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Uma história sobre a fábrica dos fósforos Fiat Lux - por Erick Bernardes


Fonte da foto: http://www.brechocharisma.com.br/2011/04/e-o-pequeno-principe-cresceu_29.html?m=1
Fonte da foto: http://www.brechocharisma.com.br/2011/04/e-o-pequeno-principe-cresceu_29.html?m=1

O leitor sabe das tantas vezes que compus crônicas baseadas em depoimentos e contribuições narrativas as quais pude até chamar de texto de cunho coletivo. A coluna de hoje é bem assim, uma história construída a seis mãos.


— Oi, Erick, tudo bem? Já escreveu alguma crônica sobre a fábrica de fósforo Fiat Lux?

Lembrei de você com as histórias do pai da minha cunhada. Que a Rainha Elizabeth visitou nossa região porque ela usava esses fósforos, única fábrica do gênero no Brasil. Se quiser o contato dele, creio que teria prazer em conversar. Ele conhece muito dessa indústria. Vou pegar com a filha dele e te passo amanhã.


— Opa, obrigado.


E assim se deu:


— Bom dia, Sr. Augusto, sou amigo da professora Aldaléa. Escrevo sobre curiosidades da cidade de SG. Ela comentou que o senhor tem uma história interessantíssima sobre a fábrica de fósforos Fiat Lux e a rainha da Inglaterra.



— Bem, possuo as seguintes lembranças do período que trabalhei na Fiat Lux. Foi entre 16 de março de 1964 até 28 de abril de 1970. A empresa já contava com sessenta anos de atividade. Havia um operário trabalhando na empresa desde a fundação, era o Sr. Álvaro, lotado no departamento de eletricidade. Esse funcionário antigo segredou que, no início das operações, as águas salgadas chegavam ao extremo do terreno da empresa. Havia ali um cais, ainda se vê vestígios dele em certo ponto da rodovia Niterói-Manilha. Pois toda essa área era banhada pela Baía de Guanabara. As barcaças atracavam e traziam toras de madeira de 6 a 8 metros de comprimento, processavam-nas até virarem palitos ainda in natura na própria empresa. Posteriormente os palitos vinham do estado do Paraná, e só então receberiam a cobertura da matéria-prima combustiva que os transformaria de fato em palitos de fósforo.


— E a pólvora?



— A mistura química que tornaria esses palitos incandescentes configurava enorme segredo. Nem quem manuseava a fórmula conhecia o todo da composição. Só nos era revelado o que compunha a lixa da caixa: fósforo branco, zarcão e outros materiais. Lá por volta de 1968, a Rainha Elizabeth II visitou o Brasil, e a Cia Fiat Lux imprimiu efígies da majestade no frontispício das caixinhas e distribuiu aos empregados. Na realidade, não sabemos se a alteza britânica esteve mesmo na fábrica, pois, durante o expediente normal da empresa, não aconteceu a referida visita. Caso acontecesse, decerto teríamos presenciado. Até pouco tempo eu mantinha em casa uma dessas caixinhas com a estampa comemorativa da visita da rainha ao Brasil, mas deteriorou com o tempo. Pois é, uma pena. Espero ter sido útil.


— Abraço, Sr. Augusto. Muitíssimo grato.


Nota do autor: a Fiat Lux se localizava nos limites entre São Gonçalo e Niterói (Barreto-Neves), acaso o leitor queira maiores detalhes acerca da fábrica de palitos em questão, vale a leitura da matéria: https://www.jornaldaki.com.br/post/s%C3%A3o-gon%C3%A7alo-como-objeto-de-colecionismo-filumenia-por-rui-a-fernandes

 

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Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.