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Jockey Club de São Gonçalo ou o bairro nostalgia - por Erick Bernardes


Há no mundo dessas situações em que a realidade e a ficção se irmanam e dão vazão a casos estranhíssimos como o que presenciei. Pois é, quis o destino me apresentar um desses cavaleiros de cinema, justamente no município de São Gonçalo.

Certa madrugada de pouca lua e muita maluquice, deparei com a caricatura de um imponente cavaleiro de capa, luvas escuras e chapéu gigante. Verdade, logo às quatro e quarenta da manhã, indo trabalhar, vejo um daqueles sósias do personagem Zorro atravessar a porta do ônibus com destino ao Jockey, como se o mundo precisasse dos seus atos heroicos. Incrível como ninguém achou esquisito o velho fantasiado bem ali na minha frente. Estranhíssimo cidadão, homem todo vestido de negro, bigode e sobrancelhas tingidas de henê rená com pasta de jaborandi; só faltava a máscara impertinente e a espada folgazã.

Ele mora ainda hoje no bairro que no passado sediou de verdade o Jockey Club de São Gonçalo. Aliás, tem justamente esse nome de logradouro devido aos cavalinhos e seus montadores coloridos disputando páreos para os lados de cá. Inacreditável, não é? Quem diria: uns pocotós do passado viriam nomear a localidade vizinha aos bairros Arsenal, Anaia, Jardim República, enfim, abrigaram comunidades inteiras nessa região de São Gonçalo. Contudo, coincidência ou não, o tal Zorro amarrotado mora mesmo no lugar mais conveniente ao passado cavaleiro onde o bairro se formou.



Mas, cá entre nós, que o leitor há de convir, entre um Jockey profissional e um neurótico fã de série televisiva, existe um mar de disparidade a lhe servir de ilustração. Não usemos de subterfúgios, o Jockey é sim lugar perigoso, como muitos locais daqui do nosso município. No entanto, é terra de gente amiga e que batalha duro para ter um mundo melhor. Isso sim, é verdade.

Se o neurótico e esquisito Zorro do Jockey é de fato algum tipo de herói? Bem, provável que não. Entretanto, de modo geral, os moradores do bairro se revelam a cada dia guerreiros contemporâneos. É tanta negligência do Estado, transporte precário, ausência da segurança pública, mas eles mantêm o seu quinhão de perseverança e o sorriso no rosto. Aos amigos do Jockey, toda a minha reverência!

>>> Publicado originalmente em 12/05/2019.


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Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.


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