capoeira engajado na luta pelo reconhecimento da arte e cultura do povo negro. CHITA, um negro enorme, cheio de músculos, à primeira vista intimida qualquer um, mas basta chegar perto para perceber o gentleman que ele é. Polido e educado, incapaz de uma grosseria com alguém.
Do outro lado da cidade, na divisa entre Santa Isabel e Ipiibas, um lugar esquecido pelo poder público, sem saneamento básico e calçamento, transporte público, nem pensar. Quando é frio, é muito frio, e quando é quente, é um calor insuportável.
Neste lugar, que parece parado no tempo, há anos atrás nasceu Antonio Candira, numa noite de sexta-feira santa, em que a chuva caía com vontade, raios azuis cortavam o céu e os trovões faziam o chão estremecer. Os gritos de dor daquela mãe ecoava pelos pastos, os cães uivavam e o gado mugia como se pressentissem uma presença ruim.
Quase ao amanhecer Antônio Candira veio ao mundo. Uma criança que nasceu sorrindo e para espanto de todos, já nasceu com dois dentes. A criança não chorou, nem quando a parteira deu aquele famoso tapinha na bunda. Pelo contrário, olhou para a parteira com olhos de vingança.
Vinte e cinco anos depois, aquela criança que cresceu fazendo todos os tipos de maldade com pessoas e animais, destemido, covarde da pior espécie, o coisa ruim em pessoa, tanto que antes dos dez anos de idade recebeu o apelido de Cão Miúdo, sem amigos e sem nunca ter namorado ninguém, a não ser pagando em prostíbulos, resolveu brincar carnaval na Praça da Trindade. Embarcou num ônibus no Pátio Alcântara, a condução estava cheia e ele ficou perto da porta. Logo atrás dele sobe o cansado CHITA, que depois de mais um dia de trabalho, só queria chegar em casa.
Sem querer, pisou no pé de Cão Miúdo, prontamente pediu desculpas, mas nem terminou de falar, Cão Miúdo começou a agredi-lo. CHITA se defendeu o quanto pôde, mas chegou uma hora em que teve que teve de fazer Cão Miúdo parar. Aplicou-lhe um golpe que o desacordou, aproveitou a confusão, desceu do ônibus, mas antes de chegar no próximo ponto recebeu um golpe pelas costas. Era Cão Miúdo de novo. CHITA batia, Cão Miúdo caía, levantava e voltava para lutar. CHITA cansou de bater, deu um golpe mais forte, Cão miúdo ficou tonto, ele aproveitou e correu, muito, conseguiu pegar outra condução e chegar em casa.
Enquanto CHITA dormia o sono dos justos, lá na praça da Trindade, Cão Miúdo quebrava barracas, batia nas pessoas, fez um inferno, até ser atingido por três tiros. Passou por várias cirurgias, esteve entre a vida e a morte, meses de fisioterapia. Enfim novo, de novo. Já está fazendo da vida dos vizinhos um inferno.
Apesar de seus 1,55m de altura, ninguém atura Cão Miúdo numa briga. Diz ele estar pronto para o carnaval e vai sair de bate bola, vai participar do concurso anual lá na praça da Trindade e se perder já sabe né...
Ainda bem que eu vou para a Marquês de Sapucaí com meu Tigre. Deus me livre!
Nos siga no BlueSky AQUI.
Entre no nosso grupo de WhatsApp AQUI.
Entre no nosso grupo do Telegram AQUI.
Ajude a fortalecer nosso jornalismo independente contribuindo com a campanha 'Sou Daki e Apoio' de financiamento coletivo do Jornal Daki. Clique AQUI e contribua.

Paulinho Freitas é sambista, compositor e escritor


















































