top of page

Sonho sonhado

13 de ago.
5 min de leitura

SÃO GONÇALO DE AFETOS

 

Por Paulinho Freitas


Foto: Jornal Daki com IA
Foto: Jornal Daki com IA

Rogerio da Silva é compositor, escritor e poeta. Seus escritos, cheios de sentimento - e, para alguns, utópicos à realidade - nunca fizeram sucesso ou agradaram alguém. Pelo menos ninguém demonstrava interesse. Ouviam, elogiavam, algumas pessoas até pediam para tocar outra vez, outras pediam a letra, mas gravar e editar mesmo que é bom, ninguém. 


O compositor quer cantar e ficar olhando a reação das pessoas, o brilho nos olhos, receber o aplauso, isso é o que importa. Para ele um elogio, mesmo que falso vale muito mais que milhões de dólares, um caramba! Que poeta você é! Sua escrita é fascinante! 


Parecia que tinha fumado, cheirado ou se aplicado. Essas palavras entravam no ouvido de Rogério feito droga pesada e ele viajava, entrava em transe. Nessa hora a inspiração era seu segundo nome e ele pegava a caneta e ia desenhando sua alma no papel, rasgando seu peito e pondo ali, em forma de poesia. Chegava a lacrimejar e com o coração fazendo mais barulho que banda de rock pauleira declamava seu novo poema para Maria Alice, que de cabeça baixa estava, de cabeça baixa ficava. 


Rogério ficava murcho como um balão de aniversário no dia seguinte da festa. Mesmo vendo o desinteresse dela diante de sua arte, teimava em perguntar a opinião dela que sempre repetia a mesma coisa: 


_ Meu amor, suas poesias, suas músicas, são maravilhosas, de verdade, adoro ouvi-las e lê-las. Mas são alimento para a alma, para o coração, para aculturar. Agora, nosso filho precisa de fraldas, de leite, de remédio, de roupas e calçados. Daqui há bem pouco tempo, de escola e um mundo de coisas que nem poesia e nem música podem comprar. A não ser que alguém as compre primeiro. Nossas necessidades são supridas com dinheiro. Não posso pagar nossas contas com poesia e musica. Ponha os pés no chão para não perder o emprego novamente. A gente já vive num perrengue danado. Já pensou você desempregado, quem iria nos socorrer?  


Rogério estava cada vez mais para baixo, mas sua mente não parava de produzir, enviava seus rascunhos para as editoras e nenhuma se manifestava. Às vezes chorava e se distraia no trabalho pensando numa forma de fazer sua imaginação se transformar numa ferramenta que lhe desse algum retorno financeiro. Seria a redenção. 


Numa tarde de sábado, após sair do trabalho no posto de gasolina, era frentista, saiu caminhando até o Rodo Shopping. Na praça de alimentação pensou em pedir um Chopp. O dinheiro que tinha só dava para um café, o resto teria que entregar a Maria Alice para as despesas da semana vindoura. “Vida de merda!” Pensou alto socando o ar enquanto o café quente descia queimando a garganta. Abaixou a cabeça para que ninguém o visse chorando. 


Quando levantou a cabeça deu de cara com uma senhora sentada à sua frente. Ela era bem mais velha que ele, mas parecia bem mais jovem comparando os dois olhares. Os dela eram vibrantes, alegres, explodindo em vida, enquanto os dele era de uma pessoa que só seguia em frente. Perdida. Alguém numa cidade grande com pessoas andando depressa para lados opostos e ele no meio daquela confusão. Quando os olhares se encontraram ela deu uma gostosa gargalhada, falando ao mesmo tempo: 


_ Me desculpe. Te confundi com outra pessoa. Aí meu Deus, que vergonha! Meu filho se parece muito com você e tem mania de ficar de cabeça baixa assim, do jeito que você estava. Ele é escritor e músico. Tem uma editora também. Trabalha muito e o tempinho que tem fica por aqui, tomando café e imaginando suas histórias e poesias. Mais uma vez me desculpe. 


Quando ele já ia se levantando ele a segurou pelo braço e pediu: 


_ Por favor senhora. Foi Deus quem a mandou aqui. Sou escritor, poeta e compositor. Já enviei material para muitas editoras e nenhuma delas me deu uma oportunidade. Será que seu filho não dava uma olhada nas minhas coisas?  


Rogério tirou do bolso sua última poesia e mostrou a ela que já estava metade de pé e metade sentada. Ela começou a ler, ainda mais para levantar do que para voltar a sentar, o que o fez logo após primeira frase lida. Quando terminou de ler já estava sentada novamente, estava em êxtase. A poesia era linda. Abriu um largo sorriso e exclamou: 


_ Que linda! Que sensibilidade! Lógico que ele vai ver e se as outras coisas tiverem a mesma qualidade pode ficar certo de que ele vai publicar. É sucesso certo. Vou te passar o telefone dele e o endereço da editora. Vou falar com ele para te receber. 


Quando ela estava anotando o endereço ele ouviu uma voz suave o chamando e mãos acariciando sua cabeça: 


_ Amor, amor, está na hora. O alarme já tocou duas vezes. Amor... 


Era Maria Alice. O dia já estava clareando, eram cinco horas da manhã, ele tinha que estar no trabalho às seis e lá no bairro Jardim Califórnia o ônibus passa às cinco e meia em ponto, “piscou, perdeu! ”, outro, só Deus sabe quando. Rogério deu um pulo da cama, já levantou dentro do macacão., desceu o morro correndo e chegou no ponto junto com o ônibus. De pé, segurando no balaústre pensava no sonho. Tinha sido tão real, parecia um aviso. 


Trabalhou ansioso, a todo momento olhava o relógio. As horas pareciam coladas nos ponteiros de seu relógio de pulso. Às duas da tarde, findo expediente, saiu correndo em direção ao Rodo Shopping. Pediu um café e ficou olhando em todas as direções, procurando aquela senhora com olhos de vida. 


Rogério vê uma mulher se aproximando, ela era muito elegante, com uma bolsa em couro, um blazer preto também em couro e um andar daqueles de alta sociedade de novela das nove, com um olhar altivo, parecendo procurar alguém. Ele grita mentalmente: “Estou aqui!” 


Ela era diferente daquela do sonho. O semblante dela era sério, olhar inquisidor e com aquele ar de superioridade de pessoas bem sucedidas, que acham que quem está em baixo é para ser pisado, tem gente assim, mas para Rogério isso não estava importando, se seus escritos fossem publicados, uma pisada a mais ou  a menos não faria diferença, já era pisado de graça mesmo.


Ela vem chegando, passou pela lotérica, Deu uma olhada na loja ao lado, atravessou para o outro lado, de lá olhou em sua direção e sorriu como se dissesse: “achei! ” E veio se aproximando.


O coração de Rogério parecia que ia sair pela boca. Chegou perto de sua mesa, ele já ia se levantando para puxar a cadeira para que ela se sentasse. Foi quando ela passou direto, abraçou uma amiga que estava atrás dele, festivamente sentaram-se e começaram a conversar, sorrindo com a felicidade do encontro.  


Rogério da Silva abaixou a cabeça para que ninguém o visse chorar. Ficou ali tanto tempo que nem percebeu uma pessoa na frente dele. Era o segurança do shopping avisando:


Boa noite senhor! Já vamos fechar. 


Antes de sair, Rogério ainda prestou atenção na música que tocava no som ambiente do shopping, talvez a última daquela noite: “Era só mais um Silva, que a estrela não brilha...” 


Bem-vindo ao clube, Rogério. 


 Obs: Completo com esta crônica, seis anos ininterruptos escrevendo histórias semanais para o Jornal Daki. Muitos foram os responsáveis por isso. Eric Costa e Oswaldo Mendes, um me indicando ao outro para uma entrevista; o Helcio Albano que resolveu apostar, editar meus livros e me convidar para ser cronista de seu jornal; e a Kátia Regina, que faz a primeira leitura, sempre. A cada texto me sinto como se estivesse escrito o primeiro. Me emociono, fico feliz e agradecido por tanto. 


Obrigado querido leitor, obrigado Eric Costa e Oswaldo Mendes, obrigado Helcio Albano, obrigado Kátia Regina. Ops! Siqueira.


Sigamos! 


 Nos siga no BlueSky AQUI.

Entre no nosso grupo de WhatsApp AQUI.

Entre no nosso grupo do Telegram AQUI.

 

Ajude a fortalecer nosso jornalismo independente contribuindo com a campanha 'Sou Daki e Apoio' de financiamento coletivo do Jornal Daki. Clique AQUI e contribua.



Paulinho Freitas é compositor, sambista e escritor.

Comentários


POLÍTICA

KOTIDIANO

CULTURA

TENDÊNCIAS
& DEBATES

telegram cor.png
bottom of page