Espumas flutuantes da Praia da Beira, por Erick Bernardes


Foto: A Voz do Xingu
Foto: A Voz do Xingu

"Era por uma dessas tardes em que o azul do céu oriental — é pálido e saudoso, em que o rumor do vento nas vergas — e monótono e cadente, e o quebro da vaga na amurada do navio — e queixoso e tétrico" (Espumas flutuantes). Poderíamos muito bem começar com este lindo trecho da poesia do incomparável poeta Castro Alves. Mas não, o caso é outro, embora a poesia se encaixe bacana. É que o nosso protagonista tem também uma embarcação; um lindo caíco para fins de trabalho. E o queixoso e tétrico som do bater na borda ou amurada do barco referido acima no poema não é oceano, trata-se da baía, ou melhor, a história se passa na Praia da Beira, pertinho de São Gabriel, na região da Guanabara.


Para os habitantes do centro da cidade, o catador de caranguejo é um indivíduo sem muita elegância, mal vestido, sujo, esfarrapado. Mas se engana quem pensa assim. O homem caranguejeiro revela movimentos nobres sobre a lama, onde qualquer pessoa se atolaria; possui a pisada certa; escolhe bem sobre onde anda. Similar à vida, esse expert trabalhador só se achega quando existe firmeza.


Os conhecimentos da natureza revelados, e a poesia que brota do íntimo desses queridos catadores jamais serão por mim esquecidos.


Recordo bem, a sabedoria do Tinguá a narrar o fenômeno da muda dos crustáceos na ilha de Itaoca, se estendendo até o rio Guaxindiba. Espumas flutuantes que minam das carapaças, espumeiros se soltam e se misturam à lama. "É um hormônio expelido pelo caranguejo", explica o amigo Tinguá.


Viu aí, caro leitor, ele aprendeu na prática e carrega na fala a elegância da poesia proporcionada pela vivência com o manguezal. Vamos então à história acerca das espumas de hormônio dos uçás.


O caso é o seguinte, o nome científico dessa espécie bastante apreciada no Brasil é Ucides cordatus, vulgarmente referido por caranguejo-uçá. A troca da casca ocorre durante o período em que os caranguejos perdem a rigidez da carapaça e seus órgãos internos adquirem coloração branco-leitosa devido à formação de um líquido denominado exuvial (Pinheiro e Fiscarelli, 2001; Fiscarelli e Pinheiro, 2002). Esta característica é referida pelos catadores locais como “caranguejo de leite”. A alta concentração de carbonatos na constituição corporal dos caranguejos-uçá, nessa época, torna esses animais impróprios para o consumo humano, “podendo afetar o sistema nervoso e ocasionar dores abdominais e náuseas” (Pinheiro e Fiscarelli, 2001; Fiscarelli e Pinheiro, 2002).


Bem, se você acha que o fenômeno das espumas terminou por aí, enganou-se. Há outro tipo de espuma, como se fossem bolhas minúsculas que surgem durante o fenômeno da "andada". Quero dizer caminhada do caranguejo e ocorre em época de reprodução, quando os animais saem das suas tocas e passeiam pelo mangue. São muitos os caranguejos a darem as caras de forma vulnerável. Como se estivessem em romaria, eles andam aos montes tranquilamente sobre o sedimento litorâneo de SG. Facílimo de capturar. Mas é proibido, esse período é conhecido como “defeso”, e o Ibama condena e pune a cata predatória. Com relação a tal espuma que parece um monte de bolhas a minar do animal, bem, a isso estão ligados os machos, são eles quem (nesse caso) expelem também a secreção na época do acasalamento.

Depois da explicação, me peguei contemplando a espuma do uçá. Secreção necessária, fluida e espumante se desprendendo durante a lavagem da carapaça, ao menor contato com a água salgada durante a subida da maré, na explicação oferecida pelo amigo Tinguá, que é passada de pai para filho entre as populações tradicionais. Uma aula de biologia e também sobre a natureza filosófica dos homens. Lembrei de quando um professor murmurou ao meu ouvido: "é, rapaz, aproveite a vida/ porque o viver é só um suspiro". Impactante a frase, não é? Claro que sim, impossível não ser. No entanto, repensei, refiz a lição em forma de versos oferecidos pelo querido professor. Talvez seja bom enxergar diferente, rever conceitos, reformular entendimentos.


A vida prática é como as espumas dos caranguejos. Elas brotam da troca, ou melhor, nascem das muitas mudanças da existência. Algumas são tóxicas; outras fecundas; deixam os seres vulneráveis por certo tempo. Momentos tensos, sobremaneira indefesos ficam os viventes. Atraentes aos predadores. Mas isso passa, ah, essas fases transitórias uma hora passam de verdade! Certamente fortalecem as partes externas, amadurecem por dentro também e, devido a isso, nos fazem quase indestrutíveis.


Pois é, assim figuramos nós gonçalenses, semelhantes aos caranguejos da Beira, colecionamos vulnerabilidades e as transformamos em experiências. As dores são como espumas; espumas flutuando sobre a água da Guanabara.


Referências


Castro Alves. Espumas flutuantes, Domínio público. Fonte: dominiopublico.gov.br


Pinheiro, M. A. A., Fiscarelli, A. G. (2001). Manual de apoio à fiscalização – Caranguejo Uçá (Ucides cordatus). Jaboticabal: UNESP/CEPSULlIBAMA. 43p.


LAURA HELENA DE OLIVEIRA CÔRTES. ETNOECOLOGIA, MANEJO SUSTENTÁVEL E CADEIA PRODUTIVA DO CARANGUEJO-UÇÁ Ucides cordatus (Linnaeus, 1763) NO NORTE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. Acesso: http://uenf.br/posgraduacao/ecologia-recursosnaturais/wp content/uploads/sites/7/2015/11/Laura-C%C3%B4rtes-DISSERTA%C3%87%C3%83O-2014.pdf

Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.





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