O silêncio das ruas é o silêncio dos corações?
- Jornal Daki

- há 6 horas
- 4 min de leitura
Por Oswaldo Mendes

Para quem acompanhou 23 períodos eleitorais, as ruas de São Gonçalo provocam estranhamento. Pelo que se vê. E, principalmente, pelo que já não se vê.
Faltando poucos dias para a eleição, percebe-se pouca conversa, pouco movimento, poucas candidaturas presentes no cotidiano da cidade. Aqui e ali, algumas bandeiras. Nas redes sociais, porém, a eleição parece ocupar tudo. As incertezas são enormes, as acusações também. Na rua, o silêncio.
Essa percepção não equivale a uma pesquisa. É o olhar de quem vive a cidade e guarda lembranças de outras eleições. Mas essa diferença, desperta uma pergunta: o que aconteceu com a disposição de conversar?
Com determinado político experiente, em conversas mantidas ao longo de décadas conversávamos sobre a cidade, o Estado e a política. Sempre discutíamos sobre a cidade, os males do extremismo e da dificuldade de manter o diálogo quando a divergência se transforma em ofensa ou pior. A inteligência, acompanhada da experiência, permitia reconhecer o desgaste que a intolerância impõe à convivência. Essas conversas, mantidas até perto de sua morte, continuavam atuais.
Hoje, uma opinião pode custar uma amizade. Seu pedido de exame no posto de saúde nunca mais será atendido. Uma eleição entra pela porta de casa e se instala à mesa, entre pais e filhos, irmãos, pessoas que construíram uma vida de afeto e, de repente, já não conseguem falar de política sem se ferirem.
Será que parte desse silêncio é uma defesa?
Uma pessoa pode ter escolhido seu candidato e não querer declarar. Pode desejar uma mudança e não confiar em quem se apresenta para realizá-la. Pode estar cansada de discutir. Pode também ter medo. A ausência de uma bandeira na janela pouco revela sobre o que se passa dentro de uma casa.
Nesse cenário, preocupa o avanço de uma extrema direita que faz da hostilidade uma maneira de ocupar o debate. Quando o adversário passa a ser tratado como inimigo, a conversa se estreita. Quem não aceita gritar pode acabar se retirando. E os que continuam gritando passam a parecer mais numerosos do que talvez sejam.
O candidato acostumado ao churrasquinho, ao café e à conversa no bar, também encontra outra realidade. A proximidade já não acontece com a mesma facilidade. Enquanto isso, a tela entrega uma sucessão de personagens, denúncias explosivas e frases prontas. Muitas vezes, a apuração não acompanha a velocidade da acusação.
As campanhas antigas também tinham seus problemas. O aperto de mão podia esconder uma promessa vazia. Mas havia, naquela conversa, a possibilidade de perguntar e de observar a resposta. A perda desse espaço preocupa, sobretudo quando não surge outro em que o eleitor encontre escuta.
E quando a essa mistura se acrescenta Deus?
A fé merece respeito, e uma comunidade religiosa pode oferecer amparo indispensável. A inquietação aparece quando alguém se apresenta como intérprete da vontade divina para determinar uma escolha eleitoral. Como discordar de uma orientação política se ela vem acompanhada do peso de uma obrigação espiritual? Como questionar sem sentir que se está traindo a própria comunidade? Teocentrismo e falta de caráter!
Tudo isso se torna mais delicado onde faltam oportunidades, o acesso à educação é limitado e a violência restringe até o direito de circular. Pouca escolaridade não significa pouca inteligência. Há muita compreensão da vida em quem teve poucas oportunidades de estudar. Mas escolher exige também acesso à informação, tempo, alternativas e segurança.
Quem depende de uma rede de ajuda conhece o peso de contrariar pessoas. Quem vive sob ameaça aprende a medir palavras. Às vezes, o silêncio é o cuidado possível para conseguir seguir o dia.
Seu voto não representa a possibilidade de melhoria das condições de vida, melhores indicadores na saúde, educação, Meio Ambiente, transporte, moradia ou segurança. Seu voto é devolvido com aumento exorbitante no patrimônio daqueles em quem votou.
É nesse ponto que a distância do Estado como presença de proteção se torna ainda mais grave.
Para o morador que pouco encontra acolhimento, mas vê seu bairro aparecer repetidamente nas páginas policiais, que imagem do poder público vai sendo construída? Quem conhece sua rua pelo nome dos moradores, pelas necessidades das crianças, pelo esforço de quem sai cedo para trabalhar? Quem chega antes da tragédia?
As pessoas precisam se sentir seguras para falar. Mas falar para quem?
Quem recebe a reclamação e acompanha o que aconteceu depois? Quem permanece quando termina a eleição? Quem se responsabiliza por uma resposta?
Outro sinal de inquietação aparece no desejo de ir embora. Niterói, Maricá, Itaboraí, Rio de Janeiro, Saquarema surgem nas conversas como possibilidades de outra vida. Os dados precisam dizer qual é a dimensão desses deslocamentos. Mas o desejo de partir já merece atenção. O que acontece com o vínculo de uma pessoa com sua cidade quando ela passa a acreditar que suas chances estão sempre em outro lugar?
Essas perguntas talvez não tenham uma única resposta. As ruas observadas não representam, sozinhas, toda São Gonçalo. Nem todo silêncio é medo, nem toda ausência é desistência.
Ainda assim, essa eleição merece ser examinada para além da mudança das calçadas para as telas.
Pode haver pessoas preservando a família e a vida. Gente escondendo sua preferência. Gente esperando... Gente que já falou muitas vezes e não recebeu resposta... E pode haver quem continue amando esta cidade, mas esteja cansado de esperar por ela. “Quem sabe faz a hora”, já disse o poeta!
O silêncio das ruas é o silêncio dos corações?
Talvez exista muita coisa sendo dita por dentro. Falta saber quem está disposto a ouvir, inclusive depois que os votos forem contados.
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Oswaldo Mendes é engenheiro e professor.








































































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