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Douglas Ruas promete acabar com OSS no estado, mas modelo segue milionário na cidade do pai

Candidato ao governo defende fim das organizações sociais na saúde estadual; na cidade administrada pelo pai, contratos com OSS somam pelo menos R$ 124 milhões por ano


Por Cláudio Figueiras


Douglas no espelho/Foto: Jornal Daki com IA
Douglas no espelho/Foto: Jornal Daki com IA



Em entrevista à Super Rádio Tupi, em 25 de agosto de 2026, o candidato do PL ao Governo do Rio, Douglas Ruas, afirmou que pretende acabar com a gestão das unidades de saúde por Organizações Sociais (OSS).


“O governo vai fazer a gestão e buscar o que precisa da iniciativa privada, e não por intermediários como as OSS. Os contratos que estão ativos vão ter que ser analisados caso a caso, mas não vão prosperar.”

A mudança, segundo Douglas, seria gradual, sem entrar em detalhes.


Em São Gonçalo, porém, o modelo que o candidato promete enterrar no Estado segue firme — e consumindo cifras milionárias. A cidade é administrada desde 2021 por seu pai, o prefeito Nelson Ruas, o capitão Nelson.


A contradição ganha um ingrediente adicional: Douglas não apenas é filho do prefeito. Ele próprio foi secretário de Gestão Integrada e Projetos Especiais do município entre 2021 e 2022. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, Douglas também atua nos bastidores como uma espécie de “prefeito de fato”. Mesma percepção que o mundo político e as ruas da cidade confirmam.


Ou seja: o candidato que agora promete acabar com as OSS no Estado teve cargo de comando dentro de uma administração que mantém o modelo na saúde municipal.


R$ 124 milhões por ano

Enquanto Douglas defende a retirada das organizações sociais da saúde estadual, a Fundação Municipal de Saúde mantém contratos milionários com essas entidades.


O Pronto Socorro Central Dr. Armando Gomes de Sá Couto, sob gestão do Instituto Rosa Branca, teve o contrato prorrogado por 12 meses por R$ 83,3 milhões. O valor corresponde a aproximadamente R$ 6,94 milhões por mês.


O contrato original com a organização social, de R$ 116,4 milhões, também previa a gestão do Hospital Infantil Darcy Vargas. Em setembro de 2025, o Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) determinou a suspensão da contratação após representação do vereador Isaac Ricalde (PCdoB).


Parecer técnico da corte classificou o modelo como de “potencial altamente lesivo ao erário e de alto risco para a continuidade dos serviços essenciais de saúde”.


As UMPAs Pacheco e Nova Cidade, administradas pela Prima Qualitá, consomem cerca de R$ 41 milhões por ano.


Somados ao contrato do Pronto Socorro Central, os valores chegam a aproximadamente R$ 124,3 milhões por ano.


E essa não é a conta completa.


O município ainda mantém contratos com organizações sociais para a UMPA Santa Luzia, administrada pelo InSaúde, e para o Serviço de Atenção Domiciliar (SAD).


O gasto anual de São Gonçalo com OSS, portanto, supera os R$ 124 milhões já identificados.


Mais dinheiro para o mesmo modelo

Em 2020, quando o Pronto Socorro Central estava sob gestão do InSaúde, auditoria da Controladoria-Geral da União (CGU) registrou repasses de R$ 53,3 milhões à organização naquele ano — uma média de R$ 4,44 milhões por mês.


Hoje, o contrato do Instituto Rosa Branca representa um custo mensal de aproximadamente R$ 6,94 milhões.


São 56,3% a mais do que a média mensal registrada em 2020.


O aumento dos valores ocorre justamente em um período em que o modelo das organizações sociais passou a ser alvo de sucessivos questionamentos sobre custos, fiscalização e continuidade dos serviços.


Demissões e problemas trabalhistas

Em novembro de 2025, cerca de 400 funcionários do InSaúde foram demitidos após a mudança na gestão das unidades. Trabalhadores denunciaram que deixaram os postos sem receber corretamente as verbas rescisórias e outros direitos trabalhistas.


O episódio expôs um dos problemas recorrentes do modelo: quando uma organização social perde um contrato, centenas de trabalhadores podem ficar no meio do caminho, entre a antiga e a nova gestora.


Prima Qualitá na mira da Polícia Federal

A outra grande organização social presente na rede municipal também está no radar das autoridades.


A Operação Antracito, deflagrada pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União em 2025, investigou contratos da Prima Qualitá com diferentes prefeituras fluminenses que, juntos, somam aproximadamente R$ 1,6 bilhão. São Gonçalo está entre os municípios envolvidos.


A investigação apontou suspeitas relacionadas à contratação e execução dos serviços, incluindo questionamentos sobre a comprovação de despesas e os critérios utilizados para a contratação das organizações sociais.


A Prima Qualitá administra as UMPAs Pacheco e Nova Cidade, que registraram mais de 250 mil atendimentos em 2025, segundo dados divulgados pela própria organização.


A dimensão dos números permite outra pergunta: quanto custa ao município cada atendimento realizado pelas unidades?


Com contratos de cerca de R$ 41 milhões por ano, a conta merece ser confrontada com o volume de atendimentos, metas estabelecidas e resultados alcançados.


Menos servidores, mais terceirização

Enquanto as OSS ganham espaço, o número de servidores efetivos da saúde municipal diminui.


Segundo o Sindicato dos Servidores Públicos de São Gonçalo (SINDSPEF-SG), o quadro de concursados caiu de aproximadamente 1.400 para 850 servidores em três anos.

Uma redução de cerca de 550 servidores, ou quase 40% do quadro.


O último concurso para reforçar o quadro efetivo da saúde municipal foi realizado em 2016.


O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), por meio da 1ª e da 2ª Promotorias de Justiça de Tutela Coletiva da Saúde da Região Metropolitana II, também instaurou procedimentos para apurar questões relacionadas à saúde pública no município.


O resultado é uma equação que chama atenção: menos servidores efetivos, mais organizações sociais e contratos que já ultrapassam R$ 124 milhões por ano apenas com as UPAs e o Pronto Socorro.


A contradição também passa por Cláudio Castro

O histórico de Douglas com as OSS não termina em São Gonçalo.


Durante o governo de seu aliado Cláudio Castro (PL) a quem serviu também como secretário das Cidades (2023-2026), o estado do Rio também manteve contratos milionários com organizações sociais.


Um dos exemplos é o Complexo Estadual de Saúde de Itaboraí/São Gonçalo, administrado pelo IDEAS, com contrato de aproximadamente R$ 135,7 milhões. O acordo abrangia o Hospital Estadual Alberto Torres (HEAT), o Hospital João Batista Cáffaro e a UPA São Gonçalo I. Somando outros contratos com outras unidades, os valores superam R$ 1 bilhão anuais.


Agora, na condição de candidato ao governo, Douglas promete fazer justamente o movimento contrário: retirar as OSS da administração da saúde estadual.


A pergunta é inevitável: se o modelo é ruim para o estado, por que continua sendo utilizado na cidade governada por seu pai?


E há uma pergunta ainda mais incômoda: por que Douglas não propôs a mesma mudança quando esteve dentro da Prefeitura de São Gonçalo?


A promessa e a prática

A campanha de Douglas Ruas precisa explicar se a promessa de acabar com as OSS representa uma mudança efetiva de posição ou apenas uma proposta para a disputa estadual.


Porque, até aqui, os fatos apresentam um contraste difícil de ignorar.


No palanque, Douglas diz que as OSS são intermediárias que não devem prosperar na saúde pública.


Em São Gonçalo, entretanto, o governo do pai mantém o modelo, com contratos que já somam pelo menos R$ 124 milhões por ano.


E Douglas não é apenas filho do prefeito.


Foi secretário do governo municipal.


A campanha precisa responder:


Se Douglas Ruas quer acabar com as OSS no Rio, por que não começa pelo governo do próprio pai?


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