Tati
SÃO GONÇALO DE AFETOS
Por Paulino Freitas

Poucas pessoas que passaram pela minha vida foram ou são tão altivas como Tati. Ele nunca ligou para convenções ou crendices. A opinião dos outros era vista, analisada e colocada, na nossa época, num arquivo morto da mente. Hoje deletadas, sem julgamento, do HD mental para nunca mais serem lembradas. As crenças, da mesma forma, estudadas e seguidos os ensinamentos de cunho lógico, independente do viés apresentado.
Dizia ser ateu, pois entendia que Deus só queria ser amado. Amar mesmo não. Porque, se ele era dono de tudo e amava todo mundo da mesma forma, porque permitia as injustiças, as guerras, a fome, a desigualdade social, as doenças e tudo de ruim para alguns, sempre os mesmos e para outros, sempre os mesmos, as benesses? Se ele fez todo mundo a sua imagem e semelhança, ele seria os desprovidos de beleza convencional, os de defeito físico e mental, os injustiçados, os miseráveis, os que sofrem a vida toda e partem daqui sem nunca terem tido um dia feliz, ou os que pensam só em si em fazem todo o tipo de maldade com seu semelhante para ser cada vez mais possuidor de riquezas, os que pisam nos que estão embaixo para que nunca se levantem, e nunca fizeram nada para agradar ao ser supremo e têm em suas vidas só os horizontes ensolarados, sem nunca terem passado por uma dificuldade? Enquanto essas perguntas não fossem respondidas, se manteria ateu, porém tentaria cumprir o primeiro mandamento e amar indiscriminadamente, sem esperar que ELE, cumpra, primeiro, o que ordenou que fizéssemos.
Na nossa época de adolescência e juventude, usávamos shorts e camisetas de marcas famosas e tamancos ortopédicos. Tudo muito caro, mas que fazíamos das tripas coração, parcelávamos as compras, ficávamos sem outros itens básicos, mas estávamos sempre na moda. Tati nunca usou um short, a não ser no período em que esteve no exército. Usava uns bermudões e camisetas das mais baratas. Nos pés, sandálias de dedo para o dia a dia e nos encontros sociais, sandálias franciscanas. Nossas calças jeans também eram de marcas famosas e caríssimas para nossos parcos salários ou mesadas. Tati nunca as comprou ou usou.
Naquela época o bullying era liberado e Tati era o alvo preferido da rapaziada. O chamávamos de jeca, cafona e muitos apelidos. Tati não ligava e seguia a vida como se as pessoas que o avacalhavam não existissem.
Tati estava longe de ser o sonho das meninas, mas foi o que entre nós, mais namorou, pois tinha o poder de convencimento. A aparência não ajudava, mas se o deixassem falar, adeus viola. Tati era bom de papo.
Fiquei feliz, na sexta-feira passada, ao caminhar pela Av. 18 do Forte, encontrar Tati atracado com um espetinho de carne e um refrigerante, e nos trinta segundos que demorei para acreditar que era ele mesmo, notar que ele continua a mesma coisa. Depois de abraçá-lo e confessar, tardiamente, minha admiração e orgulho por conhecê-lo, ouvi com atenção ele dizer que depois de cursar faculdade de direito e fazer concurso para procurador federal, passar e ser empossado em Brasília, mudou-se para lá e vem ao Rio nas raras folgas que consegue e quando vem procura fazer o que o faz feliz, lembrar da juventude, andar pela cidade, sentir o cheiro das pessoas que o fizeram amadurecer como ser humano. Olhou para minha bermuda e começou a rir, disse que ele foi quem lançou essa moda lá atrás, na nossa adolescência. Procurou a etiqueta na minha camiseta e me parabenizou por não ter uma marca considerada de elite e me perguntou se eu ainda comungava os credos de antes. Diante de minha negativa ele me disse: “Antes tarde do que nunca”. Continue assim. Você ainda tem jeito. E saiu Tati arrastando suas sandálias de dedo, com a bermuda feita de calças já usadas e uma surrada camiseta. Seu carro estava estacionado na frente do shopping, um Fuscão ano 72, o mesmo que comprou num feirão nos idos de 1990 e mantido como item de colecionador por todos estes anos. Tati é feliz do seu jeito. Nunca fez mal a ninguém e nunca permitiu que mal nenhum chegasse nele.
Fico muito feliz em rever meu amigo e ver que ele não sucumbiu às vaidades e nem contribuiu para o sofrimento de ninguém. Tati é exemplo de equilíbrio. Teve a felicidade de dividir o teto com esposa e nove filhos, sete meninas e dois meninos, o que lhe rendeu 13 netos e quatro bisnetos. Nisso ele não economizou e o mundo, se todos tiverem a sensibilidade de seu ancestral, tende a ser muito melhor.
Nos siga no BlueSky AQUI.
Entre no nosso grupo de WhatsApp AQUI.
Entre no nosso grupo do Telegram AQUI.
Ajude a fortalecer nosso jornalismo independente contribuindo com a campanha 'Sou Daki e Apoio' de financiamento coletivo do Jornal Daki. Clique AQUI

Paulinho Freitas é compositor, sambista e escritor.









































































Comentários