A velha da areia do Mangue de Itaoca, por Erick Bernardes


Foto: Pixabay
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Tinguá chegou na ilha aos nove anos de idade, tornou-se um dos caranguejeiros mais destacados de Itaoca e cresceu feliz. No auge dos seus 49 anos, jamais imaginou o que viria lhe acontecer. Sim, indiscutivelmente, algo de apavorar. Seria acontecimento sobrenatural a perturbar o juízo do nosso personagem morador de SG? Não sei, só posso afirmar o que ouvi da própria voz do cidadão. E vamos ao ocorrido, um tanto quanto sombrio, sinistro.


— Rapaz, nem sei por onde começar. Só lembro que caminhávamos no mangue. Isso mesmo. Ainda era dia, mas estava escuro, tempo fosco, cinzento, sensação de abafamento. Enquanto andávamos pela lama, senti uma chuva diferente me salpicar as costas, os ombros e a cabeça também. Estranho, na hora constatei ser areia fina, fininha como chão de praia, muita areia caindo das árvores ou do céu, sei lá. Mas ali só havia solo molhado em situação normal — e até hoje é assim. Lama, muita lama, naturalmente. De onde vinha tudo aquilo então? Meu irmão acusou o fenômeno antes de mim. Falou que entrou pedrinha moída até nos ouvidos dele. Que coisa! Éramos um grupo com medo. Os caícos apareceram afastados, já no meio d'água, situação incomum.


Bem, necessário esclarecer um ou outro ponto: os caícos são pequenas canoas bastante fáceis de transportar. E aquele tipo de areia fina e branquíssima parece pouco abundante no referido manguezal. Além disso, os caícos (as pequenas canoas) deveriam estar atracados na margem. Mas não, não se encontravam amarrados no pau do mangue. Mais ou menos se achavam à deriva, quatro ou cinco metros de distância sobre o espelho d'água e quase se iam embora. Quem teria soltado as tais amarras daquele tipo de canoa?


— Mas, Tinguá, me diga uma coisa, o caso esquisito ficou por isso mesmo? Vocês não descobriram a causa da chuva de areia?


— Descobrimos sim. No entanto, ou a gente se apavorava e depois se calava ou nós contávamos aos familiares e nos chamariam de malucos. Claro, imagine, quem iria acreditar? Assim que entramos nos caícos e remamos, em posição que desse pra ver a franja da ilha, conseguimos sossegar. E nesse momento avistamos uma velha com cabelos alvoroçados, gargalhando largamente. Sim, juro, parecia se divertir com o nosso pavor. Mas confesso que logo me acalmei um pouco, porque estava evidente a traquinagem da coroa. Ela empurrou os barcos para a água, o semblante denunciava a molecagem da estranha senhora.


Bom, acaso o leitor pense que a história acabou, enganou-se. A explicação aumentou o pavor dos já assustados catadores de caranguejos, pois a tal velha brincalhona sorria ao longe, enquanto as minicanoas se afastavam da margem. Incrível. Implicância mesmo, parecia perturbada do juízo. Daí Tinguá continuou:


— Tchau, senhora, a sua traquinagem de soltar os caícos não deu certo. Bye, bye!


— Não tem problema meu filho, pelo menos a chuva de areia que provoquei causou confusão em você e já valeu. Fui eu que lá de cima jogava areia em vocês. Lá de cima, bem lá do alto.


Viu aí, caro leitor, eu mesmo apavorei com a história, imagine o pobre Tinguá e os seus amigos caranguejeiros. De fato, narrativa de arrepiar. Só não se soube o que essa frase "lá de cima" significava verdadeiramente. Estaria ela nas árvores ou nas nuvens feito alma penada? Melhor a gente deixar pra lá. Até!

Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.




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