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Em homenagem aos ultrapassados

há 43 minutos
3 min de leitura

Por Mira Pimentel


Foto: Jornal Daki com IA
Foto: Jornal Daki com IA


Há pessoas que, depois de uma certa idade, começam a ocupar na casa um lugar parecido com o dos objetos antigos.


Estão ali.

Entre móveis, alimentos, roupas, fotografias, anéis, livros e outras coisas que um dia tiveram uso frequente, mas que agora parecem existir mais como memória do que como presença.

São os ultrapassados.

Aqueles que já não são vistos.

Ontem, porém, eu vi alguns deles.


E vi uma coisa que talvez a pressa do mundo tenha esquecido: admiração.

Fomos visitar um diretor de teatro, um homem de 94 anos. Em sua casa estavam pessoas ligadas à sua história, à arte, ao teatro, aos muitos trabalhos realizados ao longo da vida. Entre elas, sua companheira de tantos caminhos, de tantos palcos, de tantas histórias construídas juntos.


Ali estavam as lembranças.


Perguntavam por determinado ator. Por aquela atriz que havia interpretado a primeira-dama. Relembravam trabalhos, personagens, acontecimentos de um tempo em que o cotidiano deles não parecia separado da arte.

Trabalhar era dever.

Mas também era prazer.

E quando o dever e o prazer se encontram, talvez o peso deixe de existir.


O que vi ali foi uma espécie de leveza de existir.

Vi amor.

Vi reconhecimento.

Vi uma história compartilhada que não precisava ser explicada porque estava estampada nos olhos de quem viveu.

E ele, sentado em sua cadeira de rodas, aos 94 anos, sorria.

Perguntavam:

— Você se lembra?

E ele respondia que sim.

Com firmeza.

Com respeito.

Com a dignidade de quem ainda reconhece seus companheiros de ofício e sabe o valor do que construiu.


Em determinado momento, ouvi sua companheira dizer algo que me atravessou:

— Vim ver se você está bem. E você está! Está lindão!

Ele, educadamente:

— Obrigado.

E então completou:

— Ela me trata muito bem.

Foi simples.


Mas não era uma frase simples.

Porque existe uma pergunta silenciosa que ronda a velhice quando o corpo começa a depender do outro para quase tudo: está sendo bem tratado?

Quando já não se consegue tomar banho sozinho, preparar a própria comida, caminhar, administrar a própria vida, existe uma espécie de vulnerabilidade que nos assusta.

A incapacidade física pode nos fazer acreditar que perdemos também nossa autonomia de existir.


Mas naquele homem havia alguma coisa que a cadeira de rodas não conseguia tirar.

Havia história.

Havia memória.

Havia dignidade.

Havia o reconhecimento de uma vida inteira dedicada à criação.

E talvez aquele fosse o seu último grande palco.

Não havia cenário.

Não havia cortinas.

Não havia público sentado diante de um palco iluminado.

Mas havia vida.


E havia um homem diante do último capítulo de sua existência, constatando aquilo que todos nós, cedo ou tarde, precisaremos constatar:

o além daqui vem mesmo depois.

Enquanto isso, enquanto houver coração pulsando, ainda nos resta viver.

Ainda nos resta sorrir.

Ainda nos resta agradecer pela dádiva de ter cumprido o nosso papel.

Aquele homem criou histórias para que outros personagens pudessem existir.


Criou mundos.

Projetou realidades.

Fez da arte uma forma de vida.

E agora talvez esteja representando o mais difícil de todos os papéis: simplesmente continuar existindo, apesar das limitações do corpo, cercado por alguém que conhece sua história e por pessoas que ainda se lembram de seus personagens, de seus atores, de seus palcos.


Talvez seja isso que chamamos de dignidade.

Não é vencer a velhice.

Não é esconder suas agruras.

Não é fingir que o corpo continua respondendo como antes.

É poder dizer, mesmo quando já precisamos de alguém para nos ajudar:

“Eu estou aqui.”


E enquanto estamos aqui, somos ainda parte da história.

Por isso, esta crônica é uma homenagem aos ultrapassados.

Aos que o mundo acelerado deixou de enxergar.

Aos que já não produzem segundo a lógica da produtividade.

Aos que precisam de ajuda para as pequenas coisas.

Aos que foram grandes e agora parecem pequenos diante das limitações do corpo.

Aos que carregam nas mãos enrugadas aquilo que nenhuma tecnologia consegue produzir: uma vida vivida.


Ontem eu vi um artista.

Mas também vi um artista da vida.

E talvez, no final, sejamos todos isso:

artistas de uma existência que não ensaiamos, não dominamos e não sabemos quando termina.

Ele cumpriu seu papel.

E enquanto o coração pulsar, continuará cumprindo.


Viva a arte. Viva o artista. Viva o artista da vida e da morte.


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Mira Pimentel é cronista.

 

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