Um Quilo de Feijão (ou Sobre o Que Restou do Caráter)
- Jornal Daki
- há 2 minutos
- 2 min de leitura
Por Mira Pimentel

Ainda está escuro quando eles saem.
O dia nem abriu os olhos e já exige tudo: tempo, corpo, obediência, silêncio.
Há quem venda a força física, há quem alugue a própria consciência, há quem entregue a vida prazerosa em parcelas longas , tudo em troca do essencial. Às vezes, apenas de um quilo de feijão.
As pessoas comuns carregam histórias distintas, mas dividem o mesmo peso.
Nem todos têm o mesmo caráter, nem a mesma coragem. Alguns ainda preservam princípios como quem guarda fósforo em dia de vento. Outros aprenderam a negociar valores, não por maldade, mas por medo. O medo virou freio. Freio de dizer não. Freio de denunciar. Freio de sonhar.
O caráter, que um dia foi orgulho, hoje é luxo.
Foi esquecido nas esquinas da fome, nas filas do desemprego, nos becos da sobrevivência. Quando a urgência aperta, a ética passa fome primeiro. E assim, pouco a pouco, o certo vai sendo relativizado, não por convicção, mas por exaustão.
O trabalho começa cedo e termina tarde, mas raramente termina por dentro.
Há quem se curve para manter o emprego, há quem feche os olhos para não perder o pouco que tem. A consciência vai sendo vendida em suaves prestações, enquanto o discurso oficial chama isso de adaptação.
O vendedor de picolé continua ali.
O mesmo carrinho, o mesmo sino, o mesmo sol queimando a nuca.
Décadas passam e ele permanece no mesmo ponto, como se o tempo não tivesse direito de alcançá-lo. Poderia hoje ter uma distribuidora, empregar outros, crescer. Mas o capitalismo que se diz meritocrático não atende a esses corpos. A competição é desleal desde a largada. Falta crédito, sobra cobrança.
Para alguns, o sistema oferece atalhos.
Para outros, apenas obstáculos.
E é nesse desequilíbrio que a corrupção se infiltra — não apenas nos grandes esquemas, mas no cotidiano miúdo: no favor trocado, na propina normalizada, no “todo mundo faz”. A corrupção cresce quando o caráter é empurrado para o canto e o medo assume o volante.
O prazer, então, vai sendo adiado.
Empurrado para o sábado, comprimido no domingo, liberado nas folgas. Vive-se em função do alívio, não da realização. Bebe-se, dança-se, exagera-se — não por excesso de alegria, mas por escassez dela. O prazer vira fuga. Nunca projeto.
Ainda assim, algo resiste.
Há quem, mesmo com pouco, ainda escolha o caminho mais difícil. Há quem preserve o caráter como oração silenciosa. Esses sustentam o tecido invisível do país. São eles que impedem o colapso completo.
Porque o prazer de viver só se estabelece quando existe horizonte.
Quando o futuro não é repetição da escassez.
Quando a dignidade deixa de ser exceção e passa a ser promessa concreta.
Até lá, eles seguem.
Saem cedo.
Carregam o mundo nas costas.
E mesmo feridos, mesmo cansados, ainda acreditam , às vezes sem palavras que sobreviver não pode ser o destino final da vida.
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Mira Pimentel é cronista e escritora.


















































