Douglas Ruas será o primeiro gonçalense a governar o Rio após a fusão
Quase seis décadas depois de Geremias de Mattos Fontes, São Gonçalo volta a chegar ao comando do estado. Vitória encaminhada no TSE encerra uma eleição marcada por crise política, investigações e disputa judicial
São Gonçalo está prestes a voltar ao Palácio Guanabara. Aos 37 anos, Douglas Ruas (PL) deverá se tornar o primeiro gonçalense a governar o estado do Rio de Janeiro desde a fusão com a Guanabara, em 1975. O feito tem um precedente histórico: Geremias de Mattos Fontes, também nascido na cidade, governou o antigo estado fluminense entre 1967 e 1971, quando Niterói ainda era a capital.
A vitória de Douglas foi encaminhada nesta quinta-feira (8), quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) formou maioria de quatro votos a dois pela anulação dos 274.411 votos recebidos por Anthony Garotinho (Republicanos). Com a exclusão desses votos, o candidato do PL, que havia terminado o primeiro turno com 49,27% dos votos válidos, passa a ter 50,88%, percentual suficiente para vencer sem a necessidade de enfrentar Eduardo Paes (PSD) no segundo turno.
A proclamação oficial, entretanto, ainda depende do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ), responsável pela retotalização dos votos e pelo anúncio do resultado. O TSE determinou a comunicação imediata da decisão ao tribunal regional, mas não fixou prazo para a conclusão do procedimento.
De Geremias a Douglas
A última vez que um gonçalense ocupou o governo fluminense foi durante a ditadura militar. Nascido em São Gonçalo em 1930, Geremias de Mattos Fontes construiu sua carreira política ao lado de Joaquim Lavoura, de quem foi secretário municipal. Governou São Gonçalo entre 1958 e 1962, elegeu-se deputado federal e chegou ao governo estadual pela Arena, partido de sustentação do regime militar.
Escolhido indiretamente pela Assembleia Legislativa, Geremias governou de 1967 a 1971. Sua administração ficou marcada pela expansão da rede escolar e por investimentos em infraestrutura. Em São Gonçalo, destacam-se obras como o viaduto de Alcântara e unidades de saúde. Depois de deixar o governo, afastou-se da vida eleitoral, dedicando-se à advocacia e à atividade religiosa. Morreu em 2010.
Douglas chega ao mesmo posto por um caminho diferente. É o primeiro político nascido em São Gonçalo a conquistar o governo do estado unificado pelo voto popular. Sua ascensão também representa a consolidação de um grupo político que, em poucos anos, passou do controle da prefeitura de São Gonçalo à disputa pelo comando estadual.
Uma carreira construída entre São Gonçalo e o governo estadual
Nascido em 17 de janeiro de 1989, Douglas Ruas é advogado, pós-graduado em gestão pública e inspetor da Polícia Civil. Filho do prefeito Capitão Nelson (PL), começou a ocupar cargos públicos na administração municipal, passando pela Subsecretaria de Trabalho, entre 2017 e 2018, e pela superintendência regional do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), entre 2019 e 2020.
Com a eleição do pai para a prefeitura, assumiu em 2021 a Secretaria Municipal de Gestão Integrada e Projetos Especiais, responsável pela articulação de investimentos e projetos estratégicos da administração.
Em 2022, elegeu-se deputado estadual com 175.977 votos, a segunda maior votação para a Assembleia Legislativa naquele ano. Em setembro de 2023, licenciou-se do mandato para assumir a Secretaria estadual das Cidades, no governo Cláudio Castro (PL). A pasta, responsável por obras de pavimentação, drenagem e urbanização, ampliou sua presença política em municípios do interior.
Em abril de 2026, após deixar o Executivo, foi eleito presidente da Alerj. Já era o candidato escolhido pelo PL para disputar o governo estadual, com o apoio de Flávio Bolsonaro e de lideranças como o deputado federal Altineu Côrtes.
Investigações acompanham a ascensão política
A trajetória de Douglas, entretanto, também é acompanhada por investigações sobre seus negócios privados e sua passagem pelo governo estadual.
Em julho, o Ministério Público do Rio instaurou um procedimento investigatório criminal para apurar suspeitas de peculato, lavagem de dinheiro, crimes licitatórios e organização criminosa. A investigação examina o crescimento patrimonial das empresas Saur Construção, Terraplanagem e Locação e DM Invest, das quais o deputado é sócio.
Entre os negócios identificados estão aquisições de imóveis pela Saur que somam R$ 7,4 milhões. O Ministério Público também examina transações envolvendo uma empresa ligada à família de Altineu Côrtes, aliado político de Douglas. O procedimento tramita sob sigilo no Tribunal de Justiça.
Outra frente envolve uma auditoria da Procuradoria-Geral do Estado sobre contratos da Secretaria das Cidades durante sua gestão. Foram apontadas possíveis irregularidades em contratos que somam R$ 702 milhões, incluindo um aditivo de 45% concedido apenas duas semanas depois da assinatura de um contrato de pavimentação.
Douglas nega irregularidades e afirma que suas atividades empresariais não se confundem com suas funções públicas. Sua assessoria também declarou que as empresas não mantêm contratos com órgãos públicos. A própria Procuradoria-Geral do Estado informou não ter localizado pagamentos estaduais à Saur e à DM Invest. As investigações não representam condenação.
Um estado em crise e uma eleição decidida nos tribunais
A chegada de Douglas ao governo ocorre depois de uma das mais conturbadas sucessões políticas do Rio desde a redemocratização.
A crise ganhou força com as investigações envolvendo Rodrigo Bacellar, então presidente da Alerj, preso pela Polícia Federal em dezembro de 2025 e posteriormente cassado pela Justiça Eleitoral. Em março de 2026, Cláudio Castro renunciou ao governo às vésperas de um julgamento no TSE, que terminou com sua inelegibilidade.
Sem vice-governador, cargo deixado por Thiago Pampolha para assumir uma vaga no Tribunal de Contas, e sem presidente efetivo da Alerj naquele momento, o comando do estado passou ao presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Ricardo Couto.
A eleição de Douglas para a presidência da Assembleia, em abril, abriu uma disputa sobre a sucessão. O deputado tentou assumir o governo, mas decisões do Supremo Tribunal Federal mantiveram Couto no cargo. A administração interina promoveu auditorias de contratos e exonerações em massa, expondo problemas herdados da gestão Castro.
Nesse ambiente, Eduardo Paes iniciou a campanha como favorito. Douglas, inicialmente distante nas pesquisas, cresceu com o apoio do bolsonarismo, a capilaridade política conquistada na Secretaria das Cidades e a estrutura de aliados municipais. Terminou o primeiro turno à frente de Paes, contrariando as projeções dos institutos de pesquisa.
Em São Gonçalo, sua principal base eleitoral, recebeu aproximadamente 60% dos votos válidos.
O desfecho da eleição acabou nas mãos do TSE. Garotinho concorreu com o registro indeferido pelo TRE-RJ, em razão de uma condenação relacionada a desvios de recursos públicos na área da saúde durante o governo de Rosinha Garotinho. Seus votos permaneceram condicionados à decisão definitiva da Justiça Eleitoral.
Depois da votação, o ex-governador pediu para desistir do recurso, movimento que provocou reação da campanha de Paes, que denunciou uma tentativa de alterar o resultado eleitoral. Nesta quinta-feira, o TSE formou maioria para rejeitar a desistência e manter a anulação dos votos.
Os desafios do novo governo
Douglas deverá assumir um estado pressionado pela crise de segurança pública, pelo avanço territorial de organizações criminosas e pelo desgaste das instituições políticas. Um dos principais desafios será executar o plano de retomada de territórios dominados por facções e milícias, sob acompanhamento do Supremo Tribunal Federal.
A situação das contas públicas também exigirá decisões difíceis. O estado enfrenta pressões fiscais, demandas crescentes por serviços públicos e a necessidade de recuperar a capacidade de investimento. As auditorias realizadas durante o governo interino ainda colocam sob questionamento contratos e estruturas administrativas herdados de Cláudio Castro.
Há também um desafio político particular. Douglas terá de governar com parte dos aliados envolvidos em investigações e demonstrar independência em relação ao grupo que o levou ao poder. Sua promessa de renovação será confrontada com a experiência de ter integrado o governo anterior, dirigido uma de suas secretarias mais importantes e construído a carreira sob a influência do pai e de Altineu Côrtes.
Para São Gonçalo, a eleição representa uma mudança histórica de posição no tabuleiro estadual. A cidade, tradicionalmente importante como reduto eleitoral, passa a ter um de seus próprios políticos no comando do Palácio Guanabara.
Geremias de Mattos Fontes chegou ao governo do antigo estado do Rio pela escolha indireta da Assembleia Legislativa, durante a ditadura. Douglas Ruas chega pelo voto popular, embora a definição de sua vitória tenha dependido de uma decisão judicial. Entre os dois, passaram-se 55 anos desde o fim do mandato de Geremias e 51 desde a fusão dos estados.
Agora, a expectativa histórica dará lugar à cobrança pelos resultados.
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