Filas menores, caminho mais longo: o paradoxo do voto em São Gonçalo
O que a Teoria das Filas, a Teoria da Decisão e a Teoria do Discurso revelam sobre transporte, lucro social e abstenção eleitoral Por Oswaldo Mendes

Dona Maria acordou cedo no dia do primeiro turno. Moradora da Praia da Luz, ela soube que sua seção eleitoral não ficava mais perto de casa: tinha sido levada para o São Gonçalo Shopping. Foi para o ponto acreditando no que ouviu, que o ônibus seria de graça. Esperou. Passou um, lotado. Depois, mais nada. O aplicativo mostrava uma corrida que custava três vezes o normal. Ela voltou para casa sem votar. Dona Maria é uma personagem, mas sua história se repetiu, com outros nomes, em muitos bairros da cidade.
Agora vem o segundo turno, e é muito provável que as filas sejam menores. Há boas razões técnicas para isso. Mas existe uma pergunta que precisa ser feita antes de comemorar: a fila diminuiu porque a votação ficou mais rápida, ou porque muita gente não conseguiu chegar até ela? Três teorias ajudam a responder.
A Teoria das Filas: menos tempo na cabine, menos espera do lado de fora
A Teoria das Filas estuda algo que todos conhecemos na prática: a espera surge quando chegam mais pessoas do que o atendimento consegue absorver. Um de seus resultados mais conhecidos, a Lei de Little, mostra que a quantidade de pessoas numa fila depende do ritmo de chegada e do tempo que cada uma leva para ser atendida. Outro ensinamento é menos intuitivo: quando uma seção trabalha perto do limite, qualquer atraso pequeno faz a espera crescer de forma desproporcional. Por isso, alguns segundos a mais por eleitor podem virar horas no fim da fila.
No primeiro turno, cada eleitor registrou seis votos para cinco cargos: deputado federal, deputado estadual, dois senadores, governador e presidente. Era preciso digitar, conferir e confirmar cada um. Para quem tem pouca intimidade com teclados e telas, o tempo na cabine aumentou, e a fila sentiu. Com a eleição para governador decidida, o segundo turno em São Gonçalo terá uma única escolha, entre dois candidatos à Presidência. O tempo de atendimento cai, a capacidade da seção aumenta e a tendência natural é de filas menores.
Uma simulação simples, com valores ilustrativos, mostra o tamanho dessa diferença.
Imagine uma seção com 400 eleitores e comparecimento de 76,5%. No primeiro turno, com cerca de um minuto e meio por eleitor, a urna funciona com 77% de ocupação no ritmo médio de chegada. No horário de pico da manhã, a ocupação passa de 100%: chegam mais pessoas do que a urna consegue atender, e a fila cresce sem parar. No segundo turno, com cerca de 36 segundos por eleitor, a ocupação cai para algo entre 31% e 48%, e a espera média fica abaixo de um minuto, mesmo no pico. Em outras palavras: a fila na seção deixa de ser o obstáculo. O gargalo passa a ser o caminho até ela.
A mesma teoria vale para o ponto de ônibus. A espera média de quem chega ao ponto depende do intervalo entre os coletivos e de sua regularidade. Se o intervalo dobra e os ônibus passam de forma irregular, a espera pode quase quadruplicar. É a matemática por trás da frase que todo morador da periferia conhece: "o ônibus não passa".
A Teoria da Decisão: escolher menos cansa menos, mas ir votar também custa
A Teoria da Decisão oferece dois olhares complementares. O primeiro está dentro da cabine. Estudos da psicologia cognitiva, como a chamada Lei de Hick, mostram que o tempo para decidir cresce com o número de alternativas. Herbert Simon, Prêmio Nobel de Economia, lembrou que nossa capacidade de processar informações é limitada. Seis votos em sequência exigem mais atenção, mais conferência e mais chances de erro do que um único voto. Votar fica mais simples, e isso também reduz a fila. Há também um sinal histórico: em 2022, a abstenção no segundo turno presidencial foi um pouco menor do que no primeiro em todo o país (20,59% contra 20,95%).
O segundo olhar está fora da cabine, e é aqui que mora o problema. O economista Anthony Downs mostrou, ainda nos anos 1950, que o eleitor também pesa, mesmo sem perceber, o custo de ir votar: tempo, dinheiro, cansaço e risco. Outros aprimoraram essa ideia: a pessoa vai votar quando o senso de dever e o benefício que enxerga na escolha superam o custo de comparecer. Quando esse custo sobe, a participação cai. Uma seção transferida para longe, sem ônibus direto e com corrida por aplicativo cara, aumenta esse custo justamente para quem tem menos condições de pagá-lo. A abstenção, nesses casos, não é preguiça nem desinteresse. É uma conta que não fecha.
A Teoria do Discurso: a democracia que só existe no anúncio
O filósofo alemão Jürgen Habermas, com sua Teoria do Discurso, sustenta que uma decisão democrática só é legítima quando todos os afetados têm condições reais de participar dela. Não basta o direito estar escrito; é preciso que ele possa ser exercido. Quando parte da população não consegue chegar à urna, o resultado continua válido juridicamente, mas a voz de uma parcela da cidade fica de fora da conversa coletiva.
Mas há um contraponto. Quando nenhuma das duas opções representa o eleitor, o voto nulo cresce como protesto. No segundo turno municipal de 2020 em São Gonçalo, os nulos chegaram a 11,07%. Quem enfrentou fila, lotação e preço alto para chegar à urna e, lá dentro, não encontrou motivo para escolher, também está dizendo alguma coisa.
A mesma teoria nos convida a olhar com atenção para os discursos oficiais. "Ônibus de graça no dia da eleição" soa como inclusão. Mas, se a frota nas ruas não acompanha a promessa, o anúncio passa a funcionar mais como propaganda do que como política pública. O mesmo vale para palavras como "moderno" e "verde" quando aplicadas a projetos de mobilidade. É preciso perguntar: o que o discurso promete e o que a realidade entrega?
O que os números do primeiro turno mostram
Reportagem do Jornal Daki publicada em 9 de outubro, baseada nos boletins de urna do TSE, mostra o tamanho do problema. As 27 seções da 36ª Zona Eleitoral que funcionaram no São Gonçalo Shopping registraram 32,04% de abstenção: dos 8.908 eleitores aptos, só 6.054 compareceram, e 2.854 ficaram em casa. É um índice maior do que o da Maré (28,46%) e o da Rocinha (26,86%), 8,59 pontos acima da média de São Gonçalo (23,45%) e cerca de 11 pontos acima da média nacional (21,08%).
Essas seções vieram de três escolas do Complexo do Salgueiro, em Fazenda dos Mineiros e Itaoca, transferidas pela Justiça Eleitoral por razões de segurança. A preocupação com a segurança é legítima, mas a nova seção ficou a cerca de 5 km de distância, o que exige transporte motorizado. No dia da votação, os eleitores relataram filas de 800 a 900 metros, da BR-101 até a entrada lateral do shopping, esperas de até três horas, ônibus lotados e atrasos de mais de duas horas nos pontos. Ainda em agosto, o mesmo jornal alertava que a falta de uma solução de transporte poderia abrir espaço para "caronas" oferecidas em troca de voto. O próprio levantamento ressalva que os boletins não permitem medir quanto pesou cada fator. Ainda assim, o alerta não pode ser ignorado.
O retrato da cidade inteira também impressiona. São Gonçalo tem cerca de 653 mil eleitores, e 153.229 não compareceram no primeiro turno, uma abstenção de 23,45%, acima da média do estado (23,32%). Somando ausentes, votos brancos e nulos, mais de 200 mil gonçalenses ficaram fora da escolha, número muito maior do que a votação de qualquer candidato a deputado na cidade. Cada ponto percentual de abstenção representa cerca de 6.500 pessoas.
A diferença entre bairros vizinhos também chama atenção. No levantamento por local de votação, Barro Vermelho teve 25,87% de abstenção, enquanto Santa Catarina ficou em 19,62%. Mais de seis pontos de diferença entre áreas próximas é exatamente o tipo de variação que as condições de acesso ao local de votação ajudam a explicar.
Moradores da Praia da Luz, Itaóca, Salgueiro, Manoel da Ilhota e Conjunto da PM precisaram se deslocar para um local sem ligação direta de ônibus a partir de seus bairros. E transporte no dia da eleição não é favor: é obrigação. Na ADPF 1013, o Supremo Tribunal Federal determinou, em 2022, que o transporte coletivo fosse mantido em níveis normais no dia da votação e, em 2023, reconheceu como omissão inconstitucional a falta de transporte gratuito com a frequência de dia útil. Para 2026, a Resolução TSE nº 23.751 manteve o dever do poder público de garantir essa oferta. Em São Gonçalo, decreto municipal de 18 de setembro determinou ônibus gratuitos das 7h às 18h, com 100% da frota de dia útil.
A régua, portanto, é objetiva. Segundo relatos de moradores, porém, havia poucos ônibus circulando, e as corridas por aplicativo chegaram a custar até três vezes mais por causa da tarifa dinâmica. O problema não é novo: no segundo turno de 2022, o TRE-RJ recebeu queixas sobre falta de ônibus em São Gonçalo e acionou a Procuradoria do Município e a Polícia Militar, enquanto o consórcio operador afirmava que o serviço estava normal. Se essas dificuldades se repetirem agora, a abstenção poderá se repetir também, e teremos o paradoxo completo: filas curtas e seções vazias, porque quem não consegue chegar nem entra na fila.
Do metrô ao MUVI: a promessa que encolheu
Por muitos anos, o gonçalense ouviu falar da Linha 3 do Metrô, um transporte de massa sobre trilhos capaz de ligar a cidade com rapidez e regularidade. Na prática, o que avançou foi o MUVI (Mobilidade Urbana Verde Integrada), baseado em corredores de ônibus. Pode até trazer melhorias pontuais, mas não tem a mesma capacidade de um sistema sobre trilhos e mantém a lógica de operação rodoviária. Para os bairros mais distantes, a troca pouco muda o isolamento de sempre.
Estado mínimo e periferia à deriva
A atual gestão municipal se alinha, em tese, à extrema-direita e segue a cartilha da livre iniciativa e do Estado mínimo. Nesse modelo, serviços essenciais ficam entregues à lógica do lucro das concessionárias. O último governo identificado com um projeto de esquerda na cidade foi o do Engenheiro Edson Ezequiel de Passos, que deu prioridade a investimentos públicos em saneamento, infraestrutura e desenvolvimento social. Quando o planejamento público se retrai, o resultado é previsível: áreas pobres, sem atrativo comercial, deixam de ser vistas como "convidativas" para o capital e ficam à deriva.
Basta ouvir os moradores de Itaitindiba, Praia da Luz, Bairro das Palmeiras, Mundel, Santa Isabel e Meia Noite. As queixas se repetem: ruas esburacadas, falta de asfalto, poucas linhas e intervalos longos. Para a empresa, rua ruim significa veículo desgastado e pouco retorno. Para o morador, significa ficar sem caminho até o trabalho, o posto de saúde, a escola e, no dia da eleição, até a urna.
Lucro social: o exemplo está do lado de casa
Existe outra forma de enxergar o transporte: como investimento que gera lucro social. O retorno não aparece na bilheteria, mas no trabalhador que chega ao emprego, no comércio que vende mais, no paciente que não perde a consulta e no cidadão que exerce seu direito de votar. Não é utopia. Aqui ao lado, Maricá mantém há mais de dez anos ônibus gratuitos operados por empresa pública municipal. Caucaia, no Ceará, e diversas outras cidades brasileiras seguiram caminho parecido. Quando o transporte é tratado como direito, os bairros que não dão lucro deixam de ser esquecidos.
Fiscalizar de verdade: mapas de viagem e fiscais nas ruas
Para que o direito de ir e vir saia do papel, o poder público precisa voltar a regular e fiscalizar com firmeza. A proposta tem duas frentes que se completam. A primeira é tecnológica: os ônibus já possuem GPS e sistemas de bilhetagem. Esses dados permitem auditar, em tempo real, os mapas de viagem, comparando o que foi contratado com o que realmente circulou. Linha suprimida, intervalo esticado e bairro sem cobertura aparecem na tela na mesma hora.
A segunda frente é presencial: fiscais distribuídos pela cidade, especialmente nos pontos das periferias, conferindo frequência e lotação, com poder de autuar. Empresas que descumprirem a frota combinada devem sofrer multas efetivas e, em caso de reincidência, perder a concessão.
Outras medidas simples fariam diferença já no próximo domingo de votação: publicar com antecedência as linhas e horários reforçados; criar linhas alimentadoras temporárias ligando os bairros aos locais que receberam seções transferidas; garantir o transporte de volta, e não só o de ida; abrir um canal de denúncia em tempo real, por telefone e aplicativo, para falta de ônibus; divulgar depois da eleição o relatório de quantos veículos circularam em cada linha; e exigir que qualquer transferência de seção venha acompanhada de um estudo de acesso por transporte público.
O verdadeiro termômetro da eleição
A Teoria das Filas e a Teoria da Decisão indicam que o segundo turno deve ter votação mais rápida. A Teoria do Discurso nos lembra que rapidez não basta: a democracia se mede pela possibilidade real de cada pessoa participar. Uma fila curta pode ser sinal de eficiência ou de exclusão silenciosa.
O sucesso de uma eleição, e de uma cidade, não está na velocidade da urna. Está na certeza de que a Dona Maria, e tantos moradores dos bairros mais distantes, encontrem um ônibus no ponto para ir, votar e voltar para casa com dignidade.
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Oswaldo Mendes é engenheiro e professor.









































































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