Rio chega ao fim da eleição depois de um ano em que quase tudo saiu do roteiro
Prisões, cassações, renúncia de governador, desembargador no Palácio Guanabara e disputas no STF antecederam uma eleição cujo desfecho acabou dependendo da situação jurídica de Anthony Garotinho

A eleição para o governo do Rio chegou às urnas depois de pouco mais de um ano em que a política estadual acumulou situações pouco usuais até para os padrões fluminenses. O primeiro turno não encerrou imediatamente a história. Faltava saber se os votos de Anthony Garotinho seriam ou não considerados válidos.
A crise começou a ganhar outra dimensão em setembro de 2025, com a prisão do então deputado TH Joias. Investigações apontaram suspeitas de atuação em favor do Comando Vermelho, inclusive na intermediação de armas. Em dezembro, foi preso Rodrigo Bacellar, então presidente da Alerj, acusado de vazar informações sobre a operação que atingiria o parlamentar. Bacellar nega ter obstruído as investigações.
A própria Assembleia decidiu, por 42 votos a 21, revogar a prisão de seu presidente. O STF manteve Bacellar afastado. Em março deste ano, a PGR denunciou Bacellar, TH Joias e outras três pessoas por obstrução das investigações sobre a suposta infiltração do Comando Vermelho no poder público fluminense.
Foi apenas o começo daquele março.
No dia 23, Cláudio Castro renunciou ao governo para preparar sua candidatura ao Senado. O Rio já estava sem vice-governador desde a saída de Thiago Pampolha para o Tribunal de Contas do Estado. Sem governador, vice e presidente efetivo da Alerj em condições de assumir, o Palácio Guanabara foi parar nas mãos do presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Ricardo Couto.
No dia seguinte à renúncia, o TSE tornou Castro inelegível por abuso de poder político e econômico e captação ilícita de recursos na eleição de 2022. Bacellar teve o mandato cassado.
Douglas tentou chegar ao Guanabara antes da eleição
A Alerj elegeu Douglas Ruas (PL) presidente no dia 26 de março. A sessão acabou anulada pelo Tribunal de Justiça em meio à necessidade de recomposição da Assembleia após a cassação de Bacellar.
Douglas foi novamente eleito presidente em abril. Surgiu então outra batalha: o PL sustentava que, como novo chefe do Legislativo, caberia a ele assumir o governo.
O STF não concordou. Ricardo Couto permaneceu no Palácio Guanabara enquanto o Supremo discutia como deveria ser escolhido o governador-tampão. Em determinado momento, o julgamento chegou a ficar 4 a 1 pela realização de eleição indireta na Alerj antes de ser suspenso por pedido de vista.
O resultado foi uma situação inédita. Durante meses, o estado foi administrado pelo presidente do Tribunal de Justiça enquanto Douglas comandava a Assembleia e construía sua candidatura ao governo.
O homem que tentou chegar ao Guanabara pela linha sucessória acabou tendo que disputar o cargo nas urnas.
Quase 50%
No domingo (4), Douglas recebeu 4.271.199 votos, ou 49,27% dos válidos. Eduardo Paes (PSD) terminou com 3.706.984, 42,76%. A Justiça Eleitoral anunciou segundo turno.
Mas havia uma variável.
Anthony Garotinho recebeu 274.411 votos, ou 3,17%. Seu registro havia sido indeferido pelo TRE-RJ, mas a decisão ainda estava sob recurso. Por determinação do presidente do TSE, Nunes Marques, os votos foram provisoriamente incluídos entre os válidos.
Eles fizeram diferença.
Com Garotinho na conta, Douglas ficou nos 49,27%. Sem seus 274 mil votos, o candidato do PL ultrapassa os 50% necessários para vencer no primeiro turno.
E foi assim que uma eleição marcada pela prisão de um deputado, prisão e cassação de um presidente da Alerj, renúncia de governador, condenação no TSE, desembargador governando o estado e uma disputa no Supremo terminou produzindo sua última cena.
Nesta segunda-feira (5), Garotinho desistiu do recurso no TSE. Sua defesa pediu a homologação da desistência, tornando definitivo o indeferimento caso não haja outro obstáculo processual. Com a exclusão dos votos, Douglas deve passar a aproximadamente 50,9% dos válidos. A Justiça Eleitoral ainda precisa formalizar a retotalização e a proclamação do resultado.
Douglas tentou assumir o governo em março, foi barrado e acabou chegando às urnas seis meses depois.
No final de toda essa história, porém, o destino da eleição fluminense ficou por algumas horas nas mãos de um personagem que frequenta suas disputas pelo poder há mais de três décadas.
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