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De moeda de negociação ao segundo turno: Flávio chega à frente de Lula

há 3 horas
3 min de leitura

Candidatura que começou admitindo a possibilidade de retirada atravessou crises e denúncias sem perder competitividade e terminou o primeiro turno 2,2 milhões de votos à frente do presidente


Por Helcio Albano


Flávio declarando que sua candidatura tinha um preço/Foto: reprodução
Flávio declarando que sua candidatura tinha um preço/Foto: reprodução


Dois dias depois de anunciar sua pré-candidatura à Presidência, Flávio Bolsonaro admitiu que talvez não chegasse sequer à urna.


“Eu tenho preço para não ir até o fim. Eu vou negociar”, afirmou em 7 de dezembro de 2025. Depois explicou o preço: Jair Bolsonaro “livre, nas urnas”.


A candidatura servia também como instrumento de pressão para negociar com a direita e o Centrão uma saída para a situação do pai. No dia seguinte, diante da repercussão, Flávio mudou o discurso. Disse que sua candidatura era irreversível e que só deixaria a disputa se Jair pudesse concorrer.


Dez meses depois, Flávio chegou. E chegou na frente.


Não exatamente como um raio em céu azul. Desde março aparecia competitivo nas pesquisas. No Datafolha, tinha 33% naquele mês, foi a 35% em abril e maio, caiu para 31% no fim de maio e em junho, marcou 32% em julho, 33% em agosto e voltou à faixa dos 35%-36% em setembro.


Se houve relutância no início, ela parecia estar mais no candidato e em setores da própria direita do que em seu eleitorado fiel.


E essa fidelidade foi posta à prova.


Em maio explodiu o caso Dark Horse, que ligou diretamente Flávio a Daniel Vorcaro. Documentos da Polícia Federal apontaram o então senador como interlocutor do banqueiro na negociação de recursos para um filme sobre Jair Bolsonaro. Flávio confirmou ter procurado Vorcaro em busca de financiamento, mas negou qualquer contrapartida ou irregularidade.


O caso chegou ao STF. Flávio passou à condição de investigado no inquérito que apura suspeitas relacionadas ao financiamento da produção.


Foi seu momento mais delicado na campanha. Houve mudanças na equipe, disputas internas e novas especulações sobre a possibilidade de substituição de seu nome.

Nas pesquisas, caiu. Depois voltou.


Em setembro, o próprio Datafolha registrava a recuperação do eleitorado perdido após o Dark Horse.


Na reta final, os problemas chegaram ao entorno.


Willer Tomaz, amigo de Flávio e seu companheiro em viagens internacionais, tornou-se alvo de investigações da Polícia Federal. Uma delas apura possível lavagem de recursos no caso dos descontos irregulares do INSS; outra investiga movimentações por meio de apostas on-line. Tomaz nega envolvimento em crimes.


Também veio a público que Flávio e sua família haviam viajado dos Estados Unidos a Brasília em um jatinho do qual Tomaz era cotista e que esteve ligado a uma empresa de Daniel Vorcaro. Flávio não negou a viagem e rejeitou qualquer irregularidade.


O noticiário produziu desgaste. Não desmontou sua candidatura.


Flávio atravessou o Dark Horse, investigações e escândalos envolvendo pessoas próximas sem perder seu piso eleitoral. A base que rapidamente abraçou o nome indicado por Jair Bolsonaro permaneceu com ele.


Ele não disparava. Mas também não caía. No jargão político, virou o candidato “teflon”: nada pegava nele.


Até chegar a urna.


No domingo (4), Flávio recebeu 56.104.268 votos, 47,03% dos válidos. Lula teve 53.876.617, ou 45,16%. Uma diferença de aproximadamente 2,2 milhões.


A essa altura, porém, os 56 milhões já não cabiam apenas dentro do eleitorado fiel dos Bolsonaro. A base lhe garantiu o piso e resistiu às crises. Para chegar a 47% dos votos válidos, Flávio precisou ir além dela.


E agora encontrará do outro lado alguém que dispensa apresentação.


Aos 80 anos, Lula venceu três eleições presidenciais — 2002, 2006 e 2022 —, exerce seu terceiro mandato e ocupa o centro da política brasileira desde a redemocratização. É o único brasileiro a ter sido eleito presidente três vezes pelo voto direto.


Flávio disputa a Presidência pela primeira vez.


Em dezembro, admitia negociar sua saída antes mesmo de a campanha começar. Dez meses, um banqueiro, um filme, investigações e escândalos no entorno depois, terminou o primeiro turno na frente do maior adversário político de sua família.


O que começou com um preço terminou valendo a Presidência da República.


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