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Curtindo a vida a adoidado: o caso do ex-prefeito brincante de SG


Foto:  https://curitibadegraca.com.br
Foto: https://curitibadegraca.com.br

Hoje ao ler um jornal antigo em PDF me peguei imaginando a cena: eles voltavam animados dos namoricos empreendidos durante a folia lá para os lados da Urca, mais precisamente no Iate Clube do Rio de Janeiro. Estaria eu imaginando de fato? Na minha ficção esses camaradas emitiam vozes alegres, olhares bovinos, hálitos etílicos, mascavam chicletes como se fossem os reis do lugar. Inegável reconhecer a alegria, mas alegria de quê, meu Deus?


O grupo de amigos configurava nada menos que alguns dos homens mais influentes do eixo São Gonçalo-Niterói. A coluna Superplá (27/02/1971), da jornalista Lisyanne Cunha, para o Correio da Manhã, anunciava o fim do carnaval e o sucesso da folia dos jovens rapazes. “Até que enfim o carná acabou, porque senão ia ter muita gente que não ia aguentar a bola”. Pois é, o jornal se referia a Egylio Justi como “mais cascateiro” e que “tirou o maior barato lá no Baile do Havaí no ICRJ. Seus guarda-costas (amigos de farra) eram: Dudu Picanço, Kanela, Dudu Lima e Pavão (...) No final das contas o mulheril queria atacá-lo de qualquer maneira” (CUNHA, 1971).


Na cena eles comentavam: “Rapaz, você beijou três mulheres em menos de quinze minutos”, relembrou um dos amigos do grupo acerca do pega-pega empreendido por Justi. “Que nada, foram elas que me atacaram”, finalizou antes da gargalhada coletiva dentro do carro.



Bem, caro leitor, até aí tudo bem, só mais um grupo pequeno de jovens playboys curtindo a festa da carne. Porém, a minha ficção se misturou com a realidade, quando me deparei com a surpresa. Isso mesmo, incrível, pois segundo a notícia isso de carnaval foi em 1971. Nessa época esses fanfarrões não eram jovens, pior que não, longe de serem. Coisa curiosa. Explico:


O caso é que, décadas antes, bem antes mesmo, o referido Egylio Justi foi prefeito de São Gonçalo. Diziam até que devemos a ele a magnífica ideia de oferecer Itaipu e Itacoatiara a Niterói em troca de darem a SG o bairro de Neves. Não sei, confesso não ser esse o nosso foco de atenção. Contudo, fato curioso estampado pelo jornal Correio da Manhã referido acima, acerca da farra dos rapazes, aponta o ano de 1971, quando se sabe que Justi foi prefeito da nossa cidade amarantina em 1946.


Em suma, se o contexto da explicação seguir a lógica cronológica, esses homens não eram garotos conforme nos possa parecer. Não se tratavam de jovens no deleite da balada do Rio de Janeiro. Mas sim de cinquentões (no mínimo) a curtirem a vida tal como adolescentes ávidos por namoros efêmeros atualmente compreendidos como "ficadas". Coroas ricos e baladeiros curtindo a vida adoidados. Viu aí, é o fim da picada.


Fonte:

CUNHA, Lisyanne. Correio da Manhã. Jornal de Serviço – Rio de Janeiro, 27 de fev 1971. http://memoria.bn.br/DocReader/Hotpage/HotpageBN.aspx?bib=089842_08&pagfis=17603&url=http://memoria.bn.br/docreader Acesso 14 jul 2022.

 

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Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.



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