Operação policial com 122 mortos impulsionou eleição de três integrantes da segurança pública no Rio
Um ano após a Operação Contenção, ex-chefes das polícias Civil e Militar e delegado ferido na ação conquistam mandatos. Campanhas exploraram a repercussão da operação, enquanto o Ministério Público investiga ilegalidades cometidas por agentes

A Operação Contenção, realizada em 28 de outubro de 2025 nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio, deixou 122 mortos e tornou-se a ação policial mais letal da história do Brasil. Um ano depois, três de seus principais protagonistas conquistaram mandatos nas eleições de 2026, transformando a repercussão da operação em um elemento de suas campanhas eleitorais.
O ex-secretário estadual de Polícia Civil Felipe Curi (PP) foi eleito deputado federal com 133.626 votos. O ex-secretário da Polícia Militar, coronel Marcelo de Menezes (PL), conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) com 46.700 votos. Já o delegado Bernardo Leal (PP), que perdeu a perna direita após ser atingido por um tiro durante a operação, foi eleito deputado estadual com 57.254 votos.
Os três tiveram participação direta na operação realizada durante o governo Cláudio Castro (PL). Curi e Menezes integravam a cúpula da segurança pública e participaram do planejamento e comando da ação. Leal atuou em campo e sofreu ferimentos graves.
Número de mortos virou referência eleitoral
A associação entre a operação e as candidaturas foi explícita em parte da propaganda eleitoral.
Felipe Curi utilizou o número 1122, enquanto Bernardo Leal concorreu com o número 12122. Ambos fazem referência ao total de 122 mortos na operação, segundo reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em setembro.
A estratégia recuperou um precedente da política brasileira: a eleição de policiais ligados ao massacre do Carandiru, ocorrido em São Paulo em 1992, quando 111 presos foram mortos.
Reportagem publicada nesta segunda-feira (26) pela Folha aponta que a exposição pública dos envolvidos foi acompanhada de uma estratégia de comunicação baseada em vídeos, entrevistas, podcasts e manifestações nas redes sociais.
A operação foi apresentada pelo governo estadual como uma ação bem-sucedida contra o Comando Vermelho. Já o presidente Lula classificou o episódio como uma matança. A divergência refletiu a disputa política em torno dos resultados e dos métodos empregados pelas forças de segurança.
Ministério Público investiga ilegalidades
Enquanto os responsáveis pela operação conquistaram mandatos, a atuação policial continua sob investigação.
Segundo balanço divulgado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) em 9 de outubro, foram apresentadas seis denúncias contra 17 policiais militares por supostas ilegalidades cometidas durante a ação.
As acusações incluem invasão de domicílio, furtos, apropriação de armamentos e tentativas de obstruir ou desligar câmeras corporais. O recebimento das denúncias pela Justiça não representa condenação dos envolvidos.
Em 20 de outubro, o MPRJ divulgou outra informação: dos mais de 650 policiais civis que participaram da operação, menos de 65 utilizaram efetivamente câmeras corporais. A investigação também identificou equipamentos descarregados e problemas na distribuição das câmeras entre policiais militares.
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), por sua vez, concluiu em relatório divulgado em março que a operação não enfraqueceu estruturalmente o crime organizado e apontou falhas na preservação de provas e na investigação das mortes.
Agência Brasil
Segurança pública e capital eleitoral
A eleição dos três policiais ocorre em um estado onde o enfrentamento ao crime organizado ocupa posição central no debate político.
Aliados do governador eleito Douglas Ruas (PL), Curi e Menezes defendem o endurecimento da legislação penal e criticam restrições impostas às operações policiais. Organizações de direitos humanos, por outro lado, questionam a eficácia das ações de alta letalidade e cobram investigações independentes.
Para o historiador Fransérgio Goulart, da Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial, ouvido pelo Brasil de Fato, a eleição dos responsáveis pela operação evidencia a crescente presença de agentes das forças de segurança na política fluminense.

A associação da Operação Contenção às campanhas está documentada, inclusive pela escolha de números eleitorais ligados ao total de mortos. Isso, porém, não permite determinar quantos votos cada candidato recebeu em consequência direta da operação.
Às vésperas do primeiro aniversário da ação, em 28 de outubro, o Rio de Janeiro reúne dois resultados distintos do mesmo episódio: três participantes eleitos para o Legislativo e investigações ainda em andamento sobre a conduta dos policiais.
O desfecho judicial dessas apurações permanece aberto.
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