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Donatela

há 59 minutos
3 min de leitura

SÃO GONÇALO DE AFETOS


Por Paulinho Freitas


Foto: Arte Jornal Daki com IA
Foto: Arte Jornal Daki com IA

Na esquina da rua onde fica a casa em que moro, um grupo de travestis se reúne quase todas as noites e vendem momentos de prazer a quem se interessar possa. Todas as vezes em que eu passava por ali, vindo das madrugadas na quadra do GRESU Porto da Pedra, cumprimentava as meninas com um cordial boa noite, que respondiam com alegria o cumprimento. Elas sempre estão alegres, esteja o céu de mal humor, gritando seus trovões e desaguando seus rios de lágrimas sobre nós, ou estendendo seu belo tapete de estrelas, nos varrendo para baixo dele, se é que me entendem.

 

No meio daquelas vozes ouvia um: “Buonasera amici!"


Era Donatela. Fui apresentado a ela por Rafael Massoto, frequentador assíduo do Bar de Loloca, ali ao lado do abandonado Clube Tamoio. Loloca abre o bar à meia noite e é frequentado por boêmios, sambistas e todos os amantes da madrugada. Massoto não bebe e não fuma, mas compõe e escreve e ali é fonte de inspiração para suas canções e outros escritos. 


O sonho de Donatela era morar na Itália e jurava de pés juntos que um dia, um homem alto, de cabelos negros e olhos verdes, apareceria ali, num carrão branco, conversível, pararia e abriria a porta para que ela entrasse e juntos seriam felizes para sempre. 


Certa madrugada, caía uma chuva fina e muitas “meninas” decidiram não arriscar ficar à mercê de uma pneumonia. Só estava Donatela encostada no parapeito da ponte. Vi um carrão branco passar bem devagar por Donatela e parar alguns metros adiante.


O motorista abriu a porta e saiu. Era um homem alto e de cabelos pretos, não deu pra ver a cor dos olhos. Quando pensei que ele a pegaria nos braços e eu seria testemunha de uma linda história de amor, vi uma das cenas mais tristes e revoltantes que meus olhos tiveram o desprazer de me mostrar.


Ele veio correndo, a pegou pelos pés e a jogou da ponte, dentro do rio, voltou e arrancou com o carro. Eu fiquei tão atordoado com a cena que não tive tempo de anotar a placa. Saí correndo para socorrê-la. Ela já vinha subindo o barranco, perguntei se estava machucada, se queria ajuda e ela me respondeu que estava tudo bem e já se acostumara a ser maltratada por um certo grupo de pessoas. Até tiro dão na direção delas. Povo sem noção! Depois deste dia não a vi mais por ali. 


A grande notícia que recebi e fiquei muito feliz foi a de que Donatela finalmente realizou seu sonho. No carnaval passado, depois do desfile, arrebatou o coração de um italiano, alto, de cabelos negros e olhos verdes. A paixão foi tão fulminante que não deu tempo nem de se despedir das amigas.


A essa hora deve estar passeando de gôndola numa romântica Veneza, com um enorme chapéu branco, óculos escuros e uma taça de champanhe, sendo admirada por seu grande amor. Isso dava até tema pra filme. Que sejam felizes todas, todos e todes! 


A você, que fez aquela covardia com ela e a todos aqueles que pensam como você, trago uma boa notícia: o carnaval está chegando, tem gringo à beça chegando aí. Quem sabe a sorte não lhe sorri?  Sai do armário! 


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Paulinho Freitas é compositor, sambista e escritor.

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