Djamila Ribeiro critica abandono do trabalho de base pela esquerda e alerta para avanço da extrema direita
Em entrevista, a filósofa e escritora afirmou que grupos conservadores investiram em comunicação digital e ampliaram presença em territórios periféricos; ela defende diálogo com eleitores e revisão das formas de comunicação da esquerda

A filósofa e escritora Djamila Ribeiro afirmou que a esquerda precisa retomar o trabalho de base para enfrentar o avanço da extrema direita no Brasil. Em entrevista ao programa “No Que Dia”, apresentado pelo jornalista Matheus Leitão, colunista do Metrópoles, ela avaliou que grupos conservadores se organizaram, investiram em comunicação digital e ampliaram sua presença em territórios periféricos.
Djamila classificou como “assustadora” a votação obtida por figuras de direita para o Congresso Nacional e assembleias legislativas. Para ela, a força desses grupos pode dificultar a aprovação de pautas ligadas aos direitos das mulheres e de outros setores historicamente vulnerabilizados.
“Não existe vácuo na política”, disse a autora ao comentar a ocupação de espaços sociais e religiosos por lideranças de extrema direita.
Ela citou a atuação nas redes sociais, a linguagem direta e a influência de igrejas evangélicas como fatores que ajudam a explicar a conexão desses grupos com parte do eleitorado.
A escritora também apontou limites da própria esquerda. “Acredito que a esquerda, quando assume o poder, deixa muito o trabalho de base”, afirmou, defendendo uma revisão das formas de comunicação e de diálogo com a população.
Na avaliação de Djamila, a esquerda não deve tratar como “fascista” ou “burra” uma pessoa da periferia que votou em Bolsonaro. Ela defendeu que forças progressistas busquem compreender as razões do voto, inclusive a identificação de eleitores com candidatos que se apresentam como cristãos.
A autora distinguiu política de identidade de identidade política ao abordar a adesão eleitoral a lideranças de direita. Segundo ela, compreender esses vínculos exige observar fatores religiosos, sociais e comunicacionais, sem reduzir escolhas políticas a uma explicação única.
Djamila afirmou ainda que o debate sobre comunicação precisa ocupar espaço nas discussões da esquerda. Ela citou a presença de igrejas entre concessionárias de meios de comunicação e sustentou que a influência religiosa passou a ter peso crescente sobre eleitores e decisões da política institucional.
Conhecida por livros como “Lugar de fala”, “Quem tem medo do feminismo negro?” e “Pequeno manual antirracista”, Djamila também disse que a popularização de conceitos não autoriza distorções.
"Lugar de fala é de onde se fala, não é o que se fala”, afirmou, ao defender a multiplicidade de vozes no debate público.
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