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Moralista de ocasião: Douglas Ruas critica ala do Carnaval e acaba dando razão à sátira

há 2 horas
2 min de leitura

Candidato se revolta com “Neoconservadores em Conserva”, invoca a “família sagrada” e contrapõe Carnaval a saúde e educação; arquivo mostra que ele já caiu no samba, defendeu dinheiro público para a folia e elogiou incentivos à festa


Por Cláudio Figueiras


Douglas Ruas na folia/Foto: reprodução
Douglas Ruas na folia/Foto: reprodução


Douglas Ruas (PL) parece não ter percebido a ironia. Ao atacar a ala “Neoconservadores em Conserva”, da Acadêmicos de Niterói no desfile deste ano na Sapucaí, o candidato ao governo do Rio acabou oferecendo combustível à própria sátira que o indignou.


Em entrevista à TV Globo, Douglas afirmou que Lula e Eduardo Paes estavam na Sapucaí “assistindo, sambando e aplaudindo ao maior ataque já visto à instituição sagrada que é a família”. Na sequência, chamou de “farra” gastos com dinheiro público e prometeu reverter recursos para saúde e educação.


A ala que provocou a ira de Douglas satirizava justamente setores neoconservadores que transformam os chamados valores da família tradicional em bandeira política.


Eis a ironia: ao criticar a ala, Douglas usou exatamente o discurso que ela pretendia satirizar. Hipocrisia, no bom e velho português.


O problema para Douglas é o que ele fez nos carnavais passados.


Em 2023, enquanto integrava o grupo político que governa São Gonçalo, Douglas celebrava o apoio da Prefeitura à Porto da Pedra. Naquele ano, a administração de seu pai, Capitão Nelson, destinou R$ 700 mil à escola. Douglas defendia abertamente o financiamento: “A Prefeitura tem que estar junto, tem que ajudar”.



Não era apenas apoio institucional. Douglas frequentou eventos da Porto da Pedra, participou da escolha do samba e apareceu ao lado do pai e da Velha Guarda da agremiação.

Em 2024, foi além: esteve na Sapucaí e elogiou Cláudio Castro pelos incentivos ao Carnaval. Nas redes, ensinava seus seguidores a curtirem a folia com segurança.


Agora, candidato a governador, utiliza a Sapucaí para construir uma oposição entre “farra” e dinheiro para saúde e educação. São justamente duas áreas pelas quais também passou o governo municipal do qual Douglas foi secretário entre 2021 e 2022.


Diante da repercussão, Douglas esclareceu que não pretende cortar recursos do Carnaval. Diz que sua proposta é acabar com camarotes oficiais bancados pelo Estado e direcionar mais dinheiro à cultura.


A explicação pode resolver a questão dos camarotes. Não resolve a ironia política.


Afinal, a ala colocava em conserva a instrumentalização eleitoral da moral familiar. Douglas indignou-se, invocou a “família sagrada” e moralizou uma festa que já frequentou, incentivou e ajudou politicamente a financiar.


No Carnaval, como na política, certas fantasias não resistem à quarta-feira de cinzas, mas a memória fica.


Sem querer, o candidato acabou entrando na lata. Ou saindo, dependendo do ponto de vista.


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