A calmaria que engana e o 2º turno das eleições
Estratégia, desinformação e mundo da vida no segundo turno das eleições presidenciais de 2026
Por Oswaldo Mendes

Quem olha essa calmaria de longe do segundo turno da eleição presidencial tem a impressão de um mar parado.
No dia 4 de outubro, Flávio Bolsonaro terminou na frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula; a primeira pesquisa Datafolha do segundo turno (divulgada no dia 8) 94% dos eleitores disseram estar totalmente decididos.
Jogo jogado?
Não. A diferença entre os dois cabe quase inteira nos 6% que ainda admitem mudar o voto, e é nesse pedaço de mar que as correntes se movem, longe da superfície. Augusto Cury, Ronaldo Caiado e Romeu Zema já declararam apoio a Flávio; Renan Santos, quarto colocado, com mais de 2,6 milhões de votos, recusou apoiar qualquer um dos dois e deixou seu eleitor sem dono, disputado por ambos os lados..
Conversei sobre isso, nesta semana, com os professores doutores Saulo, Antônio e Leonardo, muito preocupados com o futuro do país, e a conversa nos levou, como quase sempre, aos clássicos da estratégia.
ESTRATÉGIA E ENGANO: MAQUIAVEL E SUN TZU
Atribui-se a Nicolau Maquiavel a máxima de que “os fins justificam os meios”. A frase, assim escrita, não está em O Príncipe de Machiavel: o que o Florentino registra, no capítulo XVIII, é que nas ações dos príncipes, onde não há tribunal a que recorrer, olha-se para o resultado. No capítulo XV, ele avisa que prefere tratar da “verdade efetiva” das coisas, e não de como gostaríamos que elas fossem.
Daí ao uso que a política fez dele foi um passo curto: se o que conta é chegar, mentir, enganar e torcer os fatos passam a ser apenas ferramentas; e a verdade, que já é proporcional ao conhecimento de cada um, vira matéria-prima de quem sabe manipulá-la.
Sun Tzu, em A arte da guerra, é ainda mais direto: toda guerra se baseia no engano. Ensina a escolher o terreno, a levar o adversário para onde ele não conhece o caminho, a cortar-lhe os suprimentos e, sobretudo, a vencer sem precisar combater. Somadas, as duas lições produzem uma estratégia velha conhecida de quem acompanha eleições: escolher o terreno onde o adversário é fraco, seja a moral, a religião ou o medo, e ocupá-lo com uma chuva de mentiras.
Quem tem propostas passa a campanha desmentindo; e quem desmente não propõe. O terreno desconhecido, na política de hoje, é o grupo da família no telefone celular.
Os mesmos estrategistas ensinam a lidar com o inimigo vencido. Sun Tzu aconselha não destrui-lo, e sim tomá-lo inteiro; e a política aprendeu que o adversário conhecido, controlado, é menos perigoso que o desconhecido.
Maquiavel, mais duro, diz no capítulo III que os homens devem ser conquistados ou eliminados, pois se vingam das pequenas ofensas, mas não das grandes. Os dois, porém, sabiam o que tira o sono de qualquer estrategista: o fato novo, aquele que não nasce no comitê de campanha, mas na praça, na esquina, no gueto.
A NOTÍCIA FALSA NA HISTÓRIA ELEITORAL
Os exemplos não faltam, e a mentira não tem partido. Em 1989, a poucos dias do segundo turno, o horário eleitoral de Fernando Collor levou ao ar Miriam Cordeiro, ex-namorada de Lula e mãe de sua filha, acusando-o de ter querido que ela abortasse; acusação pessoal, de última hora, sem tempo para resposta, que muitos analistas apontam como decisiva para a vitória de Collor.
Tomara que as pessoas lembrem das promessas de Fernando Collor e da atitude de sua ministra Zélia Cardoso de Mello, que, logo no início do governo, em março de 1990, bloqueou a poupança dos brasileiros. Em 2018, doze dias antes do primeiro turno, viralizou o vídeo da chamada “mamadeira de piroca”, segundo o qual creches distribuiriam mamadeiras com bico em formato fálico; o objeto era, na verdade, um brinquedo erótico vendido em lojas especializadas.
No mesmo ano, o próprio candidato Jair Bolsonaro exibiu, em entrevista ao Jornal Nacional, o livro do suposto “kit gay”, outra história desmentida. Sempre se busca um fato novo, e quando ele não existe, fabrica-se.
Aqui em São Gonçalo, há mais de vinte anos, vi de perto o efeito dessas armas. Graça Matos perdeu uma eleição depois que circulou pela cidade um jornal apócrifo, sem expediente e sem responsável, com uma fotomontagem que a mostrava vestida de mãe de santo. Eu mesmo recebi um exemplar: estava com o compositor Paulo Cesar Portugal no extinto Grêmio Recreativo Escola de Samba Camisolão, no Barro Vermelho, quando parou uma kombi e entregou os jornais; e assim foi em toda a cidade.
Não sei se a história escrita ainda registra o episódio; quem viveu, lembra. O alvo não era apenas a candidata: era o preconceito religioso do eleitor, despertado de propósito, na hora certa, amparado na velha frase de que os fins justificam os meios.
O resultado se viu nas urnas, com a vitória de outra candidata. A notícia falsa, portanto, não é invenção das redes sociais nem novidade em São Gonçalo: antes do grupo de WhatsApp, já havia o panfleto sem assinatura, distribuído de mão em mão.
Os pesquisadores Camurça e Rodrigues mostram que os ataques às religiões de matriz africana costumam ser lidos de duas formas: como intolerância religiosa, ofensa à liberdade de crença, ou como racismo religioso, em que o alvo não é apenas uma fé, mas um modo de vida negro; e concluem que as duas leituras se completam.
A fotomontagem cabia nas duas. E foi usada justamente em São Gonçalo, onde Zélio de Moraes fundou a Umbanda, no bairro de Neves, e onde se ergueu o Marco Zero da religião, estudado por Bahia, Aguiar e Nogueira, isto no ano de 2022. A arma escolhida contra a candidata foi transformar em insulto uma fé nascida na própria cidade.
Pior: em 2011, a casa onde nasceu a Umbanda, em Neves, foi posta abaixo sem que houvesse sequer um pedido de tombamento, conforme publicado em estudo de COSTA e COLI, no ano 2020; e a derrubada foi noticiada à época como obra da própria prefeitura, no governo da prefeita Aparecida Panisset, eleita naquela mesma disputa do jornal apócrifo, acusada pelos umbandistas de perseguição religiosa.
O preconceito que venceu nas urnas acabou derrubando também a memória. Só em 2019 a Praça de Neves recebeu o Marco Zero da Umbanda e, depois, o nome de Zélio Fernandino de Moraes, o qual também foi vereador da cidade, para “gritar o silêncio” imposto pela demolição.
A fé, aliás, continua sendo terreno preferido. Causa estranheza ver o púlpito convertido em palanque, e homilias que defendem justamente quem ataca a própria Igreja, quando a maior autoridade daquela religião já apontou outros caminhos. Quem fala em nome de Deus, numa eleição, fala em nome de quem?
MUNDO DA VIDA, SISTEMA E O FATO NOVO
Os pesquisadores alemães Adorno e Horkheimer, na Dialética do esclarecimento, mostraram como a razão, que prometia libertar, pode virar mero cálculo de meios para fins.
Habermas, na Teoria do agir comunicativo, separa o agir estratégico, que busca o sucesso, do agir comunicativo, que busca o entendimento; e distingue o mundo da vida, assim a conversa da família, da igreja, do bairro – do mundo dos sistemas, movido pelo dinheiro e pelo poder. Quando o sistema coloniza o mundo da vida, a mesa de jantar vira comitê e o grupo da família vira trincheira. Padronizar o Mundo da Vida é a grande busca daqueles que se consideram acima do bem e do mal.
Na engenharia e na gestão, aprendemos a procurar o nó crítico, expressão de Matus, criador do Planejamento Estratégico Situacional, e a mapear suas causas num Diagrama de Ishikawa. As campanhas fazem o mesmo: identificam o problema-chave do adversário, muitas vezes por inferência, e atacam ali. Mas Matus lembrava que, no jogo social, o outro também joga; e há jogadores que nenhuma matriz prevê.
Foi assim em 1968, quando Geraldo Vandré apresentou “Pra não dizer que não falei das flores” e a canção passou a ser cantada em cada esquina, até ser proibida. Foi assim em 1984, com as Diretas Já: o comício da Candelária, em 10 de abril, reuniu cerca de um milhão de pessoas, e o do Anhangabaú, seis dias depois, ainda mais.
A emenda Dante de Oliveira foi derrotada na Câmara, em 25 de abril, por falta de 22 votos; mas a rua já tinha mudado o país, e no ano seguinte o regime militar chegava ao fim. Foi assim em junho de 2013, quando as ruas surpreenderam todos os gabinetes, e em 2019, quando os estudantes universitários, os da dita “balbúrdia”, ocuparam as cidades em defesa da educação. O fato imprevisível nasce pequeno, contamina as redes e se espalha pelo país antes que qualquer estrategista consiga desenhar a espinha de peixe.
E está sendo assim agora, bem perto de nós. Na segunda-feira, 5 de outubro, um dia depois do primeiro turno, estudantes da UFF saíram do campus do Gragoatá e percorreram as ruas do Ingá e de Icaraí, em Niterói, em apoio a Lula e contra Flávio Bolsonaro. Dois dias depois, milhares de pessoas estavam na Candelária, no Rio, na UERJ/FFP, em São Gonçalo e havia atos em vários estados, já sob convocação da UNE. A faísca nasceu nos corredores da universidade, e não num comitê de campanha: é o mundo da vida irrompendo, para desespero de quem tinha tudo calculado. O preço também veio, em ameaças pelas redes, inclusive a de incendiar o campus, que a UFF levou à Polícia Federal.
O que leva esses jovens às ruas? Basta apresentar a um estudante universitário de hoje a proposta da equipe econômica de Flávio, um ajuste de 1,5% do PIB em 2027, cerca de R$ 200 bilhões, e pedir a ele uma matriz SWOT.
Os estudantes conseguiram interpretar que, historicamente, quando pessoas que defendem o modelo neoliberal e a extrema direita chegam ao poder, um ataque às conquistas sociais acontece, assim estranha-se ver pessoas que vivem com o Bolsa Família votar a favor de um plano definido como “tesouraço”, que mora numa região sem saneamento básico, sem lazer, escola sem ar-condicionado, aumento da idade mínima para se aposentar e para fazer um exame qualquer precisa suplicar a um vereador.
De outro lado, quem não aceitou a assinatura da Lei Áurea não consegue vislumbrar um negro ou negra como médico, advogado, psicólogo ou engenheiro. Para essas pessoas o voto é a hora de depositar todo seu ódio naqueles que não pode mais chicotear.
O triste disso tudo é que você fica muitas vezes em frente a uma pessoa que beira a miséria, mas que defende o fim das ações compensadoras sociais do Estado e não consegue entender que o voto não tem preço, mas consequências. Para esse modelo de extrema direita o pobre é sempre o alvo.
Alguém considera que eu tenho a ilusão de que a população leia e consiga entender esse artigo? Claro que não, pois quem já foi Professor sabe da dificuldade absurda em interpretar textos com mais de onze sílabas. Querem dopamina das luzes das telas de celular para realimentar seu cérebro.
O ministro da Educação, Leonardo Barchini, afirma que um corte desse tamanho é inviável sem atingir universidades, bolsas e o Pé-de-Meia; a coordenadora econômica da campanha, Daniella Marques, responde que a tesoura vai mirar regalias e privilégios, e não a educação.
Enquanto ninguém mostra, linha por linha, onde será o corte, o estudante preenche sozinho o quadrante das ameaças. E é aí que a sobrevivência faz nascer novas lideranças, que nenhum estrategista escalou.
SÃO GONÇALO, O SAMBA E AS TELAS
E São Gonçalo? Costuma-se dizer que somos cidade dormitório: de madrugada, milhares de gonçalenses se espremem nos ônibus rumo a Niterói e ao Rio, e só voltam à noite.
Dormitório, sim; adormecida, nunca. Esta cidade sempre foi base de luta de trabalhadores que buscam dias melhores, e é daqui que saiu agora nomes como Claudino José da Silva, Jayme Campos, Joel Lima, Edson Ezequiel, Josias Ávila, Hairson Monteiro, Osmar Leitão, por exemplo, deputados que levaram e honraram o nome da cidade para Brasília e para a Alerj.
O mapa político, porém, mudou muito. O último prefeito de esquerda que São Gonçalo teve foi o Eng. Edson Ezequiel de Matos, marido da ex-deputada Graça Matos, a mesma do jornal apócrifo. Quantos gonçalenses ainda se lembram de que esta cidade já votou diferente?
A
resposta pode vir de onde menos se espera. Nesta segunda-feira, 12 de outubro, o mundo do samba fez um ato na Lapa em apoio a Lula, convocado por Mestre Ciça, da Viradouro, e por outros bambas; o mesmo Ciça que, aos setenta anos, foi homenageado em vida e levou a escola de Niterói ao título do Carnaval deste ano.
“O samba tem lado”, é o resumo nas redes. Tem, e sempre teve: nasceu nos quintais e nas rodas, é mundo da vida em estado puro e, como a rua, não pede licença ao estrategista. Atualmente caminhar com um pandeiro ou berimbau é normal, mas foi freio de camburão, por décadas, onde calos nas mãos eram o documento de pobre suburbano.
Talvez o leitor não tenha visto nenhuma imagem desse ato no seu celular, nem das marchas estudantis. Não é à toa que pergunto. Numa eleição em que há interesses internacionais em jogo, da regulação das bets à relação do Brasil com a China e com os BRICS, o que circula e o que desaparece das telas é decidido por algoritmos de grandes empresas de tecnologia, que não prestam contas ao eleitor brasileiro.
Quem escolhe o que eu vejo? Quem ganha com o que eu não vejo? Movimento popular, sem patrocínio e sem impulsionamento, raramente vence o algoritmo; vence a rua.
Esse mesmo algoritmo já mapeou os seus hábitos, sentimentos e gostos. Sabe o que compra, com quem anda e por onde anda. Sabe também o que você assiste no celular e assim só repassa aquilo que gosta. Busca interferir nos seus sentimentos. As pessoas gerenciadoras por programas de computador. O algoritmo dita o ritmo das cidades e das pessoas, as quais agem roboticamente. A perfeita coisificação.
Faltam alguns dias para 25 de outubro. Haverá debates, novas pesquisas e, no caso do Banco Master, investigações cujo sigilo o Supremo mandou levantar. Quem vai escolher o terreno? Quem vai passar a semana desmentindo? E de onde virá o fato novo: do comitê ou da rua?
A conclusão, depois de tudo, é simples: no final de uma eleição, sempre se buscou um fato novo. Desta vez, ele pode ser os estudantes na rua, nascidos no mundo da vida, sem comitê e sem patrocínio. E esse fato novo, ao contrário do fabricado, é sempre bem-vindo.
Para o eleitor, fica uma pergunta mais simples, antes de repassar a próxima mensagem chamativa, que mexe com seus sentimentos, no grupo da família: quem escreveu isso e onde está a fonte?
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Oswaldo Mendes é engenheiro e professor.









































































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