Cuidado com os discursos, o futuro não pode esperar
Por Mira Pimentel

Assistindo a um debate, fiquei pensando em como a política brasileira parece, tantas vezes, caminhar em círculos. Mudam os personagens, renovam-se os palanques, surgem novas promessas, mas o roteiro permanece quase sempre o mesmo. Discursos repetidos, soluções anunciadas e uma população que continua esperando que a vida, finalmente, melhore.
Enquanto os políticos disputam espaços de poder, o cidadão faz suas próprias contas. Paga impostos, enfrenta filas nos hospitais, procura vagas nas escolas, luta por trabalho e tenta sobreviver ao peso das despesas que não param de crescer. Para quem vive essa realidade, a política não pode ser um espetáculo. Precisa ser resposta.
É por isso que devemos olhar com atenção para o dia 4 de outubro.
Uma escolha eleitoral não é apenas um gesto diante de uma urna. É uma decisão que pode repercutir na vida de milhões de pessoas. E decisões importantes não combinam com impulsos, ilusões ou discursos cuidadosamente ensaiados para despertar medos e conquistar aplausos.
Há discursos que atravessam gerações sem apresentar soluções novas. Prometem mundos, apontam culpados, alimentam conflitos e pedem confiança, mas pouco esclarecem sobre como resolver os problemas concretos da população. É preciso cuidado para não confundir a eloquência de um palanque com a capacidade de realizar, nem a repetição de uma promessa com a existência de um projeto.
Não podemos permitir que a esperança seja conduzida por uma estrada cujo destino desconhecemos. Um povo desatento aos sinais pode acabar caminhando para um precipício, acreditando que está a caminho da salvação.
Mas como escolher com responsabilidade?
Talvez o primeiro passo seja trocar o encantamento pelos discursos pela análise dos projetos. Perguntar de onde virão os recursos, como serão aplicados, quais resultados se pretende alcançar e de que maneira a população poderá fiscalizar sua execução. Observar a trajetória dos candidatos, suas realizações documentadas e a coerência entre aquilo que dizem e aquilo que fazem.
Precisamos de propostas que enfrentem o peso dos custos sobre a população, reduzam desperdícios, melhorem a gestão e façam os serviços públicos funcionarem. Saúde não pode ser apenas uma promessa de campanha. Educação não pode ser uma fotografia de inauguração.
Trabalho não pode continuar sendo uma palavra bonita pronunciada diante de quem precisa levar o pão para casa.
E há algo que não podemos ignorar: vivemos em uma nova era. A tecnologia e a inteligência artificial já oferecem recursos para auxiliar na fiscalização das despesas públicas, no acompanhamento de contratos, no controle de metas e na transparência dos investimentos. Temos condições de exigir uma administração mais aberta, planejada e comprometida com resultados.
Por que continuar aceitando práticas antigas se podemos construir instrumentos modernos de controle e participação popular? Por que nos contentarmos com promessas vagas quando podemos cobrar objetivos, prazos e prestação de contas?
A tecnologia não substitui a ética, e nenhum sistema resolve sozinho os problemas de uma sociedade. Mas, aliada a instituições responsáveis e à participação cidadã, ela pode ajudar a fechar portas para irregularidades e abrir caminhos para uma gestão mais eficiente.
O que precisamos não é de políticos que saibam apenas conquistar votos, mas de representantes que compreendam a dimensão da responsabilidade que recebem. Gente capaz de apresentar projetos viáveis, administrar recursos com transparência e reconhecer que o dinheiro público tem destino certo: atender às necessidades coletivas.
No dia 4 de outubro, antes de escolhermos, vale uma pausa para pensar. Quem apresenta propostas concretas? Quem explica como pretende realizá-las? Quem assume compromissos que podem ser acompanhados e cobrados? Quem trata o eleitor como cidadão durante todo o mandato, e não somente nos dias de campanha?
Não entreguemos nosso futuro a frases de efeito. Não permitamos que velhos discursos, vestidos com novas roupas, nos façam esquecer as necessidades de sempre.
O voto é nosso, mas suas consequências ultrapassam o momento da escolha.
Que a emoção não nos impeça de pensar, que a indignação não nos faça perder o discernimento e que a esperança não seja confundida com ingenuidade.
Porque um país não avança apenas trocando os nomes que ocupam o poder. Avança quando a sociedade aprende a exigir trabalho, planejamento, honestidade e resultados.
A democracia nos oferece a oportunidade de escolher. A responsabilidade de conhecer, comparar e cobrar é o que pode transformar essa escolha em mudança concreta.
E o futuro, esse, não pode continuar esperando.
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Mira Pimentel, cronista









































































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