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São Miguel e a tradição cigana, por Erick Bernardes


Imagem: Pixabay

Uns poucos cidadãos curiosos, gente dali de perto, encaravam o cadáver do homem de roupa cigana quando José Maria chegou. Sim, exato, tratava-se de um corpo caído bem no posto de combustível do bairro Estrela do Norte. Como se estivesse morrido de bebida ou circunstâncias outras.


— É mais que coincidência isso, vestimenta imitando cultura cigana. Pouca gente sabe que, exatamente aqui, havia um acampamento cigano há quase um século ou talvez mais...


Afastaram-se todos os curiosos quando ela falou, fofoqueiros se calaram como se a moça soubesse coisas de tempos remotos. José Maria se interessou de pronto. Claro que sim, cronista da cidade, impossível não se interessar pelo assunto. Incontinência intelectual de jornalista, desarranjo no quesito curiosidade e não perdeu tempo: “A senhora me contaria isso com mais calma?


— Bem, seu Zé, me chamo Tatiana, sou professora e essa história me foi fornecida inicialmente por minha mãe, dona Sônia, pois ela descende de família há tempos radicada no bairro São Miguel. Exatamente, antepassados meus residindo em um desses lugares próximos do centro e, talvez por isso, mais carentes de narrativas históricas em detrimento de outras versões mais urbanas e recentes. Entretanto, conseguimos guardar relatos provenientes das contações de histórias de família. Sim, somos vencedores por guardarmos esse saber sobre o referido território. Já já essa história some no tempo, quem vai querer conhecer a raríssima cultura cigana de gente que viveu ao largo do que é hoje São Miguel?

Nosso jornalista pareceu se sentir constrangido, nunca soube de tal assunto antes, vivendo e aprendendo. Teve pena do povo de outrora e esqueceu o cadáver do posto de gasolina. Baixou a cabeça, questionou-se: quem tentaria aniquilar a cultura dos ciganos em São Gonçalo? Época de positivismos, gobinismos, sabemos bem onde isso nos levou. Pois é, mas voltemos ao assunto, no mundo todo esse milenar povo nômade de cultura vasta marcou passagens em recantos dos mais variados. Há evidências de acampamentos romenos em Maricá, convivência cigana espanhola em Itaboraí, e até andarilhos búlgaros a lançarem suas tendas para os lados de Niterói, já vai lá um século e meio de história. Ou seja, registros orais dão conta de que do começo da Avenida São Miguel até o Colégio Independência, o espaço teria servido de estalagem aos ciganos que ali chegavam, como demonstra a conversa:


— Mas Tatiana, só esse tanto de informação não sustenta história em jornal.


Necessário reconhecer que a jovem professora se empenhou, perguntou também à madrinha, Evanice, que reside no bairro até hoje – e ela confirmou e contribuiu um cadinho mais.


— Seu Zé, mamãe relata ter havido uma enorme fazenda na região onde se abrigou o povo andarilho, pelo menos um bom meio século. Diz a lenda que uma criança cigana teria morrido afogada em um poço para os lados da rua Carlos Vieira, depois do quartel do corpo de bombeiros e, por esse motivo, os Roms pressentiram mau agouro antes de serem expulsos de SG. Não sei ao certo, histórias correntes de antigamente.


Pois é, importa frisar que a veia de pesquisador do José Maria ferveu mesmo frente ao mistério anunciado. Deu tchau à professora e prometeu retornar logo a ligação. Sim, necessário compartilhar o que encontrasse dali por diante.


Um pouco de busca rápida na internet, um contato ou outro por telefone e, pimba, chegou a uma associação cigana não oficial que não quis revelar seu nome por medo de não se sabe bem o quê. Mas respeitou, claro que o cronista respeitou, pois reconhece: o invisível oprime tanto quanto um dedo na cara e um ou outro caso de ameaça política em tempos de eleição. Mas mesmo assim, a sorte resolveu dar ao jornalista o sinal da graça. O acaso ofereceu um agrado e fê-lo sorrir como se recebesse a primeira parcela da utópica verba da Lei Audir Blanc. Mas não, tratava-se de outra quase lenda a cair-lhe nas mãos. Isso mesmo, foi daí que descobriu: “São Gonçalo ofereceu de fato lugar bom para acampamento da cultura cigana ucraniana migrada anteriormente para o Uruguai e Argentina. Tradicionalíssima cultura, por sinal. Pode citar meu nome, se quiser. Me chamam de Vareta, sou intérprete da Unidos do Porto da Pedra. Recordo, sim, nem tem tanto tempo assim quando expulsaram eles da cidade. Lá de cima do Boqueirão Pequeno eu via o acampamento se espalhando por onde se encontra atualmente a clínica Samcordis. Um colorido de tecidos e cultura diferente. Meu pai me mostrava, eu gostava, eram ciganos, sem dúvida”, finalizou o depoimento o senhor Vareta.


Nosso cronista estranhou ter ouvido sua fonte afirmar que um dos representantes prósperos da tradição cigana Rom em terras gonçalenses teria sido o afamado Carlos Gianelli. Não existia fonte alguma escrita ou documento, só uma letra de tango tradicionalmente conhecida como Besame Mucho, mas que, na verdade, tratava-se de uma canção cigana de entitulada Txumiden e que pertenceu ao referido empresário. Não, nada se encontrou além disso, nadinha. “Barô lajau kan keresa”, como diriam os ciganos em tradução: “é uma vergonha para o nosso povo”. Estranhíssimo, prova nenhuma acerca do assunto. Melhor é desacreditar. E assim o José Maria o fez, mas não sem antes efetuar uma ligação: “Alô”


— Mas, Tatiana, não há nada que se sustente quanto ao assunto histórico.


— Sei lá, Erick, coloca o texto em terceira pessoa, se autodenomina José, diz que morreu gente ali perto só para dar uma cara de ficção e afirma que o texto é só um conto. Caso contrário lhe chamarão de mentiroso.


Pois bem, dito e feito, eis a crônica mais inverossímil que já escrevi. Optchá!

Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.




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