MUVI chega à reta final das obras sem entregar integração prometida
Reorganização das linhas de ônibus estava prevista desde a concepção do corredor. Prefeitura contratou estudo de R$ 891 mil, mas passageiros continuam sem integração do transporte coletivo
Por Helcio Albano

O Mobilidade Urbana Verde Integrada (MUVI) avança para a etapa final das obras em São Gonçalo sem entregar uma das propostas previstas desde sua concepção: a integração do transporte coletivo. O corredor de aproximadamente 18 quilômetros, entre Neves e Guaxindiba, acumula investimentos anunciados de R$ 287 milhões, mas a reorganização das linhas municipais de ônibus ainda não chegou aos passageiros.
A integração não surgiu como uma reivindicação posterior. O memorial descritivo original do MUVI, disponibilizado pelo Ministério das Cidades, prevê expressamente a reorganização do sistema de transporte coletivo e a articulação entre diferentes modos de deslocamento.
Em novembro de 2024, a Prefeitura contratou a Fundação de Apoio à Biodiversidade São Francisco de Assis por R$ 891 mil para elaborar um projeto técnico-operacional de modelagem da demanda de passageiros e dimensionamento das linhas alimentadoras do MUVI.
O contrato nº 03/SEMTRAN/24, firmado pela Secretaria Municipal de Transportes, tinha vigência original até maio de 2025. Entretanto, o levantamento documental realizado pelo Jornal Daki não localizou o produto final da consultoria nem conseguiu confirmar sua aprovação e utilização pela Prefeitura.
Onde seriam integradas as linhas?
A ausência de informações sobre o funcionamento do futuro sistema levanta uma questão concreta: onde os passageiros fariam a transferência entre os ônibus dos bairros e os serviços do corredor?
Alcântara e o Centro, principais polos de concentração das linhas municipais, são referências inevitáveis nessa discussão. A implantação de terminais ou estações de integração nessas regiões poderia facilitar as conexões entre diferentes itinerários, desde que houvesse compatibilidade com o traçado do MUVI e com a demanda de passageiros.
O memorial original do empreendimento, porém, não identifica terminais de integração nessas localidades. Tampouco foi possível verificar se o estudo operacional contratado em 2024 examinou essa possibilidade, definiu outros pontos de transferência ou propôs uma rede de linhas alimentadoras.
A questão não se resume à construção de terminais. É necessário estabelecer quais ônibus atenderiam cada estação, como seriam organizadas as transferências e se os passageiros precisariam pagar uma nova passagem para continuar a viagem.
Sem essas definições, a conclusão do corredor poderá melhorar a circulação em seu eixo principal sem resolver a dificuldade de deslocamento entre os distritos.
Uma cidade que continua partida
Em reportagem anterior, a primeira da série sobre os desafios da mobilidade em São Gonçalo, o Jornal Daki mostrou como a concentração das linhas em Alcântara e no Centro contribui para a fragmentação da mobilidade em São Gonçalo. Moradores de regiões como Ipiíba e Monjolos enfrentam trajetos indiretos para chegar a bairros de Neves e Sete Pontes, muitas vezes dependendo de dois ônibus e pagando duas passagens.
A implantação do MUVI poderia representar uma oportunidade para reorganizar essa rede. Mas isso exigiria linhas alimentadoras, conexões entre bairros e integração tarifária, medidas que vão além da pavimentação e das pistas preferenciais.
Municípios vizinhos já adotaram diferentes soluções para reduzir o custo dos deslocamentos. Em Niterói, o Bilhete Único Municipal, instituído em 2011, permite utilizar dois ônibus municipais em até uma hora pagando uma única tarifa, mediante as condições de habilitação do benefício. A Prefeitura subsidia parte do custo do serviço.
Maricá mantém os ônibus gratuitos conhecidos como Vermelhinhos, enquanto Itaboraí implantou a tarifa zero nas linhas municipais. As três experiências têm modelos distintos de financiamento e operação, mas mostram que São Gonçalo dispõe de alternativas a examinar.
No caso do MUVI, a adoção de um bilhete único municipal poderia evitar que a transferência entre linhas alimentadoras e o corredor representasse o pagamento de uma segunda passagem. A medida, entretanto, dependeria de regulamentação, financiamento e compatibilização com a concessão do transporte coletivo.
A discussão ganha importância no momento em que São Gonçalo debate a revisão de seu Plano Diretor. O município volta a discutir seu planejamento urbano enquanto uma das maiores intervenções viárias de sua história se aproxima da conclusão sem concretizar a reorganização do transporte coletivo prevista no projeto.
O MUVI representa um investimento expressivo em infraestrutura. Mas a Prefeitura ainda precisa apresentar à população o desenho operacional da integração, identificar as linhas alimentadoras, esclarecer a localização dos pontos de transferência e informar se haverá integração tarifária.
Sem essas respostas e, principalmente, sem a implantação das medidas previstas, São Gonçalo corre o risco de concluir um novo corredor de ônibus mantendo a mesma rede fragmentada que dificulta a circulação dos moradores entre os cinco distritos.
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Helcio Albano é jornalista e editor-chefe do Jornal Daki.









































































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