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O vermelho que tomou conta de São Gonçalo

há 2 horas
3 min de leitura

Por Mira Pimentel


Foto: reprodução
Foto: reprodução


Hoje, São Gonçalo amanheceu com uma cor diferente.

O vermelho tomou conta do Centro. Bandeiras, camisetas, faixas e gente ocuparam as ruas para acompanhar a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Olhei, observei, conversei com algumas pessoas que participavam daquele momento. Gente comum, gente que trabalha, que luta, que carrega suas dificuldades e, sobretudo, gente que ainda sonha com um futuro melhor.

E talvez seja justamente aí que esteja a força daquela multidão.

Porque ainda somos partidários.


Ainda carregamos ideologias, crenças políticas e sonhos de sociedade.

A ideologia não desapareceu. Ela continua viva naqueles que acreditam que a política pode ser instrumento de transformação social.

O Partido dos Trabalhadores nasceu em 1980, em meio às lutas dos trabalhadores e dos movimentos sociais. Lula foi um dos principais fundadores dessa história e construiu sua trajetória política a partir do movimento sindical, chegando à Presidência da República em 2003, sendo reeleito em 2006 e retornando ao cargo em 2023.

Para quem acompanha essa história, Lula não é apenas o homem que ocupa hoje o Palácio do Planalto. É também o trabalhador que saiu de Garanhuns, no interior de Pernambuco, viveu a pobreza, migrou ainda criança com a família e conheceu as dificuldades de uma infância marcada pela necessidade.


Talvez por isso ele fale de fome com uma memória que não vem apenas dos livros ou dos números.


A fome, para ele, também faz parte da memória de uma vida.

E foi essa experiência que ajudou a construir um discurso político no qual a pobreza e a desigualdade ocupam lugar central.


Ao longo de seus governos, programas como o Bolsa Família, o Programa de Aquisição de Alimentos e a Alimentação Escolar passaram a fazer parte das políticas de combate à fome e à insegurança alimentar. Em discurso oficial, Lula também destacou medidas relacionadas à valorização do salário mínimo, geração de empregos, igualdade de remuneração entre homens e mulheres e políticas de cuidados.

Naquele momento, olhando para as pessoas ao meu redor, pensei que política também é feita disso: de memória.


Memória de quem passou fome.

Memória de quem esperou por uma oportunidade.

Memória de quem recebeu um benefício e conseguiu colocar comida dentro de casa.

Memória de quem acredita que um governo pode diminuir distâncias entre os que têm muito e os que têm pouco.


E há quem continue acreditando no líder.


Um homem que, aos 80 anos, chega a um terceiro mandato presidencial e ainda mantém uma capacidade impressionante de mobilizar pessoas e provocar paixões políticas.

Para seus apoiadores, existe ali a continuidade de um projeto que nasceu muito antes de chegar ao poder: um projeto de inclusão social, de redução das desigualdades e de ampliação de direitos.


Para seus adversários, existem outras leituras, outras críticas e outras formas de enxergar o Brasil.


E isso também faz parte da democracia.


Mas naquele pedaço de São Gonçalo, naquele dia, havia uma multidão que escolheu estar ali.

Não apenas pela cor da bandeira.

Mas pela cor de uma ideia.

Vermelho de partido.

Vermelho de história.

Vermelho de quem ainda acredita.


E talvez seja por isso que, mesmo depois de tantos anos, mesmo depois de tantas disputas, tantas derrotas e tantas mudanças no país, ainda exista gente disposta a sair de casa para ouvir aquele homem falar.

Porque alguns líderes passam pela política.

Outros permanecem na memória de um povo.

E enquanto as bandeiras vermelhas tremulavam nas ruas de São Gonçalo, eu pensei numa antiga passagem de Provérbios: “Quando os justos governam, o povo se alegra.”

Não como uma sentença sobre quem é justo ou injusto, isso cabe à consciência e à história de cada um.


Mas como uma pergunta que permanece atravessando os tempos: para quem, afinal, se governa?

No fim da festa, as bandeiras serão recolhidas.

As ruas voltarão ao movimento de todos os dias.

Mas continuarão ali as pessoas.

As que sonham.

As que esperam.

As que acreditam.


E as que ainda lutam para que o Brasil seja um país onde ninguém precise conhecer a fome para saber o que ela significa.


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Mira Pimentel é cronista

 

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