Rio Imboaçu
SÃO GONÇALO DE AFETOS
Por Paulinho Freitas

Certa madrugada, uma chuva fina caia sobre São Gonçalo, depois de ter bebido algumas, vinha eu para o merecido descanso. Nesta época eu ainda fumava e estava sem isqueiro ou fósforos. Na esquina da Avenida Imboaçú com Presidente Kennedy, um grupo de travestis conversavam animadamente sob sombrinhas coloridas. Uma delas estava fumando. Me aproximei, cumprimentei e pedi:
_Por favor princesa, acenda o cigarro do tio.
Ela, sem olhar pra mim, dignou-se a virar a mão com o cigarro acesso para que eu acendesse o meu no dela. O que o fiz e educadamente agradeci:
_Obrigado filha, bons negócios.
E sai caminhando pela margem do rio. Ainda a ouvi comentar com as colegas, que riram efusivamente:
_ Ninguém merece né! Deus é mais! Tá amarrado!
Também achei engraçado.
Parei minha caminhada e encostei numa árvore, olhando a água do rio que corria forte. Não sou historiador, portanto, não posso contar as inúmeras histórias que este rio, Imboaçu, testemunhou; como não sei se verídica, a visita do Imperador a São Gonçalo, navegando por ele, ou as diversas idas e vindas de embarcações lotadas de mercadorias a serem levadas para o Rio de Janeiro. Mas posso dizer que Imboaçu quer dizer cobra grande na língua Tupi e que já foi rico em camarões e pitus a até bem poucas décadas atrás, antes de a população erguer suas moradias em suas margens.
Isso me lembrou Manaus, onde a população também fez moradias nas margens do rio e canalizaram o esgoto para dentro daquelas águas, poluindo, acabando com a pesca local e sendo obrigados a andar quilômetros para conseguirem agua limpa para consumo. Sei nem o que dizer.
Aqui também deu-se parecidos fatos. Lembro de minha chegada por essas margens e logo na primeira tempestade ver meu vizinho mergulhar da ponte na avenida Kennedy, sendo levado pela forte correnteza, saindo da água quase lá no outro bairro. Voltava correndo e mergulhava de novo, fazendo o mesmo percurso.
Ele também andava por dentro do rio, levantando pedras a procura de pitus e pequenos peixes. Ele morava numa modesta casa, com vários irmãos e irmãs, à margem do rio, quase desabitada nesta época.
O tempo vai passando e a gente vai “evoluindo.” Vamos ficando mais “inteligentes” e como nossos irmãos de Manaus, fomos construindo prédios, escolas e hospitais.
A cidade cresce, o esgoto e toda a sorte de descarte de resíduos sólidos e líquidos vai parar dentro do rio, assoreando, matando a já pouca vida existente e causando prejuízo aos moradores das partes mais baixas. Quando chove, a água não tem como escoar e invade ruas e casas, danificando aparelhos eletrodomésticos, levando doenças e desespero àqueles lares.
Lembro de uma enorme placa colocada na esquina da avenida Imboaçu, com um alto valor em dólares anunciando obras de canalização do rio, colocação de tubulação para esgoto e uma estação de tratamento lá na Praia das Pedrinhas.
Bem, a parte do Rio que fica no centro da cidade foi canalizada, a placa caiu e sumiu, nunca mais se fez nada e o povo que mora nas partes mais baixas continua sofrendo com as enchentes e constantes falta de água nas torneiras, apesar de a cidade ter recebido uma vultuosa quantia com a venda da concessionária de águas e esgotos. E
xterno aqui minha indignação pelo descaso das autoridades, minha solidariedade a esse povo que sofre com as consequências de um ato que não cometeram e sigo tendo esperança de um despertar coletivo para que sejam colocados, coisas e pessoas em lugares de direito.
Vejo vizinhos de outras ruas, e até os mais próximos, descartarem resíduos de obras e lixo doméstico nas margens e até dentro do rio. Até animais mortos lá são descartados. Apesar das placas de apelo para que não o façam, não adianta, toda hora alguém vem e descarta alguma coisa. Não adianta reclamar.
Me resta descontrair e lembrar da travesti do inicio da crônica: “Ninguem merece!”
Oh meu São Gonçalo! Protegei os filhos de sua terra!
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Paulinho Freitas é compositor, sambista e escritor.









































































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