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Maricá pode levar para a Avenida, pela primeira vez na história, uma parceria de samba-enredo formada integralmente por mulheres

há 36 minutos
4 min de leitura

A possível vitória de uma parceria feminina no Grupo Especial pode marcar uma mudança histórica no carnaval

 

Por Oswaldo Mendes


Jô Borges, Jack Nery, Cacau Souza e  Yara Mathias /Foto: Oswaldo Mendes
Jô Borges, Jack Nery, Cacau Souza e  Yara Mathias /Foto: Oswaldo Mendes



O Carnaval de 2027 pode guardar uma cena que ultrapassa o resultado de um concurso.

Pela primeira vez, a União de Maricá estará no Grupo Especial do Rio de Janeiro. E chega à decisão de samba-enredo — marcada para a próxima sexta-feira, dia 18 de setembro — com uma parceria formada integralmente por mulheres entre as três finalistas.


Se essa composição vencer, a escola levará para a Sapucaí mais do que um enredo. Levará um recado: há espaço para novas vozes num território que, durante décadas, foi ocupado quase sempre por homens.


A parceria reúne Jô Borges, Cacau Souza, Yara Mathias, Jack Nery, Marcéle Salles e Andrea Figueiredo. Conheço as seis pessoalmente. E digo, sem hesitar: mais do que seis nomes numa ficha de inscrição, elas representam uma pergunta que o mundo do samba já não pode mais adiar. Quem tem o direito de criar, de disputar, de assinar o canto que conduz uma escola inteira?


Compositoras, friso — não intérpretes. O palco pertence a quem canta; a autoria pertence a quem compõe. São ofícios diferentes, e vale deixar isso claro, porque a história que essa parceria pode escrever é, antes de tudo, uma história de autoria.

 

A presença feminina na composição de samba-enredo não começa agora.


Carmelita Brasil é lembrada como uma das pioneiras. Fundou a Unidos da Ponte em 1957 e presidiu a escola até 1979 — a primeira mulher a dirigir uma agremiação de samba no Rio de Janeiro. Entre 1959 e 1964, foi também autora dos enredos, numa época em que compor ainda era, quase sempre, tratado como assunto de homem.


No Grupo Especial, o marco mais citado é o de Dona Ivone Lara. Em 1965 — exatos sessenta e dois anos antes da disputa de Maricá —, ela integrou a parceria que venceu a escolha de samba-enredo do Império Serrano com "Os Cinco Bailes da História do Rio", ao lado de Silas de Oliveira e Bacalhau. Foi a primeira mulher a integrar uma ala de compositores do Grupo Especial e a vencer uma disputa desse porte.


A vitória de Maricá, se vier, teria um significado diferente e complementar. Não seria a presença de uma mulher numa parceria. Seria a vitória de uma equipe inteira formada só por mulheres. Muda a escala. Muda o símbolo.

 

Maricá vive um momento de transformação. A cidade tem hoje receitas expressivas de royalties do petróleo — importantes, mas finitas, sujeitas aos mesmos problemas que já atingiram outros municípios produtores. Construir uma identidade que não dependa só do petróleo deixou de ser opção; é necessidade.


A cultura é uma dessas frentes. A administração do prefeito Washington Quaquá tem buscado atrair empresas, ampliar a atividade econômica e criar novas formas de apoio aos artistas da cidade. Nesse cenário, a União de Maricá pode ser a ponte entre o investimento público, a criatividade local e o desejo de mostrar ao país uma cidade que quer ser reconhecida por mais do que seus royalties.


Nada seria mais coerente com essa busca do que uma parceria de mulheres levar a vitória. A escola seria campeã com uma criação nascida de um grupo historicamente sub-representado; Maricá mostraria ao Brasil uma imagem de inovação, participação e mudança social. Dá para pensar em símbolo melhor?

 

É natural que a expectativa cresça.


Uma vitória assim seria festejada pelas seis, pela comunidade da escola, por mulheres que nunca imaginaram ver seus nomes no centro de um grande carnaval. Para muitas delas, a disputa não é só mais uma etapa do calendário. É a chance concreta de ocupar um lugar que sempre pareceu reservado a poucos.


E existe o risco da decepção. Se o resultado não vier, é preciso evitar que a derrota seja lida como prova de que a experiência não deu certo. Chegar à final já abre uma porta que antes parecia estreita; vencer confirmaria isso publicamente, mas a presença, por si só, já é conquista e já é inspiração para outras mulheres tentarem.


O contraste com as parcerias profissionais, muitas vezes formadas por nomes e melodias que se repetem em agremiação após agremiação, torna o momento ainda mais forte. A experiência acumulada tem seu valor. Mas o carnaval também precisa reconhecer a renovação, a diversidade, a capacidade de criar fora dos circuitos de sempre.

 

As mulheres do samba não estão só nas alas, na harmonia, na fantasia, na dança, na organização. Elas compõem. Pensam enredo. Desenvolvem melodia. Podem assinar a identidade artística de uma escola inteira. Se Maricá vencer, essa presença vira voz, voz de verdade, dentro da ala de compositores, muito bem presidida pelo competentíssimo amigo Miguelzinho.


Há uma frase que combina com este momento: Maricá é meu país. Mas esse país precisa ser criativo, igualitário, atento às necessidades da sua gente. A cidade pode escolher se apresentar ao Brasil por uma imagem que une cultura, coragem e participação feminina.


A ascensão de Maricá pode, e deve, ser também a ascensão da mulher. Não como favor, não como concessão, não como gesto simbólico — como reconhecimento de talento e de direito.

No samba e fora dele, o lugar da mulher é onde ela quiser. Inclusive no centro da criação que faz uma escola inteira cantar.

 

Que vença o melhor samba. Que seja, enfim, delas.



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Oswaldo Mendes é engenheiro e professor.



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