O sonífero do cotidiano
Por Mira Pimentel

A cada momento da vida existe uma lição. Uma lição deveras particular, dessas que não servem para ninguém além de nós mesmos.
O problema é que quase nunca estamos acordados para percebê-la.
Vivemos.
Acordamos, trabalhamos, resolvemos problemas, pagamos contas, respondemos mensagens, fazemos planos, nos preocupamos com o amanhã e repetimos, no dia seguinte, quase tudo outra vez.
E chamamos isso de vida.
Talvez seja.
Mas talvez seja também o nosso maior sonífero.
O cotidiano nos embala numa espécie de sono acordado. Os dias passam diante dos nossos olhos e, muitas vezes, não percebemos que alguma coisa está tentando nos ensinar.
Uma perda chega e nos ensina sobre desapego.
Uma ausência nos ensina sobre presença.
Uma decepção nos ensina sobre expectativa.
Um encontro nos revela possibilidades que desconhecíamos.
Uma porta fechada nos obriga a procurar outra saída.
Uma pessoa que vai embora pode deixar, além da saudade, uma pergunta que jamais havíamos feito.
E até aquilo que julgamos ser um fracasso pode estar carregando uma lição que ainda não conseguimos compreender.
Mas estamos ocupados demais.
Temos pressa.
Temos compromissos.
Temos notificações.
Temos boletos.
Temos agendas.
Temos opiniões.
Temos certezas.
E, paradoxalmente, quase não temos tempo para perguntar: O que a vida está tentando me dizer hoje?
Talvez seja essa a pergunta que deveríamos fazer ao acordar.
Não apenas: "O que preciso fazer hoje?"
Mas: "O que preciso aprender hoje?"
Porque existe uma diferença enorme entre passar pelos dias e viver os dias.
Passar pelos dias é deixar que o tempo nos atravesse.
Viver é atravessar o tempo com consciência.
Talvez a maturidade não seja ter respostas para tudo.
Talvez seja finalmente perceber que cada acontecimento carrega uma pergunta.
E que algumas perguntas só aparecem quando estamos preparados para ouvi-las.
A vida não distribui suas lições de maneira democrática.
Para alguns, chega através do amor.
Para outros, através da perda.
Para uns, através do sucesso.
Para outros, através da necessidade.
Há quem aprenda pela experiência.
Há quem precise quebrar a cara algumas vezes.
E há quem só compreenda determinada lição muitos anos depois, quando olha para trás e percebe que aquilo que parecia um desvio era, talvez, o caminho.
Por isso, penso que precisamos acordar.
Acordar do automático.
Acordar da repetição.
Acordar da necessidade de controlar tudo.
Acordar daquilo que fazemos apenas porque sempre fizemos.
Acordar, inclusive, das certezas que nos impedem de aprender.
Porque talvez a vida esteja falando conosco o tempo inteiro.
Nós é que estamos dormindo.
E o sonífero tem nome: cotidiano.
Mas existe uma boa notícia.
Podemos despertar.
Podemos olhar novamente para aquilo que já olhamos mil vezes.
Podemos ouvir novamente aquela pessoa.
Podemos perceber uma ausência.
Podemos reconhecer uma oportunidade.
Podemos admitir que mudamos.
Podemos compreender que algumas coisas terminaram para que outras pudessem começar.
E podemos, finalmente, fazer a pergunta que talvez seja uma das mais importantes da existência: "O que este momento está tentando me ensinar sobre mim?"
Talvez não exista uma resposta imediata.
Tudo bem.
Algumas respostas precisam amadurecer dentro da gente.
Afinal, viver não é apenas acumular anos.
É transformar acontecimentos em consciência.
É permitir que a experiência nos modifique sem nos destruir.
É aprender sem perder a capacidade de se surpreender.
É continuar caminhando mesmo quando ainda não sabemos exatamente para onde.
E talvez seja isso que a vida espera de nós: não que estejamos permanentemente certos, mas que estejamos suficientemente acordados para perceber quando ela está tentando nos ensinar alguma coisa.
Porque cada instante é uma aula.
Cada encontro, uma possibilidade.
Cada perda, uma pergunta.
Cada recomeço, uma oportunidade.
E cada manhã talvez seja apenas a vida nos dizendo baixinho: "Acorde. Hoje eu tenho uma lição que é só sua."
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Mira Pimentel é Cronista









































































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