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O vice versa

Por D.Freitas

Arte Daki - Reprodução
Arte Daki - Reprodução

Fui direto ao ponto perguntando se poderíamos nos encontrar naquele mesmo dia, com a clássica desculpa de que meu vôo sai amanhã e dessa vez nem era mentira. Assumo que estava empolgado o suficiente para correr de casa com a primeira camisa que eu encontrasse no guarda-roupa e ir para qualquer lugar que ela tivesse. Trocamos mensagem por no máximo dois dias e parecíamos o tipo de casal que dividiria a cozinha para tentar um almoço diferente, queimaria o assado e pediria comida no Ifood.


Riríamos de tudo isso. Pera, eu disse casal? Eu já podia me habituar com ela mesmo sem nunca tendo a visto, nunca senti o seu cheiro, não sabia se ela gostava de mão na bunda ou mão na nuca.... Eu sabia que ela era Sagitariana, adorava estrogonofe e não poderíamos nos ver naquela tarde pois teria gol do Gabigol (por curiosidade tiveram realmente, uns cinco. Nem todos dele). Eu disse que não me importava, ela insistiu afirmando que daria mais atenção à TV do que para mim, repeti que não me importava.



Ela avisou que estava com preguiça de se arrumar e eu  disse que pegaria a primeira camisa do guarda roupa. Ela riu, cedeu, me mandou a localização e eu chamei o carro de aplicativo com uma camisa do Homer Simpson que eu deixei guardada nos últimos dois anos, não porque eu esperava uma ocasião especial, obviamente, mas por achar que já tinha passado a minha idade. Nasci velho e ranzinza, segundo meus amigos, então nunca tive chance de usar camisas divertidas, ir para a chopada na faculdade ou saltar de paraquedas. Sempre fui o observador, contador de histórias, divertido que dormia cedo demais e ficava um porre com sono.


Subi alguns lances de escada. Quatro para ser exato, e não me deixaram nem perto de ficar ofegante. Eu respirava pesado de entusiasmo e euforia, era semi-final de algum "campeonato que tanto faz" para o mundo inteiro e para mim, era meu último dia antes de voar para longe do Rio de Janeiro.


Era semi-final dessa nossa recente, porém bela, história. A campainha tocou, a porta se abriu, apitou o árbitro para o início da partida. Seus olhos azuis se arregalaram ouvindo o narrador dizer que a bola rolava, no entanto relutava ao desviar o olhar para a TV enquanto me atendia na porta. Oi sou o Davi e a gente se vê no intervalo, disse a conduzindo para que ela virasse em direção a televisão, prontamente ela entendeu o recado e se jogou no sofá. Disse fecha a porta, por favor roendo as unhas que já estavam quase inexistentes sem desgrudar os olhos daquela rápida troca de passes, habilidosas, frenéticas e até poéticas.



Fechei a porta e me sentei do seu lado, me sentia em casa e não sei se foi por isso ou por prestar atenção naquela tensão que ela passava que deixei todos os detalhes da sala do seu apartamento em segundo plano. Não sabia se ela tinha uma escrivaninha, ou uma mesa de centro, mas sabia que o time precisava de um volante. Até hoje não sei a função de um volante.


Ela tentou me explicar no segundo tempo, menos tensa, tínhamos três gols e eu, "vascaíno não-praticante", me sentia parte daquela multidão vermelha e preta. Como se esse fosse meu pecado confessei e ela apenas gargalhou, zombou, brincamos, ela me falou algumas coisas da história dos dois clubes, começou o segundo tempo e não demorou para estarmos comemorando mais um gol juntos. 


O jogo chegou ao fim junto com a tarde de quarta-feira e a gente ainda não sabia muito do outro, mas sentíamos muito,  de uma forma tão boa que nem chegava perto do sentido pedir perdão por não nos apresentarmos tão formalmente.  Já volto, ela foi no banheiro com sua camisa rubro negra e short rosa de pijama balançando com seu andar entusiasmado pela vitória.


Só então estudei sua sala, era de cores claras, simples, com poucos móveis, muitos porta-retratos e um violão na parede pendurado. Seria abusivo demais interromper um xixi no primeiro encontro? Obviamente. Eu me importava? Não.  Me aproximei da porta e perguntei se podia pegar o instrumento. Fui respondido com o argumento irrefutável de que se eu me sentia em casa o suficiente pra romper a barreira da porta do banheiro, o violão era o de menos. Eu adorava aquele senso de humor, era leve em tudo, ela era inteira humor e simpatia.


Tomei o violão e arranhei o único samba que eu sabia de cabeça. Ela saiu do banheiro, andou na ponta como se não quisesse fazer barulho e se sentou em uma cadeira me observando tocar com seus grandes olhos azulados. Lembra o jeito que meu pai tocava ela me interrompeu. Queria perguntar sobre o tal, sobre o que ele fazia, sobre como era a relação dela com o pai e se aquele violão era dele, mas minha personalidade ranzinza me fez comentar eu não te interrompi. Depende de que momento você ta falando, ela respondeu e arqueou as sobrancelhas me fazendo recordar que atrapalhei seu momento há alguns minutos. Só então um silêncio se fez.



O primeiro momento incômodo. Seguido por um beijo desesperado para finalizar aquela ausência de calmaria. Beijo esse que não teve encaixe. Que ironia... Toda essa sintonia e não falávamos a mesma língua. Antes que tudo caísse e eu tivesse que sair pela porta com alguma desculpa para disfarçar esses pequenos, porém suficientes, momentos incômodos ela sugeriu: quero sambar, toca pra mim?


Prontamente atendi com o samba de uma nota só. A noite caía e ela sambava tão suavemente que seus pés descalços pareciam flutuar. Sua postura daria inveja em qualquer bailarina do Teatro Municipal e talvez ela fosse. Afinal, o que eu sabia dela? Além da beleza incontestável, do senso de humor inabalável e da devoção febril pelo Flamengo, o que eu sabia dela?


Como se ela percebesse os vacilos em minha mente refletidos pelos acordes ela caminhou até mim, afastou o violão do meu colo em um rápido movimento suave e tomou seu lugar em cima de mim beijando-me ritmadamente mesmo com a ausência de música. Acho que samba era o que faltava para nossa língua se entender. Até os dentes dela visitaram meus lábios carinhosamente algumas vezes. E se ainda te interessa saber onde ela gostava das mãos: na bunda.


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Davi Freitas (D.Freitas) nasceu em São Gonçalo, cria da cultura gonçalense, desde sempre conviveu com músicos, poetas e escritores. autodidata, aprendeu violão e bateria sozinho e junto com o irmão Lucas Freitas fez algumas apresentações até ter, por motivos profissionais, que mudar de estado. Como escritor, participou, pela Editora Apologia Brasil da Antologia em Tempos Pandêmicos e inicia agora sua trajetória no mundo das crônicas e contos.