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Ser humano sendo ser humano

há 1 hora
3 min de leitura

SÃO GONÇALO DE AFETOS


Por Paulinho Freitas


Foto: Arte Jornal Daki com IA
Foto: Arte Jornal Daki com IA


Tenho um amigo que foi morar fora do Rio de Janeiro. Ele está adorando morar naquele lugar. Primeiro porque não tem ninguém para perturbar sua pacata vida de pensador. Gosta da companhia das histórias que imagina, gosta de rir sozinho delas enquanto passeia com sua cadela num enorme gramado, à frente de sua janela. A cadela deve estar adorando também, não tem que dividir seus tutores com mais ninguém. A mulher do meu amigo também está feliz. Longe da vida agitada, dos perigos que rondam cada esquina do Rio de Janeiro, e, também de, como a cadelinha da família, não ter que dividir a atenção de seu amor com mais ninguém.


Quando ele não está trabalhando, solta sua cadelinha no gramado com um brinquedinho que ela vai buscar incessantemente quantas vezes ele jogar, já até emagreceu, enquanto isso ele pensa no livro que escreve com histórias passadas numa cidade fictícia e atemporal, no espartilho da namorada do detetive da história que o espera com uma garrafa de espumante e duas taças, enquanto ele, do outro lado da cidade, tenta desvendar um assassinato, sem perceber que o assassino deixou, no cinzeiro, um cigarro com o filtro sujo de batom, curiosamente, da mesma cor e marca do que sua namorada usa.


Numa manhã nublada, coisa rara por lá, ele observou de sua janela alguns carros de luxo invadindo o gramado.  Várias pessoas de lá saíram e conversaram longamente, deixando o local depois de trocarem abraços e sorrisos, o que dava a entender que fizeram  ou fecharam um bom negócio. Soube meu amigo, depois, que se tratava da venda daquele terreno e a preocupação dele é que se construa ali mais um empreendimento de concreto armado, acabando com seus passeios matinais com sua amiguinha de quatro patas e com o por do sol ao som  de uma boa música namorando ao sabor de um açaí geladinho. Mas ninguém está preocupado com isso. É cada um por si, reclamava ele.


Imediatamente me lembrei de meu vizinho, ele já passou dos cinquenta, mas adora brincar de pipas. No último domingo da temporada, todos querendo cortar a linha da pipa dos outros e ele, o mais entusiasmado, numa manobra mal feita, prendeu sua pipa numa das árvores da rua. Quando o vi descendo do terraço em direção a árvore, imaginei que ele fosse subir na árvore para tentar recuperar sua pipa. Ao invés disso, ele pegou um machado e cortou a árvore, recuperou a pipa e voltou ao terraço para continuar a brincadeira. A árvore ficou deitada como uma ponte ligando as margens do rio, pronta para virar fogueira na próxima festa junina da rua. Fiquei boquiaberto!


Enfim, não importa o bem estar do alheio, se é para ganhar dinheiro ou para sustento do ego, se é para acabar com florestas inteiras e transforma-las em pasto para alimentar o mundo, mesmo a custa da morte de animais silvestres e do aquecimento global, estamos aí.


O importante é construir, destruir para o “bem da humanidade”, do “progresso local”.  Não importa se por uma pipa ou por um milhão de reais. O importante é demonstrar força e poder. É estar acima do próximo. Não adianta reclamar. 


Só estamos felizes se estivermos em vantagem sobre nosso semelhante, desde que o mundo nasceu é assim que acontece. Conformemo-nos pois, é o ser humano, sendo, ser humano.


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Paulinho Freitas é compositor, sambista e escritor.

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