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No Rio, as urnas desmentem as pesquisas pela terceira eleição seguida

há 13 minutos
4 min de leitura

Witzel saltou de 17% para 41% em 2018; Castro apareceu com 44% e terminou com quase 59% em 2022; agora, pesquisas davam Paes até nove pontos à frente, mas Douglas Ruas terminou em primeiro


Witzel em 2018/Foto: reprodução
Witzel em 2018/Foto: reprodução

Virou rotina nas eleições para governador do Rio de Janeiro. O eleitor vai dormir no sábado com um cenário desenhado pelas pesquisas e termina o domingo diante de outro. Aconteceu em 2018. Repetiu-se em 2022. E voltou a acontecer neste domingo, com Douglas Ruas (PL) terminando à frente de Eduardo Paes (PSD) numa eleição em que os principais levantamentos da véspera apontavam o contrário.


São três eleições consecutivas com diferenças que ultrapassam, em muito, as margens de erro divulgadas pelos institutos. O caso mais espetacular continua sendo 2018.


Na pesquisa Datafolha divulgada na véspera do primeiro turno, Paes aparecia na liderança com 27% dos votos válidos. Wilson Witzel tinha 17%, empatado com Romário e disputando uma vaga no segundo turno. A margem de erro era de dois pontos.


No domingo, Witzel recebeu 41,28% dos votos válidos. Paes, 19,56%. O candidato que aparecia 10 pontos atrás terminou 21,72 pontos à frente. Witzel recebeu 24,28 pontos a mais que os 17% medidos pelo Datafolha. Quatro anos depois, novo descompasso.


Segundo turno que não aconteceu


Em 2022, o problema não foi identificar o primeiro colocado. As pesquisas apontavam corretamente Cláudio Castro (PL) na liderança. Erraram, porém, o tamanho dela.


Na última pesquisa Datafolha, Castro tinha 44% dos votos válidos e Marcelo Freixo (PSB), 35%. A diferença era de nove pontos. O levantamento indicava que a eleição seguiria para o segundo turno. A pesquisa ouviu 2.550 eleitores em 40 municípios e tinha margem de erro de dois pontos. As urnas deram outro resultado.


Castro terminou com 58,67% e Freixo, 27,38%. A vantagem de nove pontos medida pelo Datafolha virou 31,29 pontos. Castro apareceu 14,67 pontos acima da pesquisa; Freixo, 7,62 abaixo. O segundo turno previsto não existiu.


2026: Paes liderava. Douglas ganhou


Neste ano, a história ganhou seu terceiro capítulo. Na pesquisa Datafolha realizada nos dias 2 e 3 de outubro, com Garotinho incluído, Eduardo Paes aparecia com 46% dos votos válidos e Douglas Ruas com 38%. Oito pontos de vantagem para Paes.


Havia sinais de movimento: Douglas crescera três pontos desde a rodada anterior e 19% dos entrevistados admitiam que ainda poderiam mudar de voto. Ainda assim, Paes permanecia na liderança. Foram ouvidos 2.002 eleitores em 35 municípios, com margem de erro de dois pontos


A Quaest também colocou Paes à frente na reta final: 49% a 40% nos votos válidos. As urnas inverteram a ordem.


Douglas recebeu 4.271.199 votos, 49,27% dos válidos, enquanto Paes terminou com 3.706.984, ou 42,76%. Uma vantagem de 6,51 pontos para o candidato do PL


Entre o Datafolha e as urnas, Douglas saiu de 38% para 49,27%: diferença de 11,27 pontos. Paes foi de 46% para 42,76%.


Mais significativa que a distância individual foi a inversão. A pesquisa mostrava Paes oito pontos à frente. A urna colocou Douglas 6,51 pontos na dianteira. Uma virada de 14,51 pontos na diferença entre os dois candidatos.


E o quadro pode se tornar ainda mais discrepante. Com a desistência do recurso de Anthony Garotinho no TSE e eventual exclusão definitiva de seus 274.411 votos, Douglas passa para aproximadamente 50,89% dos válidos, percentual suficiente para vencer no primeiro turno.


Três eleições, três surpresas


A sequência chama atenção:

2018: Datafolha — Paes 27%, Witzel 17%.Urnas: Witzel 41,28%, Paes 19,56%.

2022: Datafolha — Castro 44%, Freixo 35%.Urnas: Castro 58,67%, Freixo 27,38%.

2026: Datafolha — Paes 46%, Douglas 38%.Urnas: Douglas 49,27%, Paes 42,76%.


Há diferenças importantes entre os três casos. Em 2018, ocorreu uma onda tardia em favor de Witzel. Em 2022, o Datafolha acertou o líder, mas não captou a dimensão da vantagem de Castro. Agora, em 2026, a reta final já mostrava Douglas crescendo, mas o movimento foi muito maior que o registrado e suficiente para inverter a ordem dos candidatos.


Pesquisa eleitoral também não é previsão. Mede a intenção de voto da população pesquisada durante determinado período, dentro de uma amostra e de uma margem de erro. Eleitores podem mudar de candidato depois de entrevistados — e, no último Datafolha deste ano, quase um em cada cinco admitia essa possibilidade.


Isso explica parte do problema. Não encerra a discussão. Depois de três eleições consecutivas com discrepâncias dessa magnitude, o Rio apresenta uma questão que merece investigação: o eleitor fluminense está mudando de voto em massa nas últimas horas ou os modelos de pesquisa têm dificuldade recorrente para enxergar determinados segmentos e regiões do estado?


Em 2018, a surpresa se chamou Wilson Witzel. Em 2022, Cláudio Castro. Em 2026, Douglas Ruas.


Três eleições são suficientes para que a diferença entre pesquisa e urna no Rio deixe de ser tratada apenas como surpresa de domingo.


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