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Amor, para sempre amor

há 54 minutos
3 min de leitura

SÃO GONÇALO DE AFETOS


Por Paulinho Freitas


Foto: reprodução
Foto: reprodução


O passado nunca passa. Ele está sempre ali, a espreitar seus pensamentos. Quando você menos espera ele aparece te trazendo uma lembrança boa ou má. Ele é um danado, sempre aprontando com nossas emoções. Não adianta esconder aquele erro, porque ele vai te trazer o momento de volta, vai fazer você se penitenciar a vida inteira, por menor que seja o erro. Também vai fazer você sorrir de emoção, gargalhar  e ficar com cara de trouxa quando pensar nos amores que por sua vida passaram. Ê passado danado!


Falo do passado, baseado em mim. Domingo passado fui à casa do meu irmão, no Paraíso e quando voltei passei pelo Gradim. Morei lá um tempo de minha vida, foi muito legal minha estada por lá. Conheci muita gente e tenho amigos e histórias de muitas lembranças. Estava havendo uma festa em comemoração ao dia das crianças e a rua estava fechada para o trânsito de veículos, tive que dar uma volta e tanto.


Lá perto do campo, onde fica a quadra do GRES Mocidade Unida do Marimbondo, num botequim de esquina, quando manobrei, vi um casal sentado nos bancos do bar, com uma cerveja de litro barata, já quente sobre o balcão. Os dois com aquela aparência de alcoótra, os rostos já deformados pela bebida e com uma idade, parecendo já avançada.


O que me chamou atenção foi que eles estavam num amasso daqueles, um beijo de fazer inveja a qualquer adolescente. Parei o carro e fiquei olhando. Caramba! Olha o passado aí gente!  Eram ninguém mais, ninguém menos que Acácio e Joelma. Vi os dois adolescentes por aquelas ruas. Acho que foram os primeiros namorados um do outro. Iam à missa juntos e não faziam nada separados.


Não me lembro de ter visto um sem ter o outro do lado. Jamais imaginei que estariam juntos ainda e cúmplices a este ponto. Pensei em atravessar a rua, cumprimenta-los, falar da alegria em revê-los juntos ainda e tão felizes. Melhor não. Fiquei observando.


Eles terminaram o longo beijo, cada um virou seu copo de cerveja num gole só, deram-se as mãos, entrelaçadas como a quarenta ou cinquenta anos atrás e saíram pela rua Paulerux, depois entraram na Henrique Dias em direção à Praça do Gradim. Conversavam e gargalhavam, de vez em quando davam um estalinho e ela abaixava a cabeça, envergonhada como uma adolescente fazendo charme. Que lembrança boa!


Fiquei um pouco por ali, vendo as crianças no pula-pula, escorrega, comendo pipoca e algodão doce com a voracidade ´peculiar de criança. Lembrei dos meus amigos de lá, que vi criança. Eu já adulto e eles pré-adolescentes e adolescentes.


Fazíamos muitas festas na rua, balões, que na época ainda eram permitidos, pipas e todo o tipo de diversão, que antes da informática eram inventadas pelas mentes e não pelas máquinas.  Um deles estava na festa, com o neto que brincava, comia, sorria e corria se enrolando nas pernas do avô e voltando para as brincadeiras e doces servidos com fartura. Me disse ele emocionado que aquele tempo foi a época mais feliz da vida dele. 


Para mim também foi um tempo muito importante e feliz. Ê passado, seu danado!


Saí dali com os olhos marejados, fiz a manobra no carro e segui em direção à Praça do Gradim para pegar a principal e ir para casa. Antes de chegar à praça, vejo Acácio e Joelma parados, encostados num poste, namorando. Com certeza vão beber mais umas ali pelos bares ao redor e depois caminharão tendo o encontro do dia com o manto da noite como testemunhas, para em casa, se amar e dormir agarrados um ao corpo do outro para recomeçar tudo de novo na manhã seguinte.


O amor é como o passado, é para sempre.


O passado será sempre presente e espero ter a visita dele mais vezes, vendo o sorriso dos que passaram por minha vida de volta. Foram momentos em que de nada precisei para me sentir bem. É como sempre digo: “É na simplicidade que a felicidade se faz.”


***


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Paulinho Freitas é compositor, sambista e escritor.

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