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Filas menores, caminho mais longo: o paradoxo do voto em São Gonçalo

há 2 horas
9 min de leitura

O que a Teoria das Filas, a Teoria da Decisão e a Teoria do Discurso revelam sobre transporte, lucro social e abstenção eleitoral Por Oswaldo Mendes

 

Aglomeração em frente ao local de votação no Shopping São Gonçalo/Foto: Miguel Moraes via O Metropolitano
Aglomeração em frente ao local de votação no Shopping São Gonçalo/Foto: Miguel Moraes via O Metropolitano

Dona Maria acordou cedo no dia do primeiro turno. Moradora da Praia da Luz, ela soube que sua seção eleitoral não ficava mais perto de casa: tinha sido levada para o São Gonçalo Shopping. Foi para o ponto acreditando no que ouviu, que o ônibus seria de graça. Esperou. Passou um, lotado. Depois, mais nada. O aplicativo mostrava uma corrida que custava três vezes o normal. Ela voltou para casa sem votar. Dona Maria é uma personagem, mas sua história se repetiu, com outros nomes, em muitos bairros da cidade.


Agora vem o segundo turno, e é muito provável que as filas sejam menores. Há boas razões técnicas para isso. Mas existe uma pergunta que precisa ser feita antes de comemorar: a fila diminuiu porque a votação ficou mais rápida, ou porque muita gente não conseguiu chegar até ela? Três teorias ajudam a responder.


A Teoria das Filas: menos tempo na cabine, menos espera do lado de fora


A Teoria das Filas estuda algo que todos conhecemos na prática: a espera surge quando chegam mais pessoas do que o atendimento consegue absorver. Um de seus resultados mais conhecidos, a Lei de Little, mostra que a quantidade de pessoas numa fila depende do ritmo de chegada e do tempo que cada uma leva para ser atendida. Outro ensinamento é menos intuitivo: quando uma seção trabalha perto do limite, qualquer atraso pequeno faz a espera crescer de forma desproporcional. Por isso, alguns segundos a mais por eleitor podem virar horas no fim da fila.


No primeiro turno, cada eleitor registrou seis votos para cinco cargos: deputado federal, deputado estadual, dois senadores, governador e presidente. Era preciso digitar, conferir e confirmar cada um. Para quem tem pouca intimidade com teclados e telas, o tempo na cabine aumentou, e a fila sentiu. Com a eleição para governador decidida, o segundo turno em São Gonçalo terá uma única escolha, entre dois candidatos à Presidência. O tempo de atendimento cai, a capacidade da seção aumenta e a tendência natural é de filas menores.


Uma simulação simples, com valores ilustrativos, mostra o tamanho dessa diferença.


Imagine uma seção com 400 eleitores e comparecimento de 76,5%. No primeiro turno, com cerca de um minuto e meio por eleitor, a urna funciona com 77% de ocupação no ritmo médio de chegada. No horário de pico da manhã, a ocupação passa de 100%: chegam mais pessoas do que a urna consegue atender, e a fila cresce sem parar. No segundo turno, com cerca de 36 segundos por eleitor, a ocupação cai para algo entre 31% e 48%, e a espera média fica abaixo de um minuto, mesmo no pico. Em outras palavras: a fila na seção deixa de ser o obstáculo. O gargalo passa a ser o caminho até ela.


A mesma teoria vale para o ponto de ônibus. A espera média de quem chega ao ponto depende do intervalo entre os coletivos e de sua regularidade. Se o intervalo dobra e os ônibus passam de forma irregular, a espera pode quase quadruplicar. É a matemática por trás da frase que todo morador da periferia conhece: "o ônibus não passa".


A Teoria da Decisão: escolher menos cansa menos, mas ir votar também custa


A Teoria da Decisão oferece dois olhares complementares. O primeiro está dentro da cabine. Estudos da psicologia cognitiva, como a chamada Lei de Hick, mostram que o tempo para decidir cresce com o número de alternativas. Herbert Simon, Prêmio Nobel de Economia, lembrou que nossa capacidade de processar informações é limitada. Seis votos em sequência exigem mais atenção, mais conferência e mais chances de erro do que um único voto. Votar fica mais simples, e isso também reduz a fila. Há também um sinal histórico: em 2022, a abstenção no segundo turno presidencial foi um pouco menor do que no primeiro em todo o país (20,59% contra 20,95%).


O segundo olhar está fora da cabine, e é aqui que mora o problema. O economista Anthony Downs mostrou, ainda nos anos 1950, que o eleitor também pesa, mesmo sem perceber, o custo de ir votar: tempo, dinheiro, cansaço e risco. Outros aprimoraram essa ideia: a pessoa vai votar quando o senso de dever e o benefício que enxerga na escolha superam o custo de comparecer. Quando esse custo sobe, a participação cai. Uma seção transferida para longe, sem ônibus direto e com corrida por aplicativo cara, aumenta esse custo justamente para quem tem menos condições de pagá-lo. A abstenção, nesses casos, não é preguiça nem desinteresse. É uma conta que não fecha.


A Teoria do Discurso: a democracia que só existe no anúncio


O filósofo alemão Jürgen Habermas, com sua Teoria do Discurso, sustenta que uma decisão democrática só é legítima quando todos os afetados têm condições reais de participar dela. Não basta o direito estar escrito; é preciso que ele possa ser exercido. Quando parte da população não consegue chegar à urna, o resultado continua válido juridicamente, mas a voz de uma parcela da cidade fica de fora da conversa coletiva.


Mas há um contraponto. Quando nenhuma das duas opções representa o eleitor, o voto nulo cresce como protesto. No segundo turno municipal de 2020 em São Gonçalo, os nulos chegaram a 11,07%. Quem enfrentou fila, lotação e preço alto para chegar à urna e, lá dentro, não encontrou motivo para escolher, também está dizendo alguma coisa.


A mesma teoria nos convida a olhar com atenção para os discursos oficiais. "Ônibus de graça no dia da eleição" soa como inclusão. Mas, se a frota nas ruas não acompanha a promessa, o anúncio passa a funcionar mais como propaganda do que como política pública. O mesmo vale para palavras como "moderno" e "verde" quando aplicadas a projetos de mobilidade. É preciso perguntar: o que o discurso promete e o que a realidade entrega?


O que os números do primeiro turno mostram


Reportagem do Jornal Daki publicada em 9 de outubro, baseada nos boletins de urna do TSE, mostra o tamanho do problema. As 27 seções da 36ª Zona Eleitoral que funcionaram no São Gonçalo Shopping registraram 32,04% de abstenção: dos 8.908 eleitores aptos, só 6.054 compareceram, e 2.854 ficaram em casa. É um índice maior do que o da Maré (28,46%) e o da Rocinha (26,86%), 8,59 pontos acima da média de São Gonçalo (23,45%) e cerca de 11 pontos acima da média nacional (21,08%).


Essas seções vieram de três escolas do Complexo do Salgueiro, em Fazenda dos Mineiros e Itaoca, transferidas pela Justiça Eleitoral por razões de segurança. A preocupação com a segurança é legítima, mas a nova seção ficou a cerca de 5 km de distância, o que exige transporte motorizado. No dia da votação, os eleitores relataram filas de 800 a 900 metros, da BR-101 até a entrada lateral do shopping, esperas de até três horas, ônibus lotados e atrasos de mais de duas horas nos pontos. Ainda em agosto, o mesmo jornal alertava que a falta de uma solução de transporte poderia abrir espaço para "caronas" oferecidas em troca de voto. O próprio levantamento ressalva que os boletins não permitem medir quanto pesou cada fator. Ainda assim, o alerta não pode ser ignorado.


O retrato da cidade inteira também impressiona. São Gonçalo tem cerca de 653 mil eleitores, e 153.229 não compareceram no primeiro turno, uma abstenção de 23,45%, acima da média do estado (23,32%). Somando ausentes, votos brancos e nulos, mais de 200 mil gonçalenses ficaram fora da escolha, número muito maior do que a votação de qualquer candidato a deputado na cidade. Cada ponto percentual de abstenção representa cerca de 6.500 pessoas.


A diferença entre bairros vizinhos também chama atenção. No levantamento por local de votação, Barro Vermelho teve 25,87% de abstenção, enquanto Santa Catarina ficou em 19,62%. Mais de seis pontos de diferença entre áreas próximas é exatamente o tipo de variação que as condições de acesso ao local de votação ajudam a explicar.


Moradores da Praia da Luz, Itaóca, Salgueiro, Manoel da Ilhota e Conjunto da PM precisaram se deslocar para um local sem ligação direta de ônibus a partir de seus bairros. E transporte no dia da eleição não é favor: é obrigação. Na ADPF 1013, o Supremo Tribunal Federal determinou, em 2022, que o transporte coletivo fosse mantido em níveis normais no dia da votação e, em 2023, reconheceu como omissão inconstitucional a falta de transporte gratuito com a frequência de dia útil. Para 2026, a Resolução TSE nº 23.751 manteve o dever do poder público de garantir essa oferta. Em São Gonçalo, decreto municipal de 18 de setembro determinou ônibus gratuitos das 7h às 18h, com 100% da frota de dia útil.


A régua, portanto, é objetiva. Segundo relatos de moradores, porém, havia poucos ônibus circulando, e as corridas por aplicativo chegaram a custar até três vezes mais por causa da tarifa dinâmica. O problema não é novo: no segundo turno de 2022, o TRE-RJ recebeu queixas sobre falta de ônibus em São Gonçalo e acionou a Procuradoria do Município e a Polícia Militar, enquanto o consórcio operador afirmava que o serviço estava normal. Se essas dificuldades se repetirem agora, a abstenção poderá se repetir também, e teremos o paradoxo completo: filas curtas e seções vazias, porque quem não consegue chegar nem entra na fila.


Do metrô ao MUVI: a promessa que encolheu


Por muitos anos, o gonçalense ouviu falar da Linha 3 do Metrô, um transporte de massa sobre trilhos capaz de ligar a cidade com rapidez e regularidade. Na prática, o que avançou foi o MUVI (Mobilidade Urbana Verde Integrada), baseado em corredores de ônibus. Pode até trazer melhorias pontuais, mas não tem a mesma capacidade de um sistema sobre trilhos e mantém a lógica de operação rodoviária. Para os bairros mais distantes, a troca pouco muda o isolamento de sempre.


Estado mínimo e periferia à deriva


A atual gestão municipal se alinha, em tese, à extrema-direita e segue a cartilha da livre iniciativa e do Estado mínimo. Nesse modelo, serviços essenciais ficam entregues à lógica do lucro das concessionárias. O último governo identificado com um projeto de esquerda na cidade foi o do Engenheiro Edson Ezequiel de Passos, que deu prioridade a investimentos públicos em saneamento, infraestrutura e desenvolvimento social. Quando o planejamento público se retrai, o resultado é previsível: áreas pobres, sem atrativo comercial, deixam de ser vistas como "convidativas" para o capital e ficam à deriva.


Basta ouvir os moradores de Itaitindiba, Praia da Luz, Bairro das Palmeiras, Mundel, Santa Isabel e Meia Noite. As queixas se repetem: ruas esburacadas, falta de asfalto, poucas linhas e intervalos longos. Para a empresa, rua ruim significa veículo desgastado e pouco retorno. Para o morador, significa ficar sem caminho até o trabalho, o posto de saúde, a escola e, no dia da eleição, até a urna.


Lucro social: o exemplo está do lado de casa


Existe outra forma de enxergar o transporte: como investimento que gera lucro social. O retorno não aparece na bilheteria, mas no trabalhador que chega ao emprego, no comércio que vende mais, no paciente que não perde a consulta e no cidadão que exerce seu direito de votar. Não é utopia. Aqui ao lado, Maricá mantém há mais de dez anos ônibus gratuitos operados por empresa pública municipal. Caucaia, no Ceará, e diversas outras cidades brasileiras seguiram caminho parecido. Quando o transporte é tratado como direito, os bairros que não dão lucro deixam de ser esquecidos.


Fiscalizar de verdade: mapas de viagem e fiscais nas ruas


Para que o direito de ir e vir saia do papel, o poder público precisa voltar a regular e fiscalizar com firmeza. A proposta tem duas frentes que se completam. A primeira é tecnológica: os ônibus já possuem GPS e sistemas de bilhetagem. Esses dados permitem auditar, em tempo real, os mapas de viagem, comparando o que foi contratado com o que realmente circulou. Linha suprimida, intervalo esticado e bairro sem cobertura aparecem na tela na mesma hora.


A segunda frente é presencial: fiscais distribuídos pela cidade, especialmente nos pontos das periferias, conferindo frequência e lotação, com poder de autuar. Empresas que descumprirem a frota combinada devem sofrer multas efetivas e, em caso de reincidência, perder a concessão.


Outras medidas simples fariam diferença já no próximo domingo de votação: publicar com antecedência as linhas e horários reforçados; criar linhas alimentadoras temporárias ligando os bairros aos locais que receberam seções transferidas; garantir o transporte de volta, e não só o de ida; abrir um canal de denúncia em tempo real, por telefone e aplicativo, para falta de ônibus; divulgar depois da eleição o relatório de quantos veículos circularam em cada linha; e exigir que qualquer transferência de seção venha acompanhada de um estudo de acesso por transporte público.


O verdadeiro termômetro da eleição


A Teoria das Filas e a Teoria da Decisão indicam que o segundo turno deve ter votação mais rápida. A Teoria do Discurso nos lembra que rapidez não basta: a democracia se mede pela possibilidade real de cada pessoa participar. Uma fila curta pode ser sinal de eficiência ou de exclusão silenciosa.


O sucesso de uma eleição, e de uma cidade, não está na velocidade da urna. Está na certeza de que a Dona Maria, e tantos moradores dos bairros mais distantes, encontrem um ônibus no ponto para ir, votar e voltar para casa com dignidade.


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Oswaldo Mendes é engenheiro e professor.

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