Enredos da vida
- Jornal Daki
- há 48 minutos
- 3 min de leitura
SÃO GONÇALO DE AFETOS
Por Paulinho Freitas

Para quem convive numa quadra de escola de samba, tudo vira samba. A vida lá nos presenteia com encontros e histórias tão diferentes e inimagináveis que você não consegue sair de lá. É como se você vivesse num mundo diferente todas as vezes que você chega lá.
O consagrado escritor Gonçalense Erick Bernardes, em seu livro CAMBADA, nos conta a história dos bairros e lugarejos da cidade. Numa das crônicas, nos brinda com a história do personagem inspirador do nome do bairro Luiz Caçador. Muito interessante a leitura, você fica com a história na cabeça para sempre.
Pela pressa em realizar mil coisas ao mesmo tempo e achando que este mesmo tempo vai nos dar tempo de voltar no mesmo lugar para ouvir e aprender, deixamos escapar grandes oportunidades. O tempo não espera ninguém.
Nas notícias de carnaval vejo o enredo da escola de samba Unidos do Salgueiro, aqui de São Gonçalo: “Luiz Caçador: O mito é a fé”. Na hora me lembrei do Erick e do meu grande amigo Nier Ribeiro. Ele viveu grande parte da vida ali pelos lados de Itaúna e arredores. Me contou uma vez que estava com o próprio Luiz Caçador quando uma senhora chegou chorando, dizendo que o filho estava muito doente e os médicos disseram que mais nada poderiam fazer pelo garoto. A doença já tinha tomado todo o seu corpo e seria questão de poucos dias para que ele desencarnasse.
O curandeiro, rezador ou feiticeiro, acho que ninguém teve a definição do que ele realmente era, tamanho o poder de sua fé no invisível, perguntou onde estava o menino, a mulher respondeu que o menino estava em casa. Luiz Levantou, foi até a um viveiro cheio de pombos, demorou-se a escolher um, levou a ave até o rosto e ficou cochichando coisas em seu ouvido. Caminhou até o centro do quintal e soltou o bicho que rapidamente desapareceu no céu.
Todos em silêncio. A mulher, sem forças só soluçava, Nier olhava para onde o pombo tinha voado, Luiz Caçador continuava com suas rezas e pedidos não se sabe a quem. Depois de algum tempo o pombo reapareceu, veio voando rápido como um foguete e caiu morto aos pés do feiticeiro. A mulher ficou paralisada, Nier com os olhos estalados e Luiz Caçador com a maior calma do mundo disse a mulher: _ pode ir embora seu filho está salvo.
Se eu que não vivi este momento fiquei todo arrepiado, imagina meu amigo.
Nier se afastou da escola, raramente aparecia e não conversamos com a frequência de antigamente. Na pandemia meu amigo Nier subiu para outro plano.
A vida nos presenteia com estes momentos únicos e não aproveitamos. Quantas histórias Nier devia ter com Luiz Caçador, quanta coisa se perdeu com sua partida.
A vida põe o caminho à nossa disposição e a gente segue em direção contrária. Nos dá o enredo, o papel e a caneta, desperdiçamos o momento e a inspiração se vai para nunca mais voltar. Que pena!
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Paulinho Freitas é compositor, sambista e escritor.












































