top of page

QUEM TEM O DIREITO DE DIZER QUEM EU SOU?

3 de set.
4 min de leitura

Uma pergunta à Parada, aos movimentos e a todos nós

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Há uma pergunta que começou a me incomodar.

Não nasceu de uma rejeição à diversidade. Nasceu justamente do contrário: da tentativa de compreender até onde pode ir a liberdade humana quando a própria liberdade começa a ser organizada em categorias.


Vivemos uma época extraordinária.


Depois de séculos em que pessoas foram perseguidas, humilhadas, violentadas e obrigadas a esconder seus afetos, sua sexualidade e sua identidade, a sociedade finalmente criou espaços de fala, organizações, movimentos, conselhos e manifestações públicas para defender aqueles que durante tanto tempo foram silenciados.


Isso é uma conquista civilizatória.


Mas toda conquista precisa, em algum momento, ser revisitada.


Porque aquilo que nasce para libertar pode, se não for permanentemente questionado, transformar-se também em estrutura.

E então surge a pergunta:

quem tem o direito de dizer quem eu sou?


Gays organizam-se.


Lésbicas organizam-se.


Bissexuais organizam-se.


Pessoas trans organizam-se.


Travestis organizam-se.


Existem conselhos, associações, coletivos, marchas, organizações e instituições que representam diferentes segmentos.


Em São Paulo, inclusive, a própria estrutura do Conselho Municipal de Políticas LGBT reconhece diferentes segmentos, entre eles lésbicas, gays, homens bissexuais, mulheres bissexuais, travestis, mulheres transexuais e homens trans.


E existem, sim, organizações especificamente dedicadas à bissexualidade, como o Bi-Sides, que se apresenta como um coletivo voltado à construção do movimento bissexual brasileiro.

Portanto, não é sobre a inexistência desses espaços.

É sobre outra coisa.


É sobre o momento em que a identidade coletiva começa a falar mais alto do que a individualidade.

Porque talvez tenhamos cometido um pequeno equívoco ao imaginar que, depois de libertarmos as pessoas das antigas classificações, precisaríamos necessariamente criar novas classificações para garantir essa liberdade.


Será?


Será que uma pessoa precisa pertencer a uma instituição para ter legitimidade?


Será que um movimento pode falar em nome de milhões de indivíduos sem que esses indivíduos sejam, antes de tudo, escutados em sua singularidade?


A Parada do Orgulho LGBT de São Paulo é uma das maiores manifestações públicas dessa história. Organizada pela APOLGBT-SP, ela nasceu da afirmação de existência e direitos e se tornou uma grande plataforma de cidadania, cultura e mobilização social.


Mas justamente por sua dimensão, eu gostaria de fazer uma pergunta aos responsáveis pela Parada:

quem é o sujeito que está no meio daquela multidão?


É um gay?


É uma lésbica?


É uma pessoa trans?


É uma pessoa bissexual?


É alguém que ainda está tentando compreender a própria sexualidade?


É alguém que não deseja ser definido?

É alguém que não se sente representado por nenhuma dessas organizações?


É alguém que pertence a mais de uma dessas experiências?


Ou é simplesmente uma pessoa?


Talvez seja essa a pergunta que a modernidade ainda não conseguiu responder.


Porque classificamos para proteger.


Criamos categorias para tornar visíveis.

Criamos identidades coletivas para conquistar direitos.


Tudo isso pode ser necessário.


Mas existe um perigo silencioso:


quando a categoria criada para proteger começa a determinar quem pode ou não pertencer a ela.


Nesse momento, a identidade deixa de ser somente expressão de liberdade e pode transformar-se em fronteira.

E fronteiras produzem dentro e fora.


Nós e eles.


Os legítimos e os suspeitos.


Os que pertencem e os que precisam provar que pertencem.


E aqui aparece uma contradição que precisa ser enfrentada com honestidade.

Como combater a homofobia sem reproduzir mecanismos de exclusão?


Como defender a liberdade sem transformar a identidade em uma obrigação?


Como lutar contra o preconceito sem criar novas formas de policiamento sobre aquilo que cada indivíduo é?


Talvez não seja justo chamar os movimentos de homofóbicos.


Seria uma acusação ampla demais.

Mas é perfeitamente legítimo perguntar se algumas estruturas de representação podem reproduzir, ainda que involuntariamente, a lógica que pretendem combater: a lógica de dizer ao outro quem ele é.


Essa é uma pergunta filosófica, não uma condenação.


E talvez seja exatamente por isso que precise ser feita.


Afinal, uma mulher lésbica não é somente lésbica.

Um homem gay não é somente gay.


Uma pessoa bissexual não é somente bissexual.


Uma pessoa trans não é somente trans.


Antes de qualquer definição, existe uma pessoa.



Uma biografia.

Uma consciência.


Uma história.


Uma família.


Uma profissão.


Uma inteligência.

Uma sensibilidade.


Um conjunto de sonhos e contradições que nenhuma sigla consegue conter.


Por isso, talvez o próximo avanço da modernidade não seja criar mais categorias.


Talvez seja aprender a conviver com pessoas que não cabem perfeitamente em nenhuma delas.


E isso vale para todos nós.

A grande revolução talvez não seja simplesmente dizer:


“Eu tenho o direito de ser identificado.”


Talvez seja também dizer:


“Eu tenho o direito de não ser definido por vocês.”


À Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, aos conselhos públicos, às organizações, aos coletivos e às lideranças desse universo, deixo uma pergunta respeitosa:


Vocês representam pessoas ou representam identidades?

E, se representam identidades, como garantem que a identidade não se transforme em uma nova forma de enquadramento do indivíduo?


Porque uma sociedade verdadeiramente livre não pode trocar uma prisão antiga por uma prisão nova, ainda que a nova prisão seja construída com boas intenções.


Talvez o futuro da diversidade seja justamente este:


menos donos da identidade e mais defensores da liberdade.


Menos pessoas falando por outras pessoas.


Mais pessoas podendo falar por si mesmas.


Menos necessidade de provar pertencimento.

Mais liberdade para existir.


Porque no final de todas as siglas existe alguém que nenhuma instituição pode possuir:

o indivíduo.


E talvez a maior conquista da modernidade seja finalmente compreender que respeitar alguém não significa necessariamente defini-lo.


Às vezes, respeitar é simplesmente dizer:


“Você não precisa me explicar quem é. Eu reconheço o seu direito de existir.”

Nos siga no BlueSky AQUI.

Entre no nosso grupo de WhatsApp AQUI.

Entre no nosso grupo do Telegram AQUI.

 

Ajude a fortalecer nosso jornalismo independente contribuindo com a campanha 'Sou Daki e Apoio' de financiamento coletivo do Jornal Daki. Clique AQUI e contribua.


Mira Pimentel é cronista.

Comentários


POLÍTICA

KOTIDIANO

CULTURA

TENDÊNCIAS
& DEBATES

telegram cor.png
bottom of page