A volta dos que não foram
SÃO GONÇALO DE AFETOS
Por Paulinho Freitas

De repente me pego chorando com a prisão da princesa negra na novela das seis. Não pelo destino da personagem, que sei, daqui há alguns capítulos será liberta e antes do final da história estará em seu trono, ladeada por seu príncipe salvador, com seus súditos à sua volta lhe bendizendo como uma santa, se casarão e sairão por uma estrada infinita com um lindo pôr do sol no final.
Chorava por Sabina, minha bisavó, que talvez tivesse sido uma rainha também, arrancada de seu reino e trazida para cá num navio negreiro, carregado de incertezas, mas com a certeza de que o final não ia ser feliz. Realmente não foi.
No dia quatorze de maio, os reis e rainhas africanos trazidos escravizados para o Brasil foram libertos. Não porque seus proprietários fossem bonzinhos, mas sim, porque a pressão internacional foi tamanha que não houve outra alternativa. Mesmo assim, a liberdade foi feita como os mal tutores de animais fazem com seus bichos, foram deixados na rua, à própria sorte.
Mais ainda chorei quando minha companheira de trabalho declarou seu voto a um deputado que defende o fim dos direitos trabalhistas, defende uma escala de trabalho 7x0 e que os horários de trabalho sejam negociados diretamente entre patrões e empregados, sendo remuneradas apenas as horas trabalhadas. Defende também a desvinculação das aposentadorias, pensões, BPC, etc , do salário mínimo. Defende a redução da maioridade penal para dezesseis anos e a privatização das praias. Quer saber o motivo pelo qual ela vota nele? Eu digo: Ele é bonitinho.
Não sei se pulo da ponte, planto um pé de pimenta pra comer com Xinxim de galinha, que eu nem sei fazer, ou chupo uma dúzia de limões galegos.
O cara foi eleito, outros da mesma corrente também. Ela está dando pulinhos de felicidade, como um peixe que mordeu uma minhoca apetitosa, mas com um enorme anzol escondido por dentro.
A cabeça não para de pensar e quanto mais eu penso, mais eu choro. O sacrifício da minha bisavó e de tantos outros como ela ao subir os morros, criar comunidades, não deixar a nossa história se perder, orientar os novos a buscar seus lugares na sociedade, estudar, ter altivez e lutar por uma sociedade igualitária nos direitos e deveres não sensibilizou alguns de nós a ponto de fazer-nos ao menos respeitar quem pavimentou a estrada pra gente estradar.
Alguns de nós não percebe que a foto da mão estendida em nosso auxílio é apenas mais uma forma de colocar mais anéis na outra mão, escondida no bolso do “bem-intencionado”. Por fim, o capítulo da novela acabou, entra o telejornal. O âncora noticia, constrangido, que os candidatos com perfis socialista, foram eleitos com expressiva votação, apesar de estarem em menor número nas assembleias, Câmara e senado, mas sorri ao dizer que os conservadores são ainda maioria.
Novos tempos, velhos algozes.
Lembrei da novela. Um administrador de fazenda aqui no Brasil, negro que não se curva, vai a um fictício reino na África lutar junto àqueles que tentam derrubar um rei ditador e golpista, que só pensa em seus lucros enquanto a população morre de fome.
Neste reino, num enorme Baobá uma adaga está fincada e só um valente guerreiro de sangue nobre conseguiria tirá-lo e com ela atacar o rei ditador e retomar o trono para quem de direito. E quem foi este guerreiro? Aquele brasileiro que saiu daqui, um agudás, para ser o salvador daquela pátria.
Nossa missão é bem mais simples. Com um toque sutil na urna eletrônica, podemos exercer nossa vontade, não por nossas convicções, pois somos egoístas e temos muita dificuldade empática, mas pelo melhor para a coletividade. Que sejamos todos verdadeiros guerreiros e guerreiras, de sangue nobre, com legitimidade para retirar a adaga do peito do Baobá da história, que teima em não querer sair de lá. Que sejamos esperança e fé. E, que no final, como na novela, tudo dê certo.
Um forte abraço irmãos e irmãs.
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Paulinho Freitas é compositor, sambista e escritor.









































































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