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Rodo de São Gonçalo: lugar onde a memória faz a curva, Erick Bernardes



Um investidor sonhador rumo ao país de dimensões continentais e uma ideia gigante na cabeça. Assim se resumiriam o projeto do uruguaio Carlos Gianelli e a implementação da malha ferroviária em terras gonçalenses. Alguém duvida? Se olharmos direitinho em algum canto ou outro, veremos os rastros do que se constituiu numa ou noutra das linhas de trem e bonde da Manchester brasileira.

Sim, já tivemos nosso pendão de esperança e prosperidade em São Gonçalo: polo industrial, escoamento eficiente da produção agrícola, atividade pesqueira (esta ainda há, embora sem incentivo). Chegou certa vez um visionário e vislumbrou o progresso. Fincou raízes, acreditou no desenvolvimento urbano que se delineava, mas morreu sem ver o planejamento efetivar-se. Sim, faleceu frustrado, decadente. Porém, alguém reservou-lhe o direito de ter o nome gravado no espaço da mínima parte do município. Quem nunca ouviu falar da pracinha de Alcântara em homenagem ao empreendedor sul-americano? Pois é, se você não conhece é porque sumiram com a homenagem de lá também. Praça Carlos Gianelli foi topônimo recente, em frente à delegacia, ali pertinho da feira — e o reconhecimento oficial jaz enterrado pelas colunas de outro progresso mais afoito. Verdade, onde existia a placa dourada em honra ao investidor uruguaio encontra-se atualmente o Shopping denominado Pátio Alcântara.

Daquela época restaram-nos fotos e atas de fundação ferroviária e atividades políticas de prefeitos e governadores. Há quem garanta ainda que, lá no rodo, a pequena e charmosa “locomotiva” elétrica que constituía o bonde de São Gonçalo mudava o rumo e o destino do município aspirante a polo industrial. Fazia o giro ou entorno dos trilhos: o rodo municipal. Entretanto, uma pena, não durou tanto assim o nosso sonho de mobilidade urbana e progresso. Boas intenções e verbas para investir não foram suficientes. Sabe-se que tão logo os ventos da modernidade sopraram por aqui, a voracidade da macroeconomia abocanhou o seu quinhão e praticamente levou o advogado, diplomata e empreendedor Gianelli às dívidas cruéis junto aos seus financiadores. Pois é, infelizmente, não teve jeito, os tentáculos dos grandes bancos deram ao uruguaio sonhador o aperto fatal, sugaram-lhe as cifras de investimento no Brasil.

E assim registrou-se o fim do projeto de dignidade no transporte no município de São Gonçalo. História para lá de inacreditável, não é mesmo? Ainda há nome de rua em sua homenagem no bairro do Boaçu. Mas é difícil compreender quando foi que a prosperidade fez a curva aqui na cidade; havia trem e bonde. As coisas mudaram mesmo, só olhar o trânsito e os pontos de ônibus atualmente. No espaço chamado de Rodo de São Gonçalo, só por causa do giro que o bonde da Companhia Tramway executava, viu-se acontecer certo tipo de desvio também no progresso. Uma lástima mesmo! O indo e vindo do bondinho charmoso levando gente de Neves a Alcântara significaria muito mais. Pois bem, foi Carlos Gianelli quem sonhou em abraçar com prosperidade a cidade que o acolheu. Uma pena! São histórias que contam por aí.


Rodo Municipal, atual praça Luiz Palmier, anos 1950/Acervo de José Guilherme Moreira Cunha.

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