Um Mundo que Ainda Pode Ser Amor
Por Mira Pimentel

Tenho caminhado por dentro de mim como quem atravessa um tempo que não é só seu.
Há algo acontecendo não lá fora apenas, mas aqui dentro,
como uma espécie de lembrança de que a vida poderia ser diferente.
Tenho visto… e o que vejo, às vezes, dói.
Vejo o acúmulo onde poderia haver partilha.
Vejo moedas atravessando afetos, valores sendo medidos por números e não por gestos.
Vejo pressa onde caberia cuidado.
E um certo esquecimento… do que é, de fato, essencial.
E isso me atravessa.
Porque há em mim uma recusa silenciosa de aceitar que viver seja isso: juntar, competir, ignorar.
Há em mim algo que insiste mesmo em meio ao ruído em acreditar.
Acreditar que o mundo não foi feito para ser um campo de desigualdade,
mas um espaço de encontro.
Que riqueza, de verdade, não é o que se guarda, mas o que se compartilha.
Que ninguém deveria crescer à custa do cansaço de outro.
E, ainda assim… eu vejo.
Vejo as estruturas. Vejo a desorganização que um dia já foi ideal.
Vejo o quanto nos afastamos de algo simples e profundamente humano.
Mas também compreendo com uma delicadeza ... que não vem de fora
que há um aprendizado acontecendo.
Para quem observa.
Para quem sente.
Talvez estejamos aqui não apenas para denunciar o desequilíbrio, mas para não o reproduzir.
Talvez o verdadeiro movimento não seja lutar contra o mundo inteiro,
mas escolher, dentro de si, um outro modo de existir.
Mais leve.
Mais justo.
Mais humano.
E, quando penso no Brasil e nas eleições que se aproximam, essa reflexão ganha outro sentido.
Porque escolher os caminhos de um país é, também, refletir sobre o mundo que queremos deixar para os nossos filhos, para os nossos netos e para aqueles que ainda nem chegaram.
Que Brasil queremos?
Um país em que os direitos sejam privilégios de alguns ou uma construção coletiva? Um país em que a dignidade dependa da origem, da cor da pele, da condição financeira ou da religião?
Ou uma nação capaz de reconhecer que a vida humana não tem categorias de superioridade?
Um governante não governa apenas para os seus apoiadores, para os evangélicos, para os católicos, para os empresários, para os trabalhadores ou para qualquer segmento isolado da sociedade.
Governa para todos. E governar para todos exige, sobretudo, enxergar aqueles que a história tantas vezes empurrou para a margem: os povos indígenas, os negros submetidos à escravidão, os pobres, os trabalhadores explorados, os que não tiveram acesso à educação, à saúde, à moradia e às oportunidades mais elementares.
Olhar para os que historicamente foram esquecidos não é conceder privilégios. É reconhecer desigualdades que atravessaram gerações e compreender que não existe justiça verdadeira enquanto tantos ainda lutam pelo mínimo necessário para viver.
É preciso pensar nas leis que fazemos, nas políticas que defendemos e nas prioridades que escolhemos. Quem se beneficia delas?
Quem continua esperando?
Quem permanece invisível?
Porque a política, quando se afasta da vida real, transforma-se em discurso vazio. Mas, quando se aproxima das necessidades humanas, pode ser instrumento de dignidade, inclusão e transformação social.
E atenção: nenhuma fé deveria servir de licença para desprezar o próximo. Nenhuma igreja deveria ensinar a indiferença.
Nenhuma convicção religiosa deveria nos fazer acreditar que somos melhores do que alguém.
A fé que não produz compaixão precisa, ao menos, rever suas próprias palavras.
Cuidado com os falsos profetas não apenas os que usam o nome de Deus, mas também aqueles que prometem salvação enquanto alimentam o ódio, a intolerância e a divisão.
O discernimento exige que olhemos para além das palavras e observemos as atitudes, os compromissos e as consequências das escolhas que fazemos.
Hoje, temos acesso a informações como nunca tivemos.
É nossa responsabilidade procurar fontes confiáveis, confrontar versões, conhecer propostas e examinar os fatos.
Não podemos entregar nossa consciência a quem grita mais alto, nem permitir que o medo decida por nós.
O bem e o mal nem sempre chegam com placas anunciando seus nomes.
Por isso, precisamos de consciência, discernimento e humanidade.
Somos gente.
Somos corpo e espírito.
Somos os animais que dependem do nosso cuidado.
Somos as árvores que respiram conosco.
Somos os rios, o chão, o ar e o meio ambiente que sustenta a vida.
Somos a fome que pede alimento,
o prato que precisa estar à mesa,
o remédio que não pode faltar,
o salário que precisa garantir dignidade.
Somos tudo isso, porque viver não é uma abstração. Viver é ter o que comer, onde morar, como cuidar da saúde, acesso à educação e a possibilidade de sonhar sem que a sobrevivência consuma todas as nossas forças.
E nenhuma sociedade deveria considerar natural que alguém precise procurar comida no lixo enquanto outros desperdiçam o que têm em excesso.
Que as eleições não sejam apenas uma disputa de nomes, partidos ou interesses. Que sejam uma oportunidade de pensar, com responsabilidade, sobre o país que desejamos construir.
As diferenças políticas existem e fazem parte da democracia; o que não deveria existir é a perda da nossa capacidade de reconhecer a humanidade de quem pensa diferente.
E então eu solto…
Solto a revolta que endurece.
Solto o peso de querer salvar tudo.
Solto o grito que me afasta de mim.
E permaneço com aquilo que ainda pulsa:
o respeito.
o cuidado.
a justiça.
a solidariedade.
o amor.
Porque, no fim,
talvez o mundo não mude de uma vez
mas ele muda toda vez
que alguém escolhe não se perder.
E eu escolho.
Escolho acreditar que podemos discordar sem nos odiar, disputar ideias sem destruir pontes e defender nossos princípios sem abandonar a compaixão.
Que, passada a eleição, não permaneçamos reféns das trincheiras que nos separaram. Que saibamos recolher as bandeiras da disputa e estender as mãos para reconstruir aquilo que é de todos nós.
Que a alegria volte a ocupar nossas conversas, que a esperança encontre morada em nossas casas e que o Brasil descubra, nas suas diferenças, a possibilidade de um destino comum.
Afinal, não precisamos pensar todos da mesma maneira para reconhecer que a dignidade deve ser de todos.
Que sejamos, depois das urnas, um só povo na tarefa de construir um Brasil mais justo e um mundo mais humano.
Um mundo em que a esperança não seja privilégio,
a dignidade não seja mercadoria
e o amor não conheça fronteiras.
Porque ainda há tempo.
Ainda há vida.
Ainda há caminhos.
E há, dentro de cada um de nós, um mundo que ainda pode florescer.
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Por Mira Pimentel é Cronista.









































































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