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'Cachorra'. 'Vagabunda'. Veja como Anitta envolveu os vereadores gonçalenses

"Lacração" é a estratégia adotada por parlamentares para marcar posição política e ideológica entre os eleitores


Por Helcio Albano

Cici Maldonado e Lecinho Breda/Foto: Reprodução TV Câmara - Internet
Cici Maldonado e Lecinho Breda/Foto: Reprodução TV Câmara - Internet

Demorou. Mas o fenômeno da lacração, essa praga que interdita e mutila o debate público na internet, chegou com tudo na Câmara de Vereadores de São Gonçalo. E os mais, digamos, "assanhadinhos" com o recurso midiático e obtuso de autopromoção nas redes sociais, a partir de suas performances na tribuna da casa legislativa, são os vereadores Lecinho Breda (MDB) e Cici Maldonado (PL).


Os dois figuras importantes da base do governo Nelson Ruas (PL) no Legislativo.


Breda, que é presidente da Câmara, chutou o balde da discrição, marca de seus antecessores na Mesa Diretora em outras legislaturas, e toda sessão faz questão de deixar a presidência e subir à tribuna.


O edil invariavelmente faz um mergulho profundo no passado recente e resgata dele um emaranhado de fake news, preferencialmente contra Lula, o PT e o que ele chama de "esquerda". Já levando, assim, a disputa eleitoral entre o atual e o ex-presidente da república para dentro do Parlamento.


Para atacar, ofender e desmoralizar os adversários, de corpo ausente ou presente, o vereador emedebista nem cora ao desenterrar um cipoal de lorotas que fizeram muito sucesso entre os "tios do zap" pós 2013 e que reforçaram o repertório de groselha antipetista que culminaria na queda de Dilma Rousseff da presidência em 2016.


Como o caso de Lulinha, o "catador de bosta de elefante de zoológico" (sic) que virou "dono da Friboi" (sic) e "proprietário de uma Ferrari de ouro" (sic).


Ou também o caso da ex-primeira dama Marisa Letícia, já falecida, que "juntou R$ 150 milhões vendendo Avon" (sic).


Boatos reproduzidos em todas as sessões por Breda e já há muito desmentidos. Tendo virado, inclusive, processos contra seus divulgadores por calúnia e difamação após nova jurisprudência do STF que não estende a imunidade parlamentar ao ataque à honra do ofendido. Isso é crime.


Diante da inércia da bancada parlamentar do PT frente aos ataques, dirigentes do partido da cidade já pensam em acionar a Justiça contra o presidente da Câmara.



Já Cici, que no ano passado "meteu um atestado" para dechavar sua demissão da liderança do governo Ruas, abraçou com força as pautas moralistas e de costumes para "brilhar" na ribalta parlamentar sem se dar conta de que a sucessão de absurdos e bravatas que diz estará para sempre registrada nos anais da Câmara para delícia - ou vergonha - dos historiadores no futuro.


Em março, o parlamentar reverberou na Câmara a histeria da direita bozonarista contra o filme Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola, com os atores e humoristas Danilo Gentili (ex-bolsonarista ferrenho) e Fábio Porchat (antipetista) denunciando uma suposta cena de "apologia" à pedofilia no longa lançado em 2016.


Na última terça (19), num misto de comédia, tragédia e perversão, Cici Maldonado subiu à tribuna, com celular e a tradução da premiada "Envolver", da cantora Anita, à mão.

Visivelmente excitado com o momento, o edil sussurra para os colegas e todo o planeta via internet a letra da canção ao microfone:


"Eu tenho a combinação completa pra você/Eu não duro muito solteira/Me aproveite..." Hum...


Após a fala dos primeiros versos, o vereador faz uma pausa dramática, para logo continuar, aflito:


"Eu não vou te envolver/..."


Outra pausa. Agora Cici sabe que alguma coisa diferente o perturba em seu corpo, o atiça:


"Vou fazer você gozar em cinco minutos"...


Novamente para. Atrás dele, uma assistente coça a cabeça flagrantemente incomodada com o patético da situação.


A tradutora de libras reluta, mas sinaliza com os três dedinhos juntos e inclinados para baixo o coito, o ato de prazer. É o seu trabalho, mesmo inusitado. Envolver em Libras. Um luxo. Nem a suburbana Anitta esperava um presente desse.


A cada pausa no discurso, uma recomposição cênica, dramática. Ele não pode desistir:


"Bebendo e fumando..."

Aqui ele repete o verso, "Bebendo e fumando", em ênfase, com aquele sorriso meio cafajeste no rosto, já dentro do universo criado pela artista. Vai Cici, vai:


"Eu não vou te envolver/Vamos continuar bebendo e fumando/Sexo e álcool..."


Nesse momento, o êxtase se transveste em indignação simulada. Viril, Cici explode em fúria incontida dos que tomam pra si as dores do mundo, como um verdadeiro arauto da moralidade em defesa das criancinhas e da sagrada família brasileira.


A jovem assistente que compõe o bizarro cenário já não esconde o desconforto e o incômodo com o palavrório fora de lugar e se levanta. Deixando o parlamentar gradinense sozinho no exato clímax da perversão do ofício de um vereador.


Se a jovem o deixa, Lecinho, solidário vem em seu socorro, o aparteando da cadeira da presidência:


"Parece uma cachorra no cio. Uma vergonha", reage, com convicção bufa.


E lá pelas tantas, em júblio e já "desentalado", como fez questão de frisar, Cici decreta:


"Vagabunda!"


Foi mais ou menos desse jeito como você poderá ver o corte abaixo da TV Câmara.


E, assim, passamos por mais uma semana em que os ilustres edis defensores da moralidade não comentam o caso de pedofilia, essa sim documentada, protagonizado pelo seu aliado e correligionário, Gabriel Monteiro...



 

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Helcio Albano é jornalista e editor-chefe do Jornal Daki.