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Douglas promete nova educação para o Rio; no espelho, São Gonçalo ainda cobra o básico

há 26 minutos
4 min de leitura

Candidato aposta em 200 escolas cívico-militares e ensino profissionalizante; na cidade governada pelo pai há quase seis anos, onde participou da gestão, faltam docentes e comissionados ocupam funções de concursados em escolas sem estrutura


Por Cláudio Figueiras


Douglas no espelho/Foto: Arte Jornal Daki com IA
Douglas no espelho/Foto: Arte Jornal Daki com IA

O candidato ao governo do estado do Rio, Douglas Ruas (PL), apresenta a educação como prioridade de sua campanha. Promete ampliar para 200 as escolas cívico-militares e oferecer qualificação profissional desde o primeiro ano do Ensino Médio. Há, porém, um espelho diante dessas promessas: São Gonçalo.


A cidade é governada por seu pai, Nelson Ruas (PL), desde 2021. Douglas integrou a administração, comandando a Secretaria de Gestão Integrada e Projetos Especiais (Semgipe) e participando da elaboração do Plano Estratégico Novos Rumos. Foi nesse período que São Gonçalo recebeu os recursos extraordinários da concessão da Cedae, classificados pelo próprio Douglas, em 2022, como “o maior aporte financeiro nos cofres públicos da história da Prefeitura”.


Mesmo com dinheiro e uma plataforma de investimentos, a educação estagnou. Ou andou de lado. Os números mais recentes do Ideb mostram recuperação, mas também distância das metas. Em 2025, segundo o painel do Inep, a rede municipal chegou a 4,9 nos anos iniciais, contra 4,5 em 2023, mas permaneceu abaixo dos 5,2 de 2021 e da meta de 6,0. Nos anos finais, passou de 3,9 para 4,2, recuperando exatamente o resultado de 2021, mas ainda abaixo da meta de 5,0.


Ou seja: quatro anos depois, os anos iniciais ainda não recuperaram o índice de 2021 e os finais apenas retornaram ao mesmo patamar.


A precariedade alcança também a estrutura física. Em 2025, levantamento do SEPE divulgado pela Rádio Nacional apontava que apenas 26 das 114 escolas municipais estavam climatizadas. Apuração contida em uma publicação da Universidade Federal Fluminense (UFF) registrou relatos de unidades sem ventiladores, bebedouros com água gelada, salas sem janelas e telhados de zinco.


Em algumas escolas, segundo documento encaminhado pelo sindicato à Secretaria Municipal de Educação, a rede elétrica não suportava a instalação ou o funcionamento dos aparelhos de ar-condicionado.


O problema chegou ao Ministério Público: em março de 2024, o MPRJ informou que a Promotoria de Educação do Núcleo São Gonçalo estava entre as que instauraram procedimentos para apurar denúncias relacionadas à falta de climatização.


Desde 2021, profissionais da educação acumulam conflitos com o governo municipal envolvendo carreira, remuneração, piso nacional e garantia de 1/3 da jornada para planejamento. Em 2024, o SEPE informou à Justiça que decisões sobre piso e planejamento, já transitadas em julgado, permaneciam sem cumprimento.


O SEPE-SG, com base em informações da própria prefeitura, estima carência de pelo menos 650 docentes. Enquanto faltam efetivos, denúncia incorporada pelo Ministério Público aponta 1.229 comissionados nomeados “chefes de departamento” atuando como merendeiros, inspetores, auxiliares de creche e cuidadores. Nessas funções, haveria apenas 472 servidores efetivos.


Prometeu e nada fez


Douglas está diretamente ligado ao planejamento que estabeleceu as prioridades da primeira fase do governo Nelson Ruas e que prosseguem no segundo mandato. Sua secretaria elaborou o Novos Rumos, que incluiu a educação entre as áreas estratégicas, com metas de reforma e melhoria da infraestrutura das escolas, ampliação do ensino integral, inclusão digital e promoção de uma educação inclusiva, equitativa e de qualidade. Outro eixo previa capacitação e valorização dos servidores públicos.


À época, o próprio Douglas afirmou que as 34 metas haviam sido definidas observando as “principais demandas e urgências da cidade”. O plano foi elaborado pela Semgipe sob sua responsabilidade justamente para estabelecer prioridades diante do ingresso de mais de R$ 1 bilhão decorrente da concessão da Cedae.


Portanto, educação não estava fora do planejamento que Douglas ajudou a formular. Estava expressamente dentro dele.


Ainda assim, o governo chegou ao sexto ano discutindo questões básicas: professor em sala, piso, planejamento, climatização e profissionais de apoio. Enquanto isso, pai e filho exaltam o ciclo de investimentos em asfalto e pavimentação. Parte desses investimentos passou também a ser objeto de revelações da imprensa diante de negócios imobiliários envolvendo pessoas ligadas ao grupo político, como no caso dos terrenos de Vista Alegre — tema de outra reportagem desta série.


E a resposta é colocar militares nas escolas?


É diante desse quadro que Douglas propõe ampliar para 200 o número de escolas cívico-militares. O candidato afirma que militares da reserva atuarão na organização do ambiente escolar, com disciplina e respeito aos professores, sem substituir os profissionais da educação.


O modelo divide pesquisadores. Há estudos que discutem seus resultados educacionais, critérios de seleção, autonomia pedagógica e efeitos da presença militar na gestão escolar. Uma corrente acadêmica interpreta sua expansão também no contexto mais amplo da militarização das relações sociais e da ascensão da nova direita brasileira.


O debate, portanto, não se resume à disciplina.


Farda não substitui professor de matemática. Hierarquia não forma programador. Disciplina pode fazer parte da escola, mas não substitui política educacional autônoma, diversa e plural.


Douglas Ruas não chega ao debate sobre educação sem experiência administrativa para ser examinada. Participou do governo municipal que recebeu um volume extraordinário de recursos e comandou a secretaria responsável pela elaboração do plano que colocou a própria educação entre as prioridades. O Novos Rumos prometia infraestrutura escolar, ensino integral, inclusão digital, qualidade da educação, capacitação e valorização dos servidores. Não entregou nada disso.


Passados quase seis anos de governo, São Gonçalo ainda convive com déficit de professores, conflitos envolvendo piso e jornada de planejamento, problemas de climatização e uma estrutura em que, segundo denúncia incorporada a inquérito do Ministério Público, comissionados exercem funções destinadas a servidores efetivos.


Agora Douglas apresenta propostas para a educação de todo o estado. São Gonçalo oferece ao eleitor uma experiência concreta para confrontar o que foi planejado com o que existe hoje.


A resposta não está apenas no palanque. Está também no espelho.


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