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Proibido virar à esquerda

há 6 minutos
3 min de leitura

Por Pseudo-Protágoras


Igreja Matriz, centro da cidade/Foto: Pseudo-Ptotágora
Igreja Matriz, centro da cidade/Foto: Pseudo-Ptotágora

Ao seguir pelas ruas da cidade de São Gonçalo (RJ), seja de ônibus ou de "moto aplicativo", sempre encaro as placas de sinalização. Observo as coisas ditas banais, é um costume meu, não tem jeito... Em meio ao trânsito frenético, no alto dos postes está a intimação de ordem: uma seta recurva à esquerda transpassada por um corte rubro. Para bom entendedor, meia palavra basta. É proibido aos passantes seguirem pelo dito caminho. Acho que, para além do efeito prático, é como se as politicagens fantasmagóricas do passado revelassem, através do cotidiano, sua ironia trágica.


Originária de um feudo oligárquico, todos os dias esta cidade revela marcas odientas para tempos hodiernos. Os cidadãos convivem com a insegurança, a violência, os confrontos armados nas comunidades, a exploração e o abuso de poder... uma lástima atemporal que se atualiza a cada anoitecer. Infelizmente, um certo fundo ideológico vigora, desde o periférico aos doutos. Pode não parecer óbvio, mas os poderes regentes impõem ao citadino gonçalense um único trajeto: o reacionário.


Diversas narrativas construídas indicam diferentes rumos para o município. Existem alegorias de inovação, ampliação, segurança, saúde, modernização... e muitos etcs mais. Hoje, qualquer trabalhador, estudante ou aposentado, ao transitar pelas avenidas principais, verá obras de um lado para outro: ilustração de muros, reformas de praças e da Igreja Matriz, implantação de asfaltamento... é a dita "nova mobilidade urbana" rasgando a cidade ao meio. Porém, quem vê, desconhece o que aquilo será, como funcionará ou para quê servirá de fato.


Canso de ouvir, dentro das latas de sardinhas sem ar condicionado, as fantasias futuristas dos passageiros de que será um VLT que vai passar, igual na Capital, melhorando a qualidade do transporte público. Trágico. Mal sabem que é só uma pista para andar a pé ou de bicicleta, com fins eleitorais, torrando milhões. Onde já se viu colocar uma concorrência de transporte logo no lugar em que famílias políticas são donas das linhas de ônibus que circulam em toda cidade?


A cada esquina no centro tem um sinal de trânsito mandando parar. Nas avenidas, faixas são interditadas pois agora o sentido é único e não mais "de mão dupla". Dentro das comunidades adjacentes, onde o dito "poder paralelo" — que comunga do poder central — opera amedrontando, as vias e os Ruas impõem barricadas, físicas e sociais, ao povo gonçalense. E assim a liberdade de escolher destinos tem sido distorcida nas eleições recentes.


Com 80% da população reelegendo "salvadores da pátria", — que prometeram acabar com a bandidagem — as barricadas aumentaram como nunca antes. A maquiagem de uma "cidade nos trilhos", com obras para lá e pra cá, iludiu o eleitorado com uma visão de novos rumos. Coitados. A prefeitura não fez mais que a obrigação sua como gestor público.


O juízo crítico faltou na urna. Deve ser fruto de um falso moralismo. Um fenômeno que chamo de "reaça-cristã", pessoas ditas "conservadoras nos costumes, liberais na economia". O que vale é estar certo dentro do que convém. Nas igrejas de garagem, nos bares, nas filas de lotéricas, já ouvi repetidos discursos que demonizam os "comuna" que defendem auxílio federal para pessoas que não podem estudar, trabalhar ou comprar comida. E ainda os culpam pelo aumento dos preços, da violência, da precariedade pública... Como pode o pobre culpar o próprio pobre das vilezas do poder?


O gonçalense, em sua labuta, lida com caminhos espinhosos, envereda por todo tipo de buraco para sobreviver. Mal sabe que o trajeto que asfaltam, sinalizam e enfeitam, não é uma dádiva, mas sim uma conversão rumo ao retrocesso. Bem... ainda existem sonhadores que tentam mudar essa sina. Porém, assim como a placa de trânsito me levou ao meu pessimismo típico, talvez seja utópico demais ter um sentido à esquerda em São Gonçalo. E eis a antilogia vil desta cidade.


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Pseudo-Protágoras é meio pessimista, meio pensador que vive a cidade.



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