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Onde estão as flores do meu Jardim Catarina? Por Erick Bernardes


Se tem um título que cabe ao bairro Jardim Catarina é mesmo o de maior loteamento plano da América Latina. Sim, de fato isso vem sendo divulgado sem meias medidas, até quem nunca passou por lá já ouviu tal informação de extensão territorial. Só não é costume se falar de como todo esse bairro gigante surgiu e se desenvolveu. Coisa mais óbvia é dizer que existe o Jardim Catarina Velho (que é velho) e o Catarina Novo (que é novo). Pois é, a redundância descarada merece uma torta na cara deste seu narrador! Explicação mais idiota, eu, hein!


Dizem que todo o espaço preenchido pelas construções que formam hoje o Jardim Catarina teria se originado da imensa Fazenda Laranjal, pertencente ao senhor Júlio Pedroso Lima desde 1903. Houve um tempo em que o mitológico ex-prefeito Joaquim Lavoura autorizou o loteamento clandestino nessas regiões — e por ser isenta de infraestrutura o tal terrenão, deu no que deu, o povo é quem sofre agora. Essa propriedade foi fracionada entre os seus respectivos novos proprietários, todos parentes entre si, eram os Limas dos laranjais.


Bem, em se tratando do nosso presente repleto de bodes expiatórios e daqueles “laranjas” que são usados para lavagem de dinheiro e extorsão em favor de governantes, o laranjal de que o Jardim Catarina se firmou vem bem a calhar no quesito tema e atualidade. Pois bem, vão-se os tempos e ficam as sonegações e maldades na cara dura. E por falar em maldades, não há como fazer ouvidos moucos à violência só porque comprei terreno na parte velha do Catarinão. Há barricada impedindo ônibus de passar, soube, meses atrás, de uma chacina que silenciou muita gente boa. Tristeza até de mencionar, dói o coração ver dona Francisca chorar a morte prematura do neto saxofonista. Realidade dura. O terreno que comprei é grande, semeei girassóis pelo mato, só pra deixar mais colorido meu pedacinho do Catarina Velho, duas semanas depois das mortes terem acontecido. Um dia (quem sabe?), construo casinha por lá. Fiz amigos na comunidade, gente maneira, nunca esqueço da galerinha bacana.


No passado, a antiga Fazenda do Laranjal foi fatiada em quatro outras localidades por pura ambição dos herdeiros e que eram também donos da construtora. Exato, tal como uma laranja, cortaram a fazenda em quatro. Imagine, uma parte dessa fração veio a ser o próprio bairro Laranjal; já com a segunda banda registraram Santa Luzia; ocorre que da terceira parte nasceu o Boa Vista; no caso da última fatia dessa partilha surgiu o gigante Jardim Catarina. Enfim, isso sim é a nossa tradição, e eu fico pensando como estarão meus girassóis lá no bairro Jardim Catarina.


Erick Bernardes é escritor e mestre em Estudos Literários.

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