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Será correto viver corretamente?

SÃO GONÇALO DE AFETOS


Por Paulinho Freitas

 

Foto: Jornal Daki com IA
Foto: Jornal Daki com IA


Nemerinho lutou pela vida desde o nascimento. Foram sete longos meses pensando no que encontraria aqui fora. 


O parto foi tão de repente que a mãe teve que se valer da caridade alheia para as fraldas e agasalhos. Nasceu com dificuldades para respirar, com o cordão umbilical enrolado no pescoço, não se sabe como se salvou. O Pronto Socorro Central foi o lugar mais visitado por ele durante toda a infância e pré-adolescência com crises de bronquite, com muita falta de ar.

 

Na casa de seu Nemério, pai de Nemerinho, todos trabalhavam no pequeno comércio da família. Aos dezoito anos Nemerinho já era o braço direito do pai, levantava antes do galo cantar e dormia depois que a lua, altiva e solitária no céu, já não tinha ninguém para iluminar. Estudou pouco, não dava tempo, e trabalhou muito, todo o tempo. Não frequentou festas e nem bailes, não bebia e não fumava...

 

Atrás do balcão conheceu a esposa, sua única namorada a vida toda. Teve dois filhos, aos quais dedicou toda sua energia e grande parte de suas economias para dar e cobrar muito estudo. Os dois formados e pós-graduados, longe do balcão como ele sempre sonhou, os dois casados e morando em outra cidade, dando conforto a família e criando os filhos com o mesmo rigor e zelo que o pai teve para com ele.

 

Nemerinho aposentou, fechou as portas do comércio e da pequena varanda assistia o pôr do sol, dando os últimos retoques de beleza nas tardes da Baia da Guanabara. Relembrou cada momento de sua vida, sem festas, brincadeiras, sem muitos amigos, sem histórias ou vantagens para contar.


Viveu uma vida correta, não se afastou um milímetro da retidão, da honestidade e antes de, naquela tarde, para sempre fechar os olhos deve ter se perguntado: valeu à pena viver corretamente? 


Respondo eu: valeu sim meu amigo.


Valeu! 


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Paulinho Freitas é compositor, sambista e escritor.


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