Sob pressão, Lula e PT encontram em Bowie e Queen uma mensagem de amor contra o bolsonarismo
Clássico “Under Pressure” embala vídeos de apoiadores e é incorporado à comunicação do PT após manifestação na Paulista, associando a disputa presidencial à esperança, à solidariedade e a uma possível última dança de Lula
Por Helcio Albano

Uma canção lançada há 45 anos por David Bowie e Queen ganhou novo significado na disputa presidencial brasileira. Under Pressure, clássico de 1981, tornou-se trilha de montagens que circulam nas redes sociais entre apoiadores de Lula (PT) e foi utilizada pelo perfil oficial do partido, @ptbrasil, em um vídeo sobre a manifestação de domingo (11), na Avenida Paulista.
A incorporação da música à comunicação partidária revela um movimento interessante: conteúdos que circulam entre apoiadores acabam encontrando espaço na campanha. Embora não esteja identificada a autoria das primeiras montagens, versões do vídeo já aparecem no TikTok, com diferentes edições e imagens do presidente.
A escolha de Under Pressure parece traduzir o clima político do segundo turno. A canção fala de um mundo submetido a pressões, marcado pelo sofrimento e pela dificuldade de convivência. Mas, em vez de terminar na desesperança, aponta para o amor e a solidariedade como possibilidades de transformação.
Na disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL), essa mensagem ganha contornos políticos quase dramáticos. O presidente enfrenta um adversário que representa a continuidade do bolsonarismo, movimento de extrema direita marcado por ataques às instituições democráticas, questionamentos ao sistema eleitoral e uma retórica de confronto permanente.
A música oferece outra linguagem para esse embate. Em lugar de responder à radicalização apenas com palavras de ordem, as montagens recorrem à emoção, à memória afetiva e ao apelo para dar mais uma chance ao amor.
Há também a força cultural de seus intérpretes. David Bowie e Freddie Mercury, vocalista do Queen, tornaram-se símbolos de liberdade artística, diversidade e transgressão de convenções. A presença dos dois numa peça de mobilização política estabelece uma conexão que ultrapassa gerações e alcança públicos pouco identificados com a propaganda eleitoral tradicional.
Mas talvez o elemento mais comovente esteja numa passagem da canção que fala de uma última dança.
Aos 80 anos, Lula pode estar disputando sua última eleição presidencial. Não se trata de uma despedida anunciada, mas de uma possibilidade que acrescenta à música um significado particular. Depois de décadas de confrontos, derrotas, vitórias e retornos, o presidente enfrenta novamente o bolsonarismo, agora representado pelo filho de seu principal adversário político.
Assim, Under Pressure reúne três sentimentos que atravessam a eleição: a pressão do confronto, a esperança de superar a divisão e a consciência de que alguns encontros talvez não se repitam.
E, se esta for a última dança de Lula, por que não dar ao amor mais uma chance?
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