top of page

São Gonçalo: Diário Oficial registra 'dança das cadeiras' e escancara moeda de troca eleitoral

A Secretaria de Educação de São Gonçalo trocou 18 chefias em 10 dias. O movimento ocorre em meio a um racha político que opõe o prefeito Capitão Nelson (PL) ao ex-vereador Maciel, que denuncia retaliações por sua recusa em apoiar o filho do prefeito na disputa para a Alerj. Cargos comissionados e contratos via RPA escancaram o uso da máquina pública como moeda de troca


Por Cláudio Figueiras


Prefeitura de SG/Foto: reprodução
Prefeitura de SG/Foto: reprodução


Os Diários Oficiais de São Gonçalo registraram, entre os dias 11 e 20 de agosto, uma intensa movimentação de cargos comissionados. O fenômeno foi mais expressivo na Secretaria Municipal de Educação, que acumulou 18 exonerações e 18 nomeações de chefes de departamento e de gestão educacional no período — uma média de quase quatro trocas por dia.


O movimento, no entanto, não se limitou à Educação. A Secretaria de Conservação — pasta responsável pelo contrato com a Força Ambiental (coleta de lixo) e pela modelagem da PPP do lixo — também teve substituições de chefia nos dias 7, 11, 14 e 17 de agosto.


A "rica" Secretaria de Desenvolvimento Urbano, que concentra o maior volume de obras da prefeitura, também teve trocas de comando no mesmo período.


O padrão de substituições em massa ocorre em um contexto de tensão política que opõe, em lados opostos, duas figuras que costumavam estar sempre aliadas: o prefeito Capitão Nelson (PL) e o ex-vereador Maciel.


O estopim da crise foi o lançamento da candidatura do irmão de Maciel, o vereador Alcemir Maciel (Avante), a deputado estadual. A decisão contrariou os planos do grupo governista, que priorizou a candidatura de Nelsinho Ruas (PL), filho de Capitão Nelson e irmão do candidato a governador Douglas Ruas (PL).


Em vídeo publicado nas redes sociais, Maciel afirmou ter sofrido pressões e recebido propostas de integrantes do governo — incluindo do próprio Douglas Ruas — para retirar o apoio ao irmão em favor de Nelsinho.


Segundo o ex-vereador, foi somente após negar o apoio a Nelsinho que as demissões em massa de seus indicados aconteceram. Ele alega que boa parte de seus indicados foi afetada — incluindo a maioria dos servidores de um posto de saúde no bairro Jardim Catarina.


Os Diários Oficiais confirmam a "dança das cadeiras". Na Educação, no dia 11 de agosto, foram exonerados 11 chefes de departamento e nomeados outros 11 para as mesmas funções. No dia seguinte, mais 7 exonerações e 7 nomeações. A partir de então, o padrão se repetiu em menor escala nos dias 14, 17, 19 e 20 de agosto.


Outro fenômeno observado foi a publicação de nomeações que, dias depois, foram "tornadas sem efeito" — um movimento que pode indicar desistência, impedimento legal, desorganização administrativa ou, até mesmo, um entendimento entre as partes em litígio.


Após a denúncia pública de Maciel, não houve novos desdobramentos, o que sugere que a própria movimentação de cargos pode ter funcionado como um mecanismo de negociação política.


A "dança das cadeiras" nos Diários Oficiais é apenas a parte visível de um problema estrutural: o uso de cargos públicos como moeda de troca política. A denúncia do ex-vereador Maciel escancara essa prática ao relatar que as exonerações de seus indicados começaram após sua recusa em apoiar o filho do prefeito na disputa para a Alerj.


O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro já havia declarado inconstitucionais os mais de 3 mil cargos comissionados criados pela Lei Municipal nº 1.416/2022, exatamente por reconhecer que sua criação atendia a interesses políticos, e não à qualificação técnica.


O tribunal entendeu que os cargos foram criados sem exigências mínimas de qualificação — apenas idade superior a 18 anos e ensino médio — o que evidencia seu propósito essencialmente político. A decisão, publicada em 1º de junho de 2026, determinou a exoneração de todos os ocupantes desses cargos.


O ex-vereador subiu o tom e prometeu uma série de vídeos expondo as investidas de Douglas Ruas e outros "segredos" que supostamente sabe sobre a gestão de Capitão Nelson.


“Se você se sentir ofendido, vá ao Ministério Público, porque eu tenho todos os prints, todas as conversas, todos os acordos que você fez comigo, me oferecendo mundos e fundos para ajudar o seu irmão”, afirmou Maciel.


Além da questão eleitoral, ele afirmou ter informações comprometedoras sobre contratos da administração municipal.



Na Saúde, cargos invisíveis


Enquanto os Diários Oficiais registram a troca de algumas chefias em diversas secretarias, a maior parte da força de trabalho de uma outra pasta permanece invisível ao cidadão. A Saúde de São Gonçalo tem mais de 10 mil funcionários atuando com RPA (Recibo de Pagamento a Autônomo) — regime que não exige publicação em Diário Oficial para nomeação ou exoneração.


Apenas cerca de 800 servidores são efetivos. A folha dos RPAs chega a R$ 21 milhões mensais.


O uso de RPA já é alvo de ação civil pública no Ministério Público, processo no Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) e processo administrativo contra a administração. Em audiência pública na Câmara Municipal, o próprio controlador da Saúde admitiu que não sabe dizer quais valores da folha são pagos via RPA. O portal da transparência, segundo os técnicos, ainda está em fase de implementação.


Isso significa que a "dança das cadeiras" nos Diários Oficiais é apenas a ponta do iceberg. Na Saúde, onde a maioria dos trabalhadores é contratada sem qualquer registro público, a troca de pessoal — e o uso político dessas contratações — pode ocorrer sem que o cidadão tenha acesso à informação.


Procurados, o prefeito Capitão Nelson e Douglas Ruas não se manifestaram até o fechamento desta reportagem. O espaço está aberto para manifestação.


Nos siga no BlueSky AQUI.

Entre no nosso grupo de WhatsApp AQUI.

Entre no nosso grupo do Telegram AQUI.

 

Ajude a fortalecer nosso jornalismo independente contribuindo com a campanha 'Sou Daki e Apoio' de financiamento coletivo do Jornal Daki. Clique AQUI e contribua.

Comentários


POLÍTICA

KOTIDIANO

CULTURA

TENDÊNCIAS
& DEBATES

telegram cor.png
bottom of page