Vorcaro investiu R$ 4,3 milhões em rede de prostituição que recrutava refugiadas, revelam mensagens
Documentos obtidos pela Polícia Federal apontam participação do ex-dono do Banco Master na compra de agência de modelos e na seleção de mulheres para festas privadas com autoridades; investigação apura exploração sexual e possível tráfico de pessoas

O ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, financiou uma estrutura internacional de recrutamento de mulheres para festas privadas, incluindo encontros com autoridades e empresários. Mensagens obtidas pela Polícia Federal e reveladas nesta terça-feira (13) pelo UOL apontam investimentos de pelo menos 4,3 milhões de reais, negociações para adquirir uma agência de modelos e participação direta do banqueiro na seleção das mulheres.
A reportagem, assinada por Natália Portinari, Cézar Feitoza e Fábio Serapião, mostra que a estrutura funcionou entre 2023 e 2025, com agenciadores responsáveis por recrutar brasileiras e estrangeiras, organizar viagens, hospedagens e encontros no Brasil e no exterior.
Entre as mulheres recrutadas estavam refugiadas ucranianas que haviam deixado seu país em razão da guerra. Uma delas, de 19 anos, foi mencionada em conversas nas quais os organizadores discutiam sua permanência no Brasil e a possibilidade de incorporá-la à agência. Segundo os diálogos, a jovem não tinha condições de retornar à Ucrânia, onde sua família enfrentava bombardeios.
A investigação identificou negociações para que Vorcaro adquirisse 50 por cento da Allure Eventos, agência de modelos pertencente ao empresário Felipe Nisti Cataldo. O contrato, enviado ao banqueiro em dezembro de 2023, previa pagamento de 1,5 milhão de reais. Mensagens posteriores indicam que o acordo foi assinado e que uma primeira parcela de 500 mil reais foi paga.
Dois personagens aparecem como operadores da estrutura: Diogo Batista, promotor de eventos que recebia 120 mil reais mensais de Vorcaro, e Leonardo Serrano, empresário responsável pela organização de eventos e pagamentos. Ambos são apontados como investigados pela Polícia Federal.
Os diálogos também revelam o tratamento dispensado às mulheres. Vorcaro e seus intermediários utilizavam expressões degradantes para se referir a elas, discutiam sua disponibilidade e decidiam quem permaneceria nos encontros. Em abril de 2024, o banqueiro chegou a determinar uma seleção das estrangeiras que continuariam vinculadas ao grupo.
A movimentação financeira envolvia empresas utilizadas para organizar eventos e viagens. Segundo o UOL, despesas com passagens aéreas e hospedagens das mulheres eram encaminhadas à Prime You, enquanto outros custos eram cobrados por empresas de consultoria e eventos.
A Polícia Federal abriu um inquérito em maio de 2026 para investigar possíveis crimes relacionados à exploração sexual e ao tráfico de pessoas. No Brasil, a prostituição voluntária de adultos não é crime, mas a exploração econômica da prostituição alheia pode configurar delito. A eventual caracterização de tráfico depende da apuração das circunstâncias de recrutamento, deslocamento e exploração das mulheres.
Procurada pelo UOL, a defesa de Vorcaro afirmou que não comentaria o assunto. Em manifestação anterior, sustentou que informações extraídas de material sigiloso são objeto de investigação sobre vazamentos e que os fatos já estão sob apuração criminal.
A descoberta amplia o alcance das investigações sobre o ex-banqueiro. Além das operações financeiras do Banco Master, a Polícia Federal examina agora uma estrutura de recrutamento internacional de mulheres que, segundo as mensagens, também servia para promover encontros privados com pessoas influentes.
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