O Tombo e a Sala do Pensamento
- Jornal Daki
- há 58 minutos
- 2 min de leitura
Por Mira Pimentel

Dizem que certos tombos não quebram ossos, quebram narrativas.
Foi um desses.
O Homem do Espelho acordou suando frio. Não era queda física era pior: era o chão lhe faltando por dentro. No pesadelo, um ministro de toga figura sem rosto, mas com voz de sentença fechava uma porta invisível. Pedido negado. E o som ecoava como gargalhada de tribunal vazio.
Tentou levantar-se, mas estava preso na Sala do Pensamento. Um lugar sem janelas, sem cercadinho, sem plateia. Só memória.
Ali, o passado não pede licença.
Veio primeiro o cercado. Aquele curral humano onde ele se sentia rei, domador de frases curtas e palavrões longos. Gente que aplaudia até espirro. Mas no pesadelo, ninguém respondia. Ele falava e o eco devolvia silêncio. Um silêncio constrangedor, desses que fazem o sujeito pigarrear a alma.
Depois, surgiu a Jornalista. Pequena, firme, com uma pergunta simples demais para quem só sabia responder com ataque.
E o projeto para o povo?
A pergunta ficou suspensa no ar como mosquito em noite quente.
Ele, irritado, coçou o nariz gesto que no sonho crescia, crescia, até virar caricatura. O dedo parecia acusar a si mesmo.
A Sala riu. Sim, a Sala ria.
Veio então o Ex-Ministro. Aquele que entrou herói e saiu com pressa, antes que a casa caísse. No pesadelo, ele carregava uma mala cheia de palavrões gravados em áudio. Cada vez que a mala se abria, escapava um “isso é um absurdo”, um “interfere sim”, um “não me venha com ética”. As palavras rastejavam pelo chão como baratas de cozinha mal cuidada.
O Homem do Espelho tentou chutá-las. Escorregou.
E então apareceu o Amigo do Norte. Antigo aliado, companheiro de bravatas, gêmeo de penteado e descontrole. Mas no sonho, o Amigo vestia outra camisa. Apertava mãos improváveis. Sorria ao lado do Operário que ele jurara destruir.
Foi ali que doeu.
Não era só traição. Era irrelevância.
O pesadelo não lhe tirava a voz tirava o palco.
Sentiu-se… broxado.
Não no corpo, mas no mito.
Na Sala do Pensamento, não havia mais grito que resolvesse. Só repetição. Cada frase dita no passado voltava com legenda. Cada bravata vinha acompanhada de nota de rodapé. Cada ataque, de contexto.
Tentou acordar.
Mas a Sala cochichou:
Fique. Pense. Aqui não há fuga. Só memória.
E o Homem do Espelho, que sempre confundiu barulho com poder, descobriu tarde demais:
o pior castigo não é a queda é permanecer, para sempre, consigo mesmo.
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Mira Pimentel é Escritora e cronista.


















































