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Ron Merino: uma indústria gonçalense - por Erick Bernardes


Foto:  https://www.catawiki.com/pt/l/28985905-ron-merino-prata-seco-brasil-54-b-decada-de-1960-decada-de-1970-0-75-l
Foto: https://www.catawiki.com/pt/l/28985905-ron-merino-prata-seco-brasil-54-b-decada-de-1960-decada-de-1970-0-75-l

¿Eso es una botella de ron?


Minha primeira reação foi pensar em dizer que sim. Mas refleti, lembrei das aulas de teoria da literatura acerca da representação das coisas — e respondi que se tratava apenas de uma fotografia da bebida preferida dos piratas. As imagens não são as coisas, somente representações. Aquilo era a projeção do Datashow na figura de uma garrafa do Ron Merino, bebida outrora produzida em larga escala no município gonçalense.





A atenção na didática da professora de espanhol do CIUG (Centro Interescolar Ulysses Guimarães) foi o suficiente para eu ter a certeza de que ela iria contextualizar a aula. Exato, aula de espanhol — e o assunto enveredou pela explicação de que o rum consistia na bebida preferida dos piratas do Caribe. Achei interessante a conexão, afinal, a língua dos piratas da América Latina parece ter sido majoritariamente o idioma espanhol. Incrível a tática da docente, informação do geral para o particular, com certeza na sequência a professora entraria na geografia e na história de São Gonçalo, no intuito de explicar a gramática castelhana. Isso que é metodologia, atravessamentos didáticos, compartilhamento de saberes, gostei. É claro que gostei. E assim se deu, uma explicação multidisciplinar:


Nosotros todos merecemos saber nuestra historia. Necesitamos el conocimiento alrededor de nosotros mismos.



A aula se mostrou maravilhosa. Lembrei que, ao ser misturada à Coca-Cola, chamavam-na de Cuba-libre. Aprendi que a fábrica de rum denominada Ron Merino, quando inaugurada no bairro de Neves (n. 444), na rua Barão de São Gonçalo, em 1946, foi a primeira a produzir a tal bebida feita do melaço da cana-de-açúcar. Verdade, fundada pelo cubano de sobrenome Merino, há informações de ela haver sido a maior produtora do gênero da América do Sul. Até que fechou as portas na década de oitenta, pois foi comprada pela indústria Cinzano. Não sei, confesso que não sei, quando se trata de datas tenho cá minhas limitações. Mas aprendi, também no idioma castelhano, a valorizar mais a nossa história.



— Isso sim foi aula interessante, professora.

— Gracias. ¡Hasta pronto!


* Nota do autor: essa crônica é uma homenagem aos professores do CIUG pela dedicação e resiliência no exercício da profissão.

Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.