Pare, olhe, escute
SÃO GONÇALO DE AFETOS
Por Paulinho Freitas

Tenho um amigo que, com oitenta anos e uma saúde mental que exige cuidados, tropeçou no quintal e fraturou o fêmur. Precisou ficar no Pronto Socorro Central para fazer uma cirurgia.
Por sua idade e pela debilidade, é necessário ter um acompanhante e nos revezamos em ficar a seu lado neste momento. O que não é muito legal. Primeiro porque hospital não é um ambiente bom nem para quem trabalha lá. Exige atenção da mente durante vinte e quatro horas por dia. Até fora do plantão, você está de plantão. É sacrificante, apesar de terem escolhido a profissão por amor ao que se faz. Nada mais justificaria a escolha, uma vez que o trabalho é ruim e as condições dadas para exercer a profissão são piores ainda.
Para quem acompanha o paciente. também é horrível. Não tem uma cadeira para sentar, o bebedouro não tem copo, o banheiro, apesar do pessoal da manutenção ser incansável na limpeza, o povo não ajuda e está sempre sujo. Problemático, mas é o que se tem numa cidade que ainda não aprendeu a escolher seus representantes por competência, mas isso é outra história. E eu já ia esquecendo do assunto que eu realmente queria falar.
Ao lado do meu amigo, numa maca, colocada no chão, pois os leitos estavam todos ocupados, estava um rapaz gemendo de dor. Foi atropelado por um ônibus no cruzamento da rua Visconde de Itaúna com rua Fontes, ali no Paraíso. A situação dele não está boa não.
Naquele mesmo ponto há muito tempo atrás, a rua Visconde de Itaúna cruzava a linha férrea existente ali. Lembro de ver meu pai chegando abalado. Acabara de testemunhar um atropelamento horrível.
Um rapaz vinha de bicicleta, mesmo com uma enorme placa de Atenção, sinal sonoro e a buzina do trem acionada, ele tentou atravessar. Não deu tempo. Foi colhido pelo trem. Não morreu, mas ficou no mundo da lua pelo resto da vida. Este foi o preço de sua irresponsabilidade. No bairro, todos os chamavam de Tereré, devido a sua condição mental.
Atenção! Pare! Olhe! Escute! Dizia a placa.
Meu amigo está lá, com aquela carinha de criança levada que não pode se mexer, sem poder dar suas voltas pelo quintal, andando depressa, quase correndo, pegando um cafezinho escondido na cozinha ou tentando sem sucesso, acender uma bituca de cigarro no fogão elétrico ou me chamando para passear na padaria.
Estou com saudades da minha criança levada de oitenta anos e espero que ele supere mais esta prova que a vida está lhe aplicando.
Quanto ao rapaz que está lá, na maca, no chão, tomara que não, mas pelo jeito, será, por sua irresponsabilidade, um novo Tereré.
Quanto a nós, temos dois caminhos nestes tempos de eleição: ou olhamos a placa que a vida coloca em nossa frente: ATENCAO! PARE, OLHE, ESCUTE! E façamos as escolhas certas, ou seremos atropelados pelo trem da história, correndo o risco de nos transformarmos, para sempre, em novos e eternos Tererés.
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Paulinho Freitas é compositor, sambista e escritor.









































































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