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Uma história do Coelho, por Erick Bernardes


Falar de coelhos e fazendas é relacionar imagens de cenouras, verduras, legumes, enfim, grãos e hortaliças, de um modo geral. O leitor decerto dirá que o narrador forçou um pouco a barra para fazer da crônica sobre a história do bairro Coelho uma espécie de zoação ou trocadilho de circunstância. Juntar nome de animal orelhudo ao registro territorial gonçalense configuraria uma quase fábula da região. Por isso, ofereço a você uma escrita democrática, invenção ou não, cabe a você decidir. Sinta-se à vontade!


Houve um tempo em que a monocultura de açúcar da fazenda do Coelho entrou em decadência e cedeu espaço para um outra situação. O senhor Rufino José de Almeida, percebendo as suas finanças perderem o viço, fatiou a propriedade com fins de arrendamento. E deu certo, cobrou bom preço de aluguel e transformou a fazenda em um pequeno polo produtor de alimentos sortidos. E assim teríamos um final feliz. Comida na mesa dos moradores e dinheiro no bolso de todos. Mas não, melhor o leitor ficar de orelha em pé e olhos atentos, pois o que vem daí é só confusão histórica.

Em 11 de outubro, de 1885, a primeira página do jornal “A Gazeta de Notícias” anunciava a GREVE DAS HORTALIÇAS. Foi um momento péssimo para a fazenda do Coelho. Sim, claro, imaginem os arrendatários das terras de lá impedidos de vender seus produtos do outro lado da Guanabara, só por causa de manifestações populares! De fato, época de rebuliços, os governantes cismaram em cobrar taxas de manutenção aos produtores que vinham das suas roças no intuito de fazer comércio para os lados do Rio. Resultado disso? Greve e confusão. Escassez de comida no prato dos ricos. A corte minguava de verduras, frutas e legumes, enquanto agricultores, embora amargassem prejuízos, resistiam bravamente. Mas era necessário, afirmavam os manifestantes. Absurdo ver os governantes cobrarem por espaço comercial desde muito pertencente aos populares. Os moradores apoiaram, não admitiam repasse nos preços por causa das taxas administrativas. De jeito nenhum aumentar fortuna alheia. Noticiou a Gazeta de Notícias: “os tomates, de rubros que eram, tornaram-se roxos, e promovem greves assustadoras. Querendo acompanhar as agressões próprias de toda situação (...) a revolta do rabanete e a rebelião do nabo, a insistência do tomate em não aparecer e do repolho em ocultar-se, foram decantadas em prosa e verso”.


Bem, daí por diante, a narrativa o gonçalense já conhece. A greve acabou, os agricultores se endividaram e o Coelho deu outro salto na história de São Gonçalo. O senhor Rufino desgostou das próprias terras e lançou mão de vendê-las por partes. Loteamentos surgiram. O Clube Português se instalou, verduras e legumes chegavam de outros arredores. Metamorfose territorial. Casas e comércios de varejo se multiplicaram, migrou gente, novas famílias se instalaram. E a urbanidade foi aquela que abocanhou o seu quinhão no espaço antes essencialmente rural.


Fonte: Juliana Barreto Farias. “Mercado em greve Protestos e organização dos trabalhadores do pequeno comércio no Rio de Janeiro” — Outubro, 1885. Anais da Biblioteca Nacional.



Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.


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